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Com Netanyahu, nem os falsos ingênuos podem vislumbrar paz no Oriente Médio Imprimir E-mail
Escrito por Luiz Eça   
Segunda, 26 de Julho de 2010
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Em meados de julho, num vídeo veiculado pelo Canal 10 de Israel, o primeiro-ministro Bibi Netanyahu revelou sua verdadeira face. Foi numa reunião entre partidários, no assentamento de Ofra, em 2001. "Devemos golpeá-los (os palestinos)" proclamou, "não só uma só vez, mas muitas, de modo que eles tenham de pagar um preço insuportável. Um completo ataque contra a Autoridade Palestina para fazê-los ter medo de sofrerem um colapso total."

 

Quando um dos presentes mostrou receios da condenação mundial, Netanyahu tranqüilizou: "O mundo não dirá nada. O mundo dirá que estaremos nos defendendo. Eu conheço a América. A América pode ser facilmente levada para a direção certa. Eles não ficarão no nosso caminho".

 

Citando um exemplo, o primeiro-ministro israelense contou como enganara o presidente Clinton, fazendo de conta que colaborava na implementação dos acordos de Oslo, quando, de fato, estava sabotando-os. Sob patrocínio do governo americano, israelenses e palestinos haviam assinado os Acordos de Oslo, em 1993, que objetivava estabelecer um processo de paz que levasse à criação de um Estado palestino nos limites anteriores à guerra de l967. Netanyahu aceitara pequenas retiradas da Cisjordânia enquanto fortificava ainda mais a ocupação da região pelos israelenses. "Era melhor dar 2% do que dar 100%. Você dá dois 2% e assim a retirada acaba ficando nisso", argumentou. .

 

OK. Essa incontinência verbal de Bibi foi em 2001. De lá para cá, ele poderia ter evoluído... Lula, no passado, condenou as distribuições de bolsas aos pobres pelo governo FHC e, tempos depois, mudou e acabou criando o Fome Zero e o Bolsa Família. Mas, é diferente: os fatos provam que Netanyahu continua o mesmo. Afirma seu apoio à fundação de uma Palestina livre e, na prática, puxa o tapete para impedir que isso aconteça.

 

Já no início do seu segundo mandato, mostrou ao que veio ao nomear para ministro das Relações Exteriores o ultra-direitista Avigdor Lieberman, autor da proposta de expulsão dos cidadãos árabes de Israel.

 

Comprometido com a criação de um Estado palestino árabe, Obama defendeu-a formalmente no famoso discurso do Cairo.

 

Em teoria, Bibi concorda, mas, falando na Universidade Bar-Ilam, em Tel-aviv, esclareceu que tipo de Estado palestino ele visualizava: sem exército, sem o direito de controlar suas fronteiras, seu espaço aéreo e até de celebrar tratados com os países que desejasse. E isso Bibi considerava uma "concessão", pois os palestinos, segundo ele, não teriam direito à independência, já que a Cisjordânia (a "Judéia"mais a "Samária, como ele diz) seria parte de Israel, o "lar nacional dos judeus". Aceitaria discutir com os dirigentes árabes (menos os do Hamas), mas exigia que eles reconhecessem Israel como Estado judeu.

 

O que significaria renunciar ao direito de retorno dos árabes expulsos da Palestina pelo exército israelense em guerras passadas. Terminou negando-se a interromper a implantação de novos assentamentos. Postura totalmente incompatível com a idéia de um Estado palestino independente, o qual não poderia existir sem integrar em seu território as áreas da Cisjordânia ora ocupadas pelos assentamentos judeus. Por isso mesmo, Obama, durante meses e meses, apelou, insistiu, exigiu que Netanyahu aceitasse congelar a criação de novos assentamentos como condição prévia para a reunião entre israelenses e árabes.

 

Tudo que conseguiu foi um congelamento parcial, excluindo obras em Jerusalém Oriental, e assim mesmo provisório, com 10 meses de duração (vence em setembro). Além disso, deixou de fora os projetos já aprovados, inclusive o de construção de 900 unidades, que recebeu a aprovação oficial nas vésperas do decreto de congelamento.

 

Mostrou, como afirmara nove anos atrás, que sabia "mover os americanos na direção certa", pois, esquecendo suas posições anteriores, Obama apressou-se em saudar a iniciativa como "um grande passo para o processo de paz". Já os palestinos rejeitaram esse falso congelamento. E assim Netanyahu,"dando 2%", barrou mais uma vez o caminho para a criação de um Estado palestino, afastando para longe as negociações diretas entre ele e os dirigentes árabes. .

 

A confiança na habilidade do governo Netanyahu em manipular os americanos chegou a extremos quando anunciou a aprovação de 1.600 novas casas em Jerusalém Oriental, justamente quando da visita do vice-presidente Joe Biden a Israel. Confirmou-se que tinha razão, pois o pessoal da Casa Branca chiou, gritou, falou em "bofetada nos EUA", mas tudo acabou ficando por isso mesmo.

 

Com a manutenção do bloqueio de Gaza, o primeiro-ministro israelense praticou mais outras de suas idéias apresentadas ‘en famille’ em 2001: "Devemos golpeá-los (os palestinos) não só uma vez, mas muitas, de modo que eles tenham de pagar um preço insuportável."

 

Preço realmente insuportável para a população civil de Gaza. Com a restrição da entrada de alimentos e a proibição total da exportação dos escassos produtos locais e da importação de cimento, bem como de matérias-primas e equipamentos industriais, a região, semi-destruída pelo exército israelense, apresenta hoje o seguinte quadro: 40% de desemprego; cerca de 15 mil casas, residências, fábricas e casas de comércio em ruínas sem poder serem reconstruídas; dos 1,5 milhão de habitantes, nenhum dispõe de água tratada e 50 mil de água de qualquer espécie; mais de 1 entre 3 crianças são anêmicas, 1 entre 10 padece de má nutrição (pesquisa do governo dinamarquês); 80% da população é dependente da alimentação fornecida pela ONU.

 

Recentemente, o governo Netanyahu liberou uma série de produtos para entrarem em Gaza. A população pode agora consumir artigos como ketchup, refrigerantes e macarrão. Cimento e outros materiais de construção, porém, que possibilitariam a recuperação das moradias e da economia de Gaza, continuam proibidos – para evitar seu uso militar, explicam os israelenses.

 

Obama e a Europa aplaudiram essa modesta concessão, provando, mais uma vez, que Bibi estava certo quando falava na facilidade de manipular a América. Mas o bloqueio de Gaza, considerado ilegal pela ONU e pelo Direito Internacional (punição coletiva), não é condenado. Os americanos e europeus limitam-se a solicitar respeitosamente que Netanyahu o levante, coisa que ele não cogita fazer, apesar das reclamações indignadas da Autoridade Palestina, com a qual deveria manter um clima "cooperativo" para discutir o novo Estado árabe-palestino.

 

As ações e declarações de Bibi contrárias à viabilização desse Estado se sucedem. Há alguns meses, ele garantiu que os israelenses jamais sairiam dos assentamentos em territórios antes árabes da margem oeste do rio Jordão. Numa região onde a água é escassa, o Jordão é de longe a mais importante fonte desse recurso. Sem ter acesso a esse rio, o futuro Estado árabe-palestino dependeria de Israel para receber o fornecimento de água necessário à sua existência.

 

Tais declarações complicam as desejadas conversações árabe-israelenses. Mesmo Mahmmoud Abbas, o presidente da Autoridade Palestina, que costuma apoiar as gestões de Barack Obama, sente-se obrigado a duvidar das verdadeiras intenções de Bibi. É o que está acontecendo agora, quando Abbas pede que, antes do início das reuniões, sejam definidos os limites dentro dos quais as discussões se travarão. "Não iremos para as negociações como cegos", disse.

 

Bibi aplaude. É mais uma forma de retardar o processo de paz. Ele não tem pressa, como, aliás, afirmou em Washington, em julho último: "Se podemos ter uma paz negociada? Sim. Poderemos implementá-la lá por 2012? Penso que vai demorar mais do que isso."

 

O atual ‘premier’ israelense adota a mesma tática dos seus antecessores, os quais, desde os Acordos de Oslo, em 1993, vêm adiando com sucesso uma paz que se cumprir o que foi assinado em Oslo criaria um Estado palestino-árabe purgado dos assentamentos israelenses. Coisa que os governantes e generais israelenses, com a possível exceção de Isaac Rabin, não querem.

 

Até o respeitado jornal israelense Haaretz considerou "ultrajante" o conteúdo do vídeo-confissão de Bibi. Os ingênuos - e os que fazem de conta que são ingênuos – deveriam, forçosamente, ficar chocados. De agora em diante, Obama não tem como acreditar nas boas intenções de Netanyahu. O lógico seria que passasse a tratá-lo com um pé atrás, não como um amigo de confiança.

 

Mas, como as eleições legislativas americanas estão aí e o voto judeu pesa muito em estados como Nova York e Flórida, e o financiamento eleitoral judeu pesa ainda mais em todo o país, é provável que ele faça de conta que o vídeo-confissão não existiu.

 

E assim mostre ser o pior tipo de cego. Aquele que não quer ver.

 

Luiz Eça é jornalista.

 

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Última atualização em Qui, 29 de Julho de 2010
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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