O futuro da esquerda

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O fim da civilidade, decretado pela direita tucano-pefelista, neste último mês de campanha, está trazendo à luz pelo menos três aspectos da realidade brasileira.

 

Primeiro, a natureza reacionária e antidemocrática dos novos representantes políticos da burguesia financeira e da burguesia agrária. Segundo, a oposição de grandes parcelas das camadas populares e das classes médias a tal reacionarismo. E, terceiro, as clivagens da esquerda diante dessa polarização.

 

A nova direita política é, em grande parte, formada por parcelas oriundas da intelectualidade política democrática e de esquerda que se defrontou com a ditadura militar. No curso da emergência das lutas operárias e populares e da formação do PT, assim como da ofensiva ideológica e política do neoliberalismo, muitos de seus membros se transformaram no oposto do que representaram no passado.

 

Com isso, repetem uma experiência histórica peculiar da esquerda brasileira, que teve em Carlos Lacerda seu expoente mais significativo. Quem conheceu esse personagem da história brasileira certamente se lembrou dele ao assistir ao candidato Serra deblaterando sobre a suposta tolerância de Lula com "quem rouba", e qualificando a candidata Dilma de "envelope fechado". A grande desvantagem de Serra é que não tem a oratória de Lacerda, nem um ambiente de conspiração militar generalizada. Mas a natureza golpista e reacionária é a mesma.

 

Essa truculência tucano-pefelista também está colocando em evidência algo que uma parte da esquerda se nega a ver. Isto é, que grandes massas do povo brasileiro consideram as atuais eleições como um acerto de contas com a herança de FHC e depositam uma firme confiança em Lula e no PT. Ou seja, além de encararem as atuais eleições como polarizadas e plebiscitárias, grandes parcelas do povo estão convictas de que as mudanças implantadas pelo governo Lula, mesmo contendo erros e problemas, relacionados ou não com suas alianças políticas, apontam para um caminho seguro de transformação social e política.

 

Uma parte da chamada esquerda democrática se encontra perdida na enseada tucano-pefelista, sem se dar conta de que está dormindo com o inimigo. É doloroso ver candidatos dessa esquerda, com discursos de mudanças democráticas e populares, sendo apresentados por FHC, Serra, César Maia e outros personagens que quase quebraram o Brasil e levaram o povão ao desemprego e à miséria.

 

A parte da esquerda que se considera revolucionária está na oposição. Embora procure se distanciar da direita que também é oposição, seu inimigo principal e alvo de seus ataques tem sido o governo Lula e a esquerda que apóia Dilma. Na prática, o povão acaba confundindo-a com seus inimigos de direita.

 

A maior parte da esquerda, que apóia Dilma, também se debate diante da realidade complexa do país. Isto parece ser mais evidente dentro do PT, onde havia uma corrente que pregava abertamente a impossibilidade de uma eleição polarizada e trabalhava para construir pontes com o tucanato. A evolução da campanha eleitoral, apesar da ausência de ataques petistas ao tucanato, está demonstrando que aquela corrente estava totalmente enganada, pelo desconhecimento da natureza antidemocrática e reacionária do tucano-pefelismo.

 

Também é dentro do PT que continuam se apresentando brechas relacionadas com a tibieza em adotar procedimentos ideológicos, políticos e organizativos condizentes com um partido de esquerda que quer transformar o Estado e a sociedade. Um partido desse tipo não pode ter aloprados, filiados facilmente cooptáveis por dinheiro fácil, nem agentes infiltrados que possam navegar tranqüilamente por suas fileiras. Se o PT não adotar procedimentos que o blindem contra os arrivistas e oportunistas que procuram fazer carreira em qualquer partido que seja governo, aquelas brechas podem se tornar voçorocas, deixando-o indefeso diante das armações que tendem a crescer nas disputas institucionais.

 

Nessas condições, a vitória do PT e Dilma não representará apenas um acerto de contas com a ideologia e as políticas neoliberais, condensadas na candidatura Serra. Nem apenas um impacto muito sério na esquerda que se aliou à direita, formal ou informalmente, nos ataques ao governo Lula e à candidatura Dilma. Ela deverá representar também uma reestruturação ideológica, política e organizativa do PT, se esse partido quiser enfrentar com sucesso os desafios para aprofundar as mudanças democráticas, econômicas e sociais que as camadas populares reclamam.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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Comentários   

0 #21 SugestãoRaymundo Araujo Filho 22-09-2010 07:46
Sugiro que o Gabriel, antes do fim do ano, leia Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol. Se estiver com preguiça, veja o filme com Tim Robins,legendado que d´menos trabalho nda.

Sugiro também que veja as séries antigas de faroeste, tipo Rim Tim Tim, Roy Rogers e Bat Masterson (aquele da bengala de cabo de prata.

Se mesmo assim, não acordares de sua ilusão, Feliz Ano de 2011!
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0 #20 zeca pedra 22-09-2010 06:12
''tudo é possivel se desejar muito''

infelismente o partido dos trabalhadores não representa mas a confiança e a motivação politica revolucionaria; faz tempo! por outro lado os partidos que estão ai pstu e companhia não conseguem vislumbrar o processo de ruptura.............. a cut ta engolida pelo governo de lula...... só tem uma saida; unificar os movimentos sociais e construir um novo partido!
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0 #19 onde está o distanciamento ao programa npablo 21-09-2010 09:06
gostaria que o autor comentasse a respeito de em que o governo Lula se distancia da ideologia e políticas neoliberais. Por ex., apesar da grita quando em oposição, nada se fez para reverter o quadro criminoso provocado pela privatização da Vale do Rio Doce e quebra do monopólio de exploração do petróleo pela Petrobras.
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0 #18 concordo com a análisegabriel 21-09-2010 00:07
muito boa análise Pomar. Sugiro que você sente com o Emir Sader, o Zé dirceu e o Walter Pomar para tirar uma estratégia para disputar o governo, pois a imprensa corporativa já está pressionando pela volta do pallocci (neoliberal) para fazer ajuste fiscal. Agora para de fato disputar o governo é necessário que se faça através da pressão dos movimentos sociais e o horizonte deve ser reformas estruturais de cunho democrático e popular: reforma agrária, democratização das comunicações, fim do superávit primário, 10% do pib na educação, investimento pesado no SUS, ETC. É preciso que o próximo governo avance nesses pontos senão não conseguiremos superar a fase do melhorismo.
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0 #17 À direita da direitaFidelis Pedro Pretto 20-09-2010 13:23
O Pomar faz-me rir.Quando parte considerável da direita é chamada por Lula e pelo PT, fica tudo certo. Quando parte considerável da esquerda não aceita tamanha aberração,para Pomar, está junto com a direita. Aí fica fácil fazer análise da atual conjuntura política nacional. Quando é a meu favor vale, se questiona, está do outro lado.
Toda o lixo produzido ao longo da história deste país agora também tem as digitais do PT. Em oito anos de governo Lula nada foi feito para mudar esta situação. A era das cavernas continua interminável. A civilização nunca chega a este país. Por acaso o governo do PT fez algo para enfrentar o lixo dos serviços dos cartórios? Afinal, a OAB tem mais poder que o MEC?E os meios d comunicação? O que fez o PT para democratizá-los? O que o atual governo fez, e bem, foi ficar bem quieto quanto aos grandes problemas nacionais, e concordar com tudo o que a direita e grande mídia sempre propugnou. Por tanto, Pomar,o que o PT sempre quis não foi fazer um Brasil melhor, apenas procurou um ótimo guarda-chuva para o próprio partido.
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0 #16 análise perfeitaJorge 20-09-2010 11:06
parabéns pela análise lúcida e crítica do contexto político brasileiro.
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0 #15 izilda 20-09-2010 04:55
Se a Candidata Dilma ganhar as eleções, vai ser um desastre. Chega de PT ,corrupções etc.
Ela não tem perfil para ser Presidente.
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0 #14 Dívidas ainda não pagas...Raymundo Araujo Filho 19-09-2010 07:27
Com a lembrança de FHC no comentário mais acima, lembro que Wladimir Pomar ainda nos veve a citação sobre quais as Reformas e Politicas que declarou que foram POSITIVAS, no governo FHC.

Agora nos deve, o nobre Pomar, a itação sobre quais as "pessoas de esquerda" que votam no Serra.

Será que se refere ao Ferreira Goulat? Ou a Maitê Proença que se promovia às custas do Betinho?

Sem estas citações que solicito, os artigos de WP apenas se reduzem, a meu ver, a peças do mais puro Jornalismo Marron que tanto combartemos.

Aguardo...
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0 #13 \"O Futuro Facista\"Aldir Nunes 17-09-2010 05:06
O último parágrafo do "articulista" fecha com "chave de ouro" os prognósticos dessa nova geração de analistas proto/fascistas do "LuloPetismo": "Nessas condições a vitória do PT e Dilmanão representará apenas um acerto de contas com a ideologia e as políticas neoliberais...
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0 #12 FHC FOI TÃO RUIM ASSIMRoberto Canavezzi 16-09-2010 19:34
Fala-se tanto do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, da sua herança maldida.
Pergunto se foi tão ruim ela deveria ser extirpada, mas como não foi creio que a herança foi boa.
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