Eu tenho medo!

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Quem não se lembra do "Eu tenho medo!" de Regina Duarte quando, nas eleições de 2002, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva crescia nas pesquisas e ameaçava alcançar o posto máximo da presidência da República? A mesma situação de ameaça parece se repetir atualmente quando se procura mostrar que a candidatura de José Serra representa a burguesia e a volta do neoliberalismo. Em casos mais extremos, chega-se a falar de um possível retorno da barbárie. Filme reciclado que apela para o lado emocional dos eleitores, não para uma visão clara dos fatos.

 

Nos dois casos, tanto em 2002 quanto no atual processo eleitoral de 2010, o pânico apocalíptico joga fumaça nos olhos dos incautos, ofusca a realidade dos acontecimentos e impede uma análise mais objetiva da situação política. Nem Lula, quando eleito presidente, representou qualquer tipo de ameaça aos representantes do mercado financeiro internacional ou aos privilégios das classes dominantes nem o candidato Serra, se eleito, significará todo esse perigo anunciado.

 

Mais do que rupturas traumáticas, o que vemos no cenário político brasileiro é a continuidade mais ou menos tranqüila de um modelo político e econômico que se perpetua há décadas. Substancialmente, não se verificaram grandes transformações na passagem da gestão de Fernando Henrique Cardoso para Lula. Também deste para o próximo governo, seja ele quem for, não há sinais de mudanças que impliquem uma virada no rumo da política macroeconômica.

 

Nesta perspectiva, enquanto nas décadas de 1980-90 era teoricamente possível falar de uma disputa profunda de modelo político e econômico, de  projeto nacional/popular versus projeto liberal/neoliberal, hoje essa alternativa não existe. O que se verifica é uma disputa entre duas dimensões do mesmo projeto neoliberal. Longe de significar o retorno do neoliberalismo, Serra apenas dará continuidade ao programa de Lula, que por sua vez o herdou de FHC.

 

O que podemos discutir nessa eventual troca de poder é a maior ou menor fatia do bolo oferecida aos setores mais carentes da população. Tanto é verdade que as comparações entre os últimos governos se restringem em geral a elementos periféricos (quem fez mais ou menos obras), não chegando ao debate sobre um novo horizonte no palco da economia política.

 

Não simpatizo com o PSDB nem com José Serra, creio inclusive que este pode, sim, significar um abalo nas políticas compensatórias do governo Lula: bolsa-família, microcrédito, sistemas de cotas, projeção do Brasil como país emergente, repasse de verbas para os movimentos sociais, entre outras. Mas o cerne neoliberal da política econômica, diante de qualquer resultado das eleições, tende a permanecer intocável. A opção é por mais ou menos migalhas aos moradores do andar de baixo, não por políticas públicas de profundidade. Em ambos os casos e independentemente de quem assuma o governo, o risco é de se consolidarem como definitivas políticas que, em verdade, nasceram com um caráter emergencial. Numa palavra, as políticas compensatórias não podem substituir políticas públicas de longo alcance.

 

Um exemplo pode ilustrar: se colocarmos num prato da balança os gastos com o programa bolsa-família ou bolsa-escola, com a ajuda aos movimentos sociais e à agricultura familiar, e no outro prato os lucros dos maiores bancos brasileiros, a diferença em favor dos últimos é exorbitante. Isto sem falar da opção pelo agronegócio e a empresa agroindustrial, da elevada carga tributária como transferência de renda para as classes dominantes, do latifúndio, das telecomunicações, da rede de transportes e assim por diante.

 

De fato, ao assumir a presidência da República, paradoxal e ironicamente, o presidente Lula dá as costas ao projeto popular e às organizações que o elegeram, e passa a administrar o modelo que combatia. Três razões o levaram a isso: primeiramente, as expectativas em torno de sua vitória estavam muito acima da capacidade de organização e mobilização das forças sociais; depois, a famigerada carta endereçada ao povo brasileiro, mas dirigida ao mercado financeiro, tranqüilizou os especuladores e investidores nacionais e internacionais quanto ao cumprimento dos compromissos por parte do novo governo; enfim, diante de tais circunstâncias e sendo um político extremamente sagaz, Lula opta por costurar uma aliança pela governabilidade, a qual, como sabemos, incluiu setores dos mais variados matizes políticos.

 

Não houve uma mudança de rumo substancialmente profunda e abrangente. Tampouco agora se prevê tal coisa. Aqui não está em julgamento a boa ou má vontade do presidente Lula ou dos candidatos Serra e Dilma. São circunstâncias históricas que mostram mudanças na periferia do modelo, mas deixam intacto o miolo do sistema capitalista e neoliberal. Ou seja, continuidade sem grandes rupturas!

 

Em síntese, estamos convidados a votar por mais ou menos migalhas para os habitantes da senzala, não pela possibilidade de um modelo alternativo. Por isso, não vejo razão para tanto pânico, nem para enxergar as próximas eleições num contexto míope de turbulências apocalípticas.

 

Pe. Alfredo Gonçalves é assessor das pastorais sociais da CNBB.

 

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Comentários   

0 #6 FALTA DE CONHECIMENTOMilton 06-10-2010 13:38
O texto acima é lamentavel. Mostra pouquissimo conhecimento de desenvolvimento. O que nao pode é continuar o que o Lula esta fazendo. dar a bolsa familia sem dar orientacao, educacao e desenvolvimento aos assitidos. O Bolsa familia como esta hoje é como uma "esmola", nao pode, é preciso muito mais, se preocupamos com a miseria, alem de doar é preciso orientar e ensinar para sair da miseria senao o Brasil vai virar um pais super miseravel onde nenhum nivel de cultura havera entre os necessitados e alem do mais, serao simplesmente inuteis à sociedade. É isso que queremos ? ou para varias areas da sociedade quanto mais baixo o nivel é melhor para explorar ?...O perigo é com a Dilma porque é evidente que quem esta por traz dela é uma outra pessoa
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0 #5 O primeiro passo para a mudança é o recoIuriatan Felipe Muniz 01-09-2010 04:31
Certamente a visão do Pe. Alfredo é muito coerente e é constantemente desconstruída pelos meios de comunicação (que prezam muito por esta estabilidade do capitalismo). Vale destacar o argumento do texto que destaca que não está colocada uma real disputa de projetos políticos hoje no Brasil. Esta disputa seria o pano de fundo para o engajamento entusiasmado dos Teólogos da Libertação, dos movimentos sociais, etc. Isso é um aspecto que aumenta a importância do processo eleitoral/político e nos desafia a apresentar projetos nas eleições (por mais que não seja o exercício do poder executivo do Estado capitalista o meio de criar as condições para conscientização dos trabalhadores).

É preciso dar força aos processos de enfrentamento dos interesses dos poderosos. Nestes processos (avaliando pela experiência concreta de ver camisetas e bandeiras nas marchas do MST, plebiscitos populares, greves, ocupações, etc.) vejo muito mais a militância do PSOL que qualquer outro partido. O PT é ainda o maior negociador que fala pelos movimentos sociais, mas o maior agitador e politizador é, sem qualquer dúvida, o PSOL.

Nenhum nem todos aspectos positivos do governo Lula pode compensar a perda de autonomia política e capacidade de luta que o seu governo impôs aos trabalhadores conscientes e organizados do Brasil.
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0 #4 Domingos Carlos Silva Almeida 29-08-2010 19:15
Em parte concordo com Pe. Alfredo no que se refere à continuidade do modelo econômico no governo do PT. Porém, a história brasileira é muito dolorosa (350 anos de escravidão, golpe militar de 1964 que atrasou enormemente a construção de uma sociedade melhor,governos terríveis como os de Collor-Itamar-FHC...)para não enxergarmos os avanços adquiridos pelo campo popular. Nenhuma análise pode desconhecer os limites do nosso povo. As transformações sociais não se originam nos conceitos bem pensados e transmitidos. Elas dependem de muito esforço e grandes enfrentamentos. É verdade que houve uma desaceleração das mobilizações em prol de um Brasil socialista e mais igualitária. A nossa tarefa agora é aproveitar essa abertura histórica e cairmos em campo.Voto em Plínio de Arruda Sampaio para que alguém aponte um horizonte diferente, mas não concordo com o imobilismo de muitos (incluindo o PSOL)que ficam no pedestal da ideologia. Cadê o engajamento dos cristãos da Teologia da Libertação? Não falta nitidez política a esse segmento social? Cadê os militantes do PSOL nos movimentos sociais? (mais preocupados em afirmar o partido, lançar candidatos ....). Enfim, Pe. Alfredo, precisamos de uma visão histórica que não nos permita igualar FHC e Lula, mas que nos leve a um outro patamar de lutas sociais reconhecendo os limites de nossa história dolorosa.
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0 #3 Antonio Julio 27-08-2010 09:32
Parabéns, Pe. Alfredo. Artigo que merece ser divulgado!!!
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0 #2 Muito ao céu pouco à terraChico Xarão 25-08-2010 18:44
é possível transitar do capitalismo ao socialismo pela via democrática burguesa (eleição, governo, reformas)?
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0 #1 Não é questão de medoMárioNeto 25-08-2010 13:18
Bom texto. Provocante. Porém, não se trata de medo pois em 2002 se pregava esse sentimento diante de algo desconhecido, agora não, já conhecemos a forma tucana de governar e não aprovamos (classe C). O reverendo foca muito no sistema macro-econômico e está certo em relação aos lucros dos bancos e outros pontos do texto, mas o que ele chama de migalhas eu chamo de curso superior (apenas 1 exemplo), algo que eu não pude fazer antes da \"compensação do governo\" diante das injustiças sociais que fui submetido. Vejo que o governo trabalhou com as armas(sistemas) que tinha em mãos e assim conseguiu fazer o bolo crescer para os ricos, mas também para nós, pobres.
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