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América do Sul e os desafios da herança colonial Imprimir E-mail
Escrito por Grupo São Paulo   
Terça, 14 de Setembro de 2010
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Em artigo recente, Samuel Pinheiro Guimarães, ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República do Brasil, enunciou interessantes reflexões sobre os desafios que os Estados da América do Sul têm pela frente ao longo da próxima década. Destacamos aqui os principais elementos de sua argumentação. O artigo do embaixador pode ser conferido na íntegra no sítio da Agência Carta Maior (www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16822.

 

A América do Sul é um arquipélago de sociedades e economias subdesenvolvidas, separadas pela distância, por obstáculos geográficos e pela herança das políticas coloniais que as isolavam cada uma das demais e que as vinculavam exclusivamente a suas metrópoles, Madri e Lisboa.

 

Sobre imensas riquezas do solo e do subsolo, em um território de 18 milhões de km², vivem e trabalham 400 milhões de sul-americanos, em permanente mestiçagem, a partir de suas origens africanas, indígenas, européias e asiáticas, com pujante cultura e unidade lingüística ibérica.

 

Um desafiador paradoxo existe na América do Sul: um continente extremamente rico em recursos minerais, energia, potencial agrícola e biodiversidade, em que se encontram sociedades que ostentam níveis extraordinários de pobreza e de exclusão, ao lado de riqueza excessiva, ostentatória e de padrões de consumo copiados dos países centrais do capitalismo.

 

As causas históricas deste paradoxo se encontram nas relações entre as colônias, que se tornaram os países da América do Sul, e as metrópoles subdesenvolvidas, Portugal e Espanha, que ficaram praticamente à margem do Renascimento, do Iluminismo e da Revolução Industrial. Essas metrópoles chegaram a proibir, em benefício do monopólio comercial, os incipientes esforços de industrialização nas colônias, e organizaram os seus sistemas políticos e econômicos com base no trabalho escravo ou servil, na mineração e no latifúndio agrícola, para atender às metrópoles; também dificultaram, pela Inquisição, o progresso cultural e científico das sociedades coloniais.

 

As estruturas econômicas nacionais da região se caracterizam por grandes complexos exportadores de minérios e de produtos agrícolas, ao lado de setores industriais de pequena dimensão e de baixa eficiência, que se dedicam ao processamento de matérias-primas locais para o mercado interno, tais como têxteis e alimentos, com a exceção de situações específicas como a do Brasil e a da Argentina, que têm parques industriais consideráveis. Mas todos, dos menores aos maiores, são ameaçados e atingidos periodicamente por políticas liberais de abertura comercial indiscriminada, por políticas cambiais que utilizam as importações para controlar a inflação e, agora, pela concorrência avassaladora da China, que afeta a integração comercial regional.

 

Sobre essa infra-estrutura econômica e social, e com ela interagindo de forma intensa e inseparável, há uma dinâmica política em que se entrechocam seis fenômenos: a hegemonia das elites tradicionais, os latentes ressentimentos históricos, a emergência política de movimentos indígenas, a difusa influência dos EUA, as novas presenças espanhola e chinesa e as reiteradas tentativas de integração econômica e de coordenação política.

 

Na partilha do mundo pelas grandes potências, a partir do século XIX, a América do Sul sempre foi considerada incontestável zona de influência dos EUA, que veio a receber inclusive uma estruturação política, com a criação da Organização dos Estados Americanos (OEA), em 1948. Do ângulo econômico, os EUA têm buscado permanentemente criar uma área de livre comércio das Américas (ALCA). Diante das dificuldades e da recusa dos principais países da América do Sul – Brasil e Argentina –, os EUA passaram a expandir a sua influência econômica na região através de acordos bilaterais de livre comércio, que já celebraram com o Chile, o Peru e a Colômbia.

 

Em 2004, a Venezuela lançou a ALBA (Aliança Bolivariana para a América), em contraposição à ALCA, e que se propõe à cooperação econômica entre os países que hoje a constituem: Venezuela, Cuba, Equador, Bolívia, Dominica, Antígua e Barbuda, Nicarágua, São Vicente e Granadinos. O movimento bolivariano propõe políticas mais firmes em relação às corporações transnacionais que se dedicam à exploração de recursos minerais, e por isso tem sofrido forte oposição, especialmente dos países que celebraram acordos de livre comércio com os EUA, o que gera novas tensões na região.

 

A iniciativa mais recente e abrangente de coordenação política entre os países da região é a Unasul (União das Nações Sul-Americanas), que já instituiu um Conselho de Defesa, um Conselho sobre Drogas e realizou histórica Conferência de Chefes de Estado da América Latina e do Caribe, a primeira sem a participação de EUA ou Espanha.

 

As características da América do Sul – riqueza mineral e energética; grandes extensões de terras aráveis não utilizadas; população cada vez mais urbana em processo de estabilização demográfica – tenderão a condicionar o papel da região em um cenário político mundial em que a disputa pelo acesso a recursos naturais e a alimentos será fundamental.

 

Essas tendências deverão se agravar nesta segunda década do século XXI devido à subordinada inserção da região na economia global e às resistências das elites em implantar políticas econômicas e sociais capazes de ampliar com vigor a produção e ao mesmo tempo redistribuir riqueza e renda, conferindo maior poder político à grande massa da população.

 

O futuro do Brasil depende da América do Sul e o futuro da América do Sul depende do Brasil. O Brasil tem fronteiras com nove dos doze Estados da região, o que faz do país o terceiro do mundo em número de vizinhos. O Brasil tem 50% do território da América do Sul; 50% de sua população; 50% do PIB regional; 50% do seu potencial hidrelétrico; mas também 50% dos analfabetos e 50% da população abaixo da linha de pobreza.

 

Caso o desenvolvimento de cada país da região seja deixado ao sabor da demanda do mercado internacional e dos humores das estratégias de investimento das corporações transnacionais, as assimetrias entre os Estados da região, e dentro de cada Estado, se acentuarão, assim como as tensões políticas e os ressentimentos, o que virá a afetar de forma grave as perspectivas de desenvolvimento do Brasil e da América do Sul.

 

Andrea Paes Alberico, Elisa Helena Rocha de Carvalho, João Xerri, José Juliano de Carvalho Filho e Thomaz Ferreira Jensen, do Grupo de São Paulo - um grupo de pessoas que se revezam na redação e revisão coletiva dos artigos de análise de Contexto Internacional do Boletim Rede, editado pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, de Petrópolis, RJ.

 

Contato: gruposp(0)correiocidadania.com.br

 

Artigo publicado na edição de agosto de 2010 do Boletim Rede.

 

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Última atualização em Qui, 16 de Setembro de 2010
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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