‘Dilma, Serra e Marina pautam-se pelo abandono de um projeto de transformação social’

 

O aproximar das eleições de 2010, bem longe de reforçar a empolgação característica de cenários pré-eleitorais, traz a cada dia a sensação de apatia política. Não somente por parte da população, já há alguns anos descrente das promessas vazias, e dos movimentos sociais, que vivem momento de notória desmobilização. Estamos também diante de uma acintosa homogeneização e desertificação de idéias, onde os candidatos fogem do enfrentamento político de modo assustador.

 

O quadro moldado a partir dessas características é aqui analisado pelo deputado federal pelo PSOL Ivan Valente, nosso entrevistado especial, a partir do desempenho das candidaturas presidenciais mais cotadas para o pleito de outubro – segundo o deputado, candidaturas que se pautaram pelo abandono de um projeto de transformações sociais mais profundas em nosso país. Marina Silva, que pretensamente se apresenta com ares de mudança, assentada na bandeira ambiental, não teria a menor condição de quebrar a polarização PT-PSDB. De acordo com Valente, além de não se ancorar no movimento social, propõe basicamente a mesma política.

 

A ausência de polarização entre os três principais candidatos, bem mais preocupados em assegurar o prosseguimento da ‘bonança’ iniciada com FHC e levada adiante por Lula, seguindo um nítido e uniforme script de marketing, é uma comprovação cabal das impressões do deputado Ivan Valente. Surfando no aparente êxito de nossa economia, onde o agronegócio conquista novos mercados, a estabilidade monetária se mantém e o Brasil se reafirma no cenário internacional, os candidatos se negam a fazer ‘Política’, um universo de controvérsias intrínsecas. Preocupam-se unicamente em reafirmar a continuidade do ‘êxito’. Esquecem-se do sofrimento da população carente nas filas dos hospitais públicos e em suas tentativas frustradas de matricularem seus filhos no ensino público de baixíssima qualidade.

 

Correio da Cidadania: Como você tem enxergado o cenário eleitoral neste momento, a dois meses das eleições, no que diz respeito ao posicionamento dos candidatos à frente nas pesquisas, Serra, Dilma e Marina?

 

Ivan Valente: As candidaturas do PT e do PSDB representam projetos que não têm diferenças essenciais no tocante à política econômica e à forma como sustentam a governabilidade, com alianças heterodoxas, pautadas pelo abandono de um projeto de transformação social mais profunda no nosso país.

 

Correio da Cidadania: Através do primeiro debate presidencial transmitido pela Band, não puderam, realmente, ser notadas diferenças substanciais nesses candidatos no que diz respeito a suas visões sobre as diferentes áreas de nossa economia e sociedade. Existiria, de todo modo, a seu ver, algum diferencial mais importante de algum deles relativamente aos demais? Marina, por exemplo, voltada ao Meio Ambiente, e desertora do governo Lula, seria este diferencial?

 

Ivan Valente: Há diferenças entre PT e PSDB, particularmente na política internacional e em algumas políticas compensatórias. A opção Marina Silva não consegue ser alternativa porque não se propõe, não tem condições, nem movimento social por trás para polarizar esta disputa. Marina não tem condições de quebrar a polarização entre PT e PSDB. Ela diz ser alternativa, mas, na essência, sua política é a mesma. Já o PSOL, apesar de ser um partido em construção, tem uma proposta alternativa de transformação social, baseada num programa capaz de empolgar grandes setores da população, trabalhando com ética na política e acreditando na força dos movimentos sociais e da participação popular. Temos demonstrado isso na prática, com nosso programa, conduta e esforço organizativo.

 

Correio da Cidadania: A mobilização popular, através dos diferentes movimentos sociais, e também o interesse demonstrado pela população em geral são dois termômetros importantes para se aferir o grau de envolvimento da cidadania em uma eleição. Como percebe estes fatores nessa eleição? Apresentam algum diferencial positivo relativamente às eleições passadas?

 

Ivan Valente: Nas ruas de São Paulo, a eleição ainda está fria. São pouquíssimos os candidatos que saem a público dispostos a dialogar com a população. Nas periferias, por outro lado, vemos máquinas eleitorais de campanhas milionárias operando a todo vapor. Mas isso não gera envolvimento nem interesse da população pelo processo eleitoral. Como uma parte dos movimentos sociais apóia a continuidade do governo Lula, representada na candidatura de Dilma, que tem crescido nas pesquisas, a mobilização desses movimentos também não é significativa.

 

Quem tem ido pra rua disputar corações e mentes são candidaturas como as do PSOL, que dependem da força militante, voluntária, para fazer chegar sua mensagem ao povo.

 

Correio da Cidadania: Quanto à cobertura da mídia, é sempre evidente o espaço desmedido que é concedido aos candidatos da ‘ordem’, geralmente os líderes nas pesquisas eleitorais. Qual a sua opinião quanto à cobertura das eleições que tem sido feita pelos maiores veículos?

 

Ivan Valente: A grande mídia tem sonegado à população brasileira o direito de conhecer as outras seis candidaturas à Presidência da República em disputa. A injustiça não é feita apenas com o Plínio, mas com todos os que não se enquadram no critério de "representatividade", baseado nas pesquisas de intenção de votos, criado arbitrariamente pelos grandes veículos para justificar sua cobertura.

 

O resultado é que essas candidaturas enfrentam assim dificuldades muito maiores de crescerem nas pesquisas, porque não dispõem de máquinas eleitorais para contratar milhões de cabos eleitorais e simplesmente porque não são conhecidas do grande público. O PSOL conseguiu espaço porque possui representação parlamentar com três deputados.

 

Correio da Cidadania: É realmente notável que, neste ano, o candidato à presidência pelo PSOL, Plínio de Arruda Sampaio, com apenas 1% nas últimas pesquisas que foram divulgadas, esteja conquistando alguma evidência nos maiores veículos. Em sua visão, a que se pode atribuir esta postura dos maiores veículos, que até poucos dias atrás mal mencionavam o nome do candidato? Estão correndo atrás dos tuiteiros ou haveria ainda outros fatores e interesses políticos por trás desta inversão de postura?

 

Ivan Valente: Depois do desempenho de Plínio no debate da Band, transmitido ao vivo para todo o país, a grande imprensa não conseguiu mais ignorar sua candidatura, apesar de seguir fazendo uma cobertura extremamente desfavorável a ele.

 

Mas não acho que seja com o objetivo de correr atrás dos tuiteiros. Acredito que a pressão da militância do PSOL e dos setores que defendem a democratização dos meios de comunicação, com igualdade de condições na disputa, ou seja, um mínimo de equilíbrio no espaço aberto aos candidatos, está começando a surtir efeito. Já estava feio demais para a grande mídia ignorar a candidatura de Plínio. Depois do debate, e com a aproximação da veiculação do horário eleitoral gratuito, seria inadmissível.

 

Correio da Cidadania: O que diferencia, basicamente, esta candidatura, assim como a de outros postulantes que se posicionam mais à esquerda no espectro político, no caso os representantes do PSTU e do PCB, dos candidatos mais cotados acima citados?

 

Ivan Valente: Acho que tanto a candidatura do PSOL, quanto a do PSTU e do PCB, propõem uma ruptura com a organização e funcionamento do Estado tal como são hoje. São partidos que, historicamente e até agora, afirmam o papel do Estado na garantia do interesse público e na promoção dos direitos dos mais necessitados. Ou seja, são partidos que não se renderam à lógica dos acordos políticos em nome de sua manutenção no poder a qualquer custo. Da mesma forma, são partidos que defendem a inversão de prioridades, e que os recursos do Estado sejam usados não para aumentar o lucro dos bancos, mas para garantir dignidade ao povo brasileiro.

 

Nós, do PSOL, defendemos que o Brasil reparta suas riquezas, suas terras, sua renda e seu poder. E isso nenhuma das três candidaturas que estão à frente nas pesquisas tem coragem de dizer. Por outro lado, o PSOL difere de partidos como o PSTU e o PCB porque tem maior expressão e representatividade de massa e leva em conta o nível da consciência e organização dos trabalhadores.

 

Correio da Cidadania: Todos estes candidatos mais à esquerda - a partir de algumas diferenças básicas, obviamente - têm posições contundentes quanto à necessidade de maior participação do setor público na economia, com a volta de estatização em setores essenciais como saúde, educação e infra-estruturas econômicas. Também reclamam a urgente necessidade de divisão de terras em nosso país, com a efetivação de uma radical reforma agrária. Como acha que a população percebe estas propostas no atual momento histórico?

 

Ivan Valente: A população em geral pode não defender a estatização da saúde e da educação, mas ela sabe, porque sente na pele, todos os dias, que esses setores não vão nada bem. Sabe disso porque não consegue matricular seus filhos na escola pública, cuja qualidade vai de mal a pior, ou porque é humilhada nos corredores dos hospitais à espera de atendimento. Da mesma forma, os trabalhadores do campo conhecem de perto os efeitos cruéis da concentração de terras no país, com a expulsão das populações do campo e o crescimento da miséria nas cidades.

 

O que uma campanha como a do PSOL pretende fazer é justamente dialogar com essa população sobre os desafios do país e a urgência de se construir e implementar um outro projeto de desenvolvimento. Um projeto para o qual esses temas não serão secundários, recebendo percentuais mínimos de investimento do orçamento público, enquanto mais de um terço dos recursos anuais da União vão para o pagamento de juros e amortizações da dívida pública.

 

Correio da Cidadania: Como se coloca efetivamente a perspectiva socialista no contexto de uma candidatura à esquerda, como a de Plínio, por exemplo?

 

Ivan Valente: O socialismo deve ser defendido como um sistema onde todos tenham seus direitos garantidos, onde a brutal desigualdade que temos no Brasil não seja vista como algo natural, e onde o mercado não seja o ditador das regras do funcionamento do país. É claro que o Brasil ainda precisa avançar muito para chegar ao socialismo. Mas é papel de uma candidatura de esquerda, como a de Plínio, mantê-lo no horizonte, ao contrário do que fazem tantos partidos que têm o socialismo no nome e negam sua história. Ou então daqueles que nasceram defendendo o socialismo e abandonaram esta bandeira no meio do caminho, porque ela deixou de lhes ser politicamente interessante.

 

A luta socialista hoje é aquela que ataca as bases de sustentação do regime capitalista, empolga as massas trabalhadoras e coloca o povo em movimento, com a luta pela Reforma Agrária, pela auditoria da dívida pública, a democratização dos meios de comunicação e a defesa dos direitos essenciais negados pelo capitalismo.

 

Correio da Cidadania: Não é uma demonstração de fraqueza o fato de esses setores de esquerda, que são já minoritários no debate político, não terem conseguido se reunir nestas eleições? O que explica tamanha distensão?

 

Ivan Valente: Não vejo esse fato como uma demonstração de fraqueza, mas de diferenças e divergências que ainda precisam ser equacionadas. Buscamos construir um programa para a candidatura de Plínio onde esses partidos se sentissem representados. Infelizmente, esta aliança não foi possível.

 

Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania

 

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Comentários   

0 #5 O sincero esforço do PSOLClaudio 20-09-2010 11:43
A forma com que os militantes da esquerda ficaram sabendo sobre a participação ou não de Plínio no debate [entre os partidos de esquerda] dá uma ideia da postura do PSOL. A Folha de S. Paulo desse dia 12 de setembro havia publicado uma nota cujo título era “Plínio esnoba debate da esquerda”. Diante disso, o candidato divulgou, no dia 13, uma nota contestando a matéria do jornal. Nela, porém, afirmava que não participaria do debate, por “problemas de agenda”, já que, segundo Plínio, já tinha compromisso agendado no dia 21...
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0 #4 Tobias Jr. 23-08-2010 14:17
conduzir com ética no atual modelo seria quase que o rompimento do capitalismo. Enfrentar a mídia e o judiciário e combater de fato a corrupção para mim já estaria de muito bom tamanho, isso reverberaria um efeito cascata sem precedentes. De outro modo só 1% da população \"defenderia patrioticamente\" o país. Ninguém quer guerra. Menos ainda ser massacrado.
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0 #3 Sturt 21-08-2010 11:08
Não tem como criar uma estrutura \"socialista\" dentro do capitalismo,isso é só utopia.Ou se rompe com as ditaduras do capital e do mercado ou fica num processo de continuedade.
Valente vem representando muito bem as bases de seu partido e de seu eleitorado,de acordo com a conjuntura complexa que temos hoje no Brasil.Merece como deve ser reeleito.
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0 #2 João Gabriel Vieira Bordin 19-08-2010 20:57
Apesar da justeza da análise do deputado com relação à conjuntura política do país, de um modo geral, e do processo eleitoral corrente, em particular, penso que a sua fala recaiu demasiada e preocupantemente nos velhos bordões demagógicos daqueles candidatos acostumados a fazer da cargo público uma profissão em proveito próprio, como, alías, é sintomático nas figuras políticas desse país. Desnecessário o senhor Ivan Valente responder às perguntas sempre assinalando, após desqualificar justamente seus opositores, a "diferença" do programa político de seu partido e de seus candidatos. É o velho chavão incansável e recorrente do "com eles é assim, como a gente é diferente". No fundo, tal comportamento demonstra, pelo contrário, as vicissitudes da prática política no Brasil, vicissitudes entranhadas quase que geneticamente, o que, de fato, torna quase todos os candidatos e partidos "farinha do mesmo saco". O conselho que daria ao senhor senador é de que, da próxima vez em que for entrevistado, deixe de lado as frases de auto-promoção. A qualificação do candidato e do partido advem naturalmente pela qualidade das respostas e pela participação séria, honesta e justa no processo eleitoral. Pode e deve acusar, pondo a nu as práticas políticas mistificadas e profundamente desonestas - como, alías, o deputado fez perfeitamente -, mas sem fazer propaganda política, o que, diga-se de passagem, chega a ser grosseiro durante uma entrevista.
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0 #1 Tobias Jr. 19-08-2010 15:42
Não há outra alternativa senão continuar insistindo na união entre esses três partidos. \\\"Desradicalização\\\" do discurso (não dos projetos), o tom do Plínio está de bom tamanho. Com uma conduta ética e transparente, talvez nem precisássemos da bandeira socialista para ver a nação viver dias melhores. Acredito no socialismo como utopia, mas acredito também que possa haver vida digna para todos dentro do capitalismo. Acho mais fácil Cuba aderir ao mercado do que o Brasil se tornar socialista, na acepção da palavra. Idealizo um Brasil repleto de cooperativas abrindo frentes de trabalho, profissionais do ensino organizando escolas de qualidade a preços justos, no campo e nas cidades, oportunidade para, inclusive, conscientizar a população estudantil quanto ao sistema e a sociedade enferma que assola a esperança.
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