Qualquer semelhança não é mera coincidência

 

O Brasil ainda tem muito a conquistar nos quesitos saúde, educação, saneamento, moradia, segurança e infra-estrutura (rodovias, portos e aeroportos). É um gigante de pés de barro. Contudo, nossa democracia se aprimora graças aos movimentos sociais, à mídia vigilante, à exigência de transparência e adoção de leis como a Ficha Limpa.

 

Algo de novo marca a atual disputa presidencial. Os quatro candidatos com melhor posição nas pesquisas têm em comum muito mais do que julga o nosso vão preconceito. Nenhum deles procede das tradicionais oligarquias que se acostumaram a fazer na vida pública o que fazem na privada. Nem pertencem à elite brasileira ou nasceram em berço esplêndido. Os quatro se originaram na classe pobre ou média.

 

Todos abominam a ditadura militar, o conservadorismo e tiveram na esquerda sua iniciação política. Três foram vítimas da ditadura: Plínio (cassado e exilado); Serra (exilado) e Dilma (presa e torturada). Marina, alfabetizada aos 16 anos, sofreu a opressão do latifúndio amazônico. Filha do seringal e discípula de Chico Mendes, viu-se obrigada a se "exilar" da floresta para livrar-se da pobreza e da falta de escolaridade.

 

Os programas de Dilma, Serra e Marina têm mais pontos em comum do que diferenças. A exceção é Plínio, que não se envergonha de defender o socialismo. O PSOL vale-se do período eleitoral para divulgar suas propostas e se afirmar como partido. Isso oxigena o debate democrático.

 

Dilma, Serra e Marina se irmanam na arte de se equilibrar na corda bamba. Evitam tombar à esquerda ou à direita e adotam discurso que não desagrada nem um nem outro. Assim, a distância entre oposição e situação quase se anula e permite a Lula, que faz um bom governo, manter-se na confortável posição de quase unanimidade nacional. E a Henrique Meirelles despontar como o nosso Alan Greenspan, que ficou quase 20 anos à frente do Banco Central dos EUA.

 

Embora discurso de campanha seja como produto de feira livre – não passa recibo – e os quatro candidatos apareçam envoltos numa aura de confiabilidade, o problema reside no andar de baixo. Ao contrário do ditado, o andor é de barro e não o santo. Dilma ou Serra terão de governar sob pressão dos últimos redutos da oligarquia, o PMDB e o DEM, alvos de freqüentes denúncias de corrupção, nepotismo e outras maracutaias.

 

Marina, como já declarou, tentará suprir sua falta de alianças com um governo supostamente suprapartidário. O que, aliás, fez de fato o governo Lula, a ponto de merecer o apoio de Collor, Sarney, Renan Calheiros, Jader Barbalho, Roberto Jefferson e José Roberto Arruda. Plínio, realista, sabe que a chance presidencial do PSOL é ainda um projeto de futuro.

 

Algo de comum entre os quatro chama a atenção: o silêncio frente à corrupção que assola a política brasileira. Os quatro são éticos, fichas limpas. Mas Dilma, Serra ou Marina, quem for eleito, terá de quebrar ovos para fazer a omelete. Ou fazer de conta que, neste reino tupiniquim, que não se parece à Dinamarca, nada há de podre.

 

Quem vencer, verá. 

 

Frei Betto é escritor, autor de "Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros. Website: http://www.freibetto.org
Twitter: @freibetto

 

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Comentários   

0 #4 DessemelhançasFrancisco de Assis N. de Castr 14-09-2010 17:14
Meu caro Frei Betto: o Serra criticar Evo Morales, as FARC, o MST e outros mais não é pender para a direita? E Marina embarcar na armação tucano-demoníaca do vazamento do sigilo fiscal de tucanos e esbravejar em horário eleitoral que isso é um crime, sem nenhuma prova que ligue o suposto fato à campanha de Dilma não é pender para a direita?
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0 #3 Lucas Canzi Ames 14-09-2010 12:29
Em tempos de eleições presidenciais, não se trata apenas de criticar ou de defender um candidato, e sim de analisar suas posturas. Indefinição não se encaixa nesse artigo, visto que, logo no início, é afirmado que o país tem muito a conquistar, sendo, portanto, simplismente um gigante de pés de barro. Parabéns pelo artigo.
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0 #2 SemelhançasDulcinéa 13-09-2010 19:25
Nesta altura da campanha eleitoral, nego-me a aceitar que o meu queridíssimo Frei Betto, meu guru, o maior de todos, compare o Serra com a Dilma. Depois de tudo que o Serra está protagonizando, para ganhar a eleição no tapetão, não posso suportar que se coloque todos no mesmo balaio.
Frei Betto, vou com você aonde você for,seus livro "A Mosca Azul" e "Calendário do Poder" são minhas bíblias atualmente, pois em minha cidade estamos no 3º mandato do PT e eu sofro todas as dores pelo processo aqui: o oportunismo de neopetistas, recém-convertidos, outros que fingem que são o que nunca foram, enfim, a ocupação da máquina por pessoas as mais diversas possível, ideologicamente.
Mas, neste momento, com todas as dores pelo que vivo em minha cidade, não posso deixar de apoiar a Dilma e considerá-la o oposto de Serra.
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0 #1 QUEM FREI BETTO DEFENDE?RINALDO MARTINS 13-09-2010 05:46
Vejo em Frei Betto, nos seus últimos artigos relativos aos presidenciáveis, uma grande indefinição. Não era assim na época das candidaturas de Collor e FHC, quando ele mantinha uma postura mais clara de denúncia do que representava aqueles candidatos. Agora, porque é o Lula, mesmo que reproduzindo a mesma política, o nosso escritor mantém uma posição meio obscura. Frei Betto, estamos esperando de você uma posição mais firme e clara em relação a tudo isto que está acontecendo no país.
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