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Negociações pela paz na Palestina: esse talk-show não dá ibope Imprimir E-mail
Escrito por Luiz Eça   
Segunda, 13 de Setembro de 2010
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Lançadas com muitas fanfarras, as "peace talks", conversações de paz entre israelenses e palestinos, não passam de um "show" montado por Barack Obama para impressionar o público americano, de olho nas eleições parlamentares de novembro.

 

Na verdade, os principais atores deste espetáculo (muito mais midiático do que outra coisa), ou seja, os árabes e os israelenses, duvidam de um "happy end", consubstanciado na criação de um Estado palestino independente e viável com garantias de segurança para Israel.

 

Abbas, o presidente da Autoridade Palestina, sempre jurou que só aceitaria reunir-se com o governo israelense caso ele congelasse os assentamentos judeus na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.

 

No começo, Obama somou com essa pré-condição. E fez de tudo para Netanyahu concordar.

 

Afinal, era exigência lógica. O desejado Estado palestino teria, forçosamente, de desapossar os judeus das áreas da Cisjordânia ocupadas pelos assentamentos. Fazer o contrário, ou seja, ampliar os assentamentos enquanto se discutia sua extinção, seria um contra-senso, indicativo da nenhuma disposição do governo de Israel de aceitar uma paz justa.

 

Obama apelou, exigiu, pressionou. Netanyahu fez pé firme, apoiado pelo congresso de Washington ("o melhor congresso que o lobby israelense pode comprar", conforme um jornalista americano). Aceitou apenas um congelamento parcial e temporário, por seis meses.

 

Mas as pesquisas eleitorais nos EUA fizeram Obama esquecer as pressões (inúteis) pelo congelamento dos assentamentos e propor "peace talks", sem pré-condições. Para forçar Abbas a também mudar de idéia, mobilizou os aliados árabes – Egito Qatar e Jordânia. Abbas vacilou, pois eles haviam pagado apenas 115 milhões de dólares dos 550 prometidos para as despesas da Autoridade Palestina... Temia o fechamento das burras desses países.

 

Quando recebeu carta de Obama, ameaçando retirar o reconhecimento da Autoridade Palestina, Abbas acabou topando as conversações mesmo sem o congelamento dos assentamentos (Al Jazeera, 1 de setembro de 2010).

 

O Hamas chiou forte. Negou-se a participar. Aliás, nem fora convidado. George Mitchel, o homem de Obama para o Oriente Médio, declarou que o movimento palestino seria bem-vindo desde que renunciasse à violência e reconhecesse Israel.

 

Exigências impossíveis enquanto Israel continuar assassinando militantes palestinos, como fez recentemente em Dubai, e insistir em ser um "Estado judeu", o que inviabiliza o direito ao retorno dos árabes expulsos nas guerras de independência.

 

Sem o Hamas, que governa Gaza, Abbas não representa toda a população palestina, apenas a metade, ou seja, os habitantes da Cisjordânia. Portanto, não tem credenciais para celebrar acordos em nome de todos os palestinos.

 

O Hamas não está sozinho contra as "peace talks". Elas foram condenadas em manifesto por cerca de 500 líderes e personalidades respeitadas de todas as organizações palestinas, inclusive alguns do próprio Fatah, o movimento de Abbas. Eles temem que Abbas acabe se conformando com algumas concessões pouco significativas, o que enfraqueceria a luta pela independência palestina.

 

A fragilidade do presidente da Autoridade Palestina alimenta esses temores. Sob pressão, além de ter aceito reunir-se com Netanyahu , renunciando à pré-condição do congelamento, retirou o apoio palestino ao relatório da Comissão da ONU que condenou Israel por violências em Gaza – só para citar algumas humilhantes rendições.

 

Mas Abbas jura que desta vez não irá afinar. Recentemente, declarou ao jornal Al-Quds, na Líbia, que, caso pressionado a fazer concessões com respeito às fronteiras de 1967, refugiados e assentamentos, "pegarei minha pasta e irei embora".

 

Por sua vez, o governo israelense vai às "peace talks" disposto a ceder pouco, mas muito pouco, pois tem posição firmada contra as reivindicações básicas dos palestinos.

 

De cara, surgirão problemas com referência aos assentamentos, cujo congelamento vence já em 26 de setembro. Netanyahu cansou-se de repudiar sua devolução. Ainda noutro dia, inquirido sobre isso, em reunião preparatória do Ano Novo Judeu (8 de setembro), respondeu: "Não se preocupem. Ninguém precisa me ensinar o que é amar Eretez Israel". Ora, em termos bíblicos, Eretez Israel é toda a Palestina, inclusive a Cisjordânia...

 

E Lieberman, o ministro das Relações Exteriores, num evento do Yisrael Beitenu, afirmou que o congelamento dos assentamentos tem de acabar, ressalvando, porém, que um acordo temporário com os palestinos é o que se pode esperar das conversações de paz.

 

Se Abbas não quiser se desdizer, as chances de "pegar a pasta" são muitas. Mas, e Obama?

 

Não parece viável que ele monte esse show eleitoral para acabar logo no primeiro ato, ou seja, na reunião do dia 14 de setembro, que inaugurará as conversações diretas. É mais provável que convença Netanyahu a demonstrar espírito de conciliação. Talvez libertar algumas centenas dos 10 mil palestinos presos em Israel por razões políticas. Ou acabar com os temidos raids noturnos do exército israelense na Cisjordânia – entregando o patrulhamento às forças da Autoridade Palestina. Ou mesmo suspender o bloqueio de Gaza, mantendo, é claro, inspeções rígidas para impedir a entrada de armas.

 

Qualquer destas medidas não teria grande efeito, pois não representam alterações no "status quo" da Palestina. Poderiam, porém, ser apresentadas como o primeiro passo, deixando-se o avanço das negociações para mais tarde, de preferência para depois das eleições americanas... Os eleitores dos EUA aplaudiriam Obama e talvez votassem no seu Partido Democrata.

 

Em termos de imagem internacional, Israel também sairia ganhando. E bem que anda precisando disso. Deu no Hareetz, jornal israelense, de 19 de agosto: "Pesquisa de Stanley Greenberg, patrocinada pelo Israel Project: em agosto de 2009, 63% dos americanos disseram que os EUA deviam apoiar Israel. Em julho deste ano, somente 51%".

 

Até onde Netanyahu poderá ir é difícil dizer. Não muito longe, considerando seu passado e a posição ultra-direitista dos partidos que o apóiam. Alguma coisa ele deverá oferecer. O suficiente para demonstrar aos seus públicos interno e externo que teve boa vontade em solucionar a questão. Contará, certamente, com o apoio das mídias do seu país e dos EUA, o que não é pouca coisa, para magnificar sua "generosidade".

 

A bola vai acabar sobrando para Abbas. Se ele rejeitar uma concessão claramente insignificante, poderá sair bem, ganhar a aprovação desde a do Hamas até dos países árabes da área de influência da Casa Branca.

 

O problema é que aparentemente Netanyhau deverá arriscar-se perante a coalizão que o apóia, oferecendo algo sensível de uma boa exploração publicitária como, por exemplo, alguma das possíveis concessões listadas acima.

 

Aí, Abbas ficaria numa situação difícil. Dizendo "sim" aos israelenses, perderia prestígio junto à população da Cisjordânia, podendo até provocar um racha no seu próprio movimento, o Fatah. O que seria catastrófico, já que deverá haver eleições palestinas neste ano...

 

A catástrofe também se desenha no caso de uma negativa. É certo que a população árabe a aplaudiria. Uma vitória eleitoral, então, seria quase certa. No entanto, novas dúvidas surgem.

 

Numa situação assim, o apoio palestino contrabalançaria a possível perda dos recursos financeiros dos Estados árabes pró-EUA?

 

Uma rejeição do presidente palestino não alienaria a amizade e o apoio político e logístico do governo Obama? Dilema hamletiano.

 

Aconteça o que acontecer, uma coisa parece provável: o show de Obama não alcançará seu objetivo oficial. A paz no Oriente Médio, no prazo de um ano estabelecido pela Casa Branca, tende a ser uma conquista prá lá de duvidosa.

 

Luiz Eça é jornalista.

 

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Última atualização em Terça, 14 de Setembro de 2010
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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