Contra-insurgência norte-americana no Afeganistão revela ineficácia crescente

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Há poucas semanas, a Casa Branca decidiu trocar o comandante-chefe do Afeganistão, General Stanley McCrystal, tendo por justificativa suas inapropriadas observações a uma destacada revista semanal. Em seu lugar, nomeou-se seu antigo mentor, General David Petraeus, responsável por elaborar e implementar a princípio a contra-insurgência (mencionada por vezes pelo acrônimo COIN) no Iraque – destaque-se que a inspiração para a presente tática originou-se da análise dos erros da Guerra do Vietnã.

 

Ao aplicá-la, corre-se o risco de um paradoxo: à guisa de proteção da população, as tropas eliminam mais suspeitos no patrulhamento cotidiano, muitos dos quais posteriormente isentos de alguma atitude ilegal. O reconhecimento do erro tem sido constante, em vista do número de pedidos de desculpa ao governo afegão, e acompanhado às vezes de obras como rodovias, por exemplo, porém é insuficiente.

 

Em muitos casos, a ação equivocada dos efetivos otanianos decorre da informação incompleta para a qual não há normalmente tempo necessário para apurar com serenidade ou mesmo da má informação propositada, ou seja, da sabotagem ou de vinganças locais por divergências até menores – um desentendimento entre vizinhos.

 

Com baixa receptividade entre os habitantes locais, o contingente depende do auxílio de informantes, nem sempre detentores de esclarecimentos ajuizados. Em outros, a presença militar impede a atuação de organizações não governamentais humanitárias, notadamente na assistência médica.

 

No entanto, a questão é maior; a troca de comando provavelmente não refletirá ganhos substanciais para a desgastada coligação atlântica naquela região. É necessário revisar não a tática, mas a fundamentação para ela, ou seja, a presença em solo estrangeiro, a título de combate ao terrorismo.

 

A idéia de granjear mentes e corações a todo custo é falha e mostra-se inútil, até porque a mensagem chega incompleta à sociedade, ao não atingir as mulheres, isoladas e praticamente alienadas da vida administrativa e política do país – muitas nem sequer têm acesso à alfabetização básica. A utilização de servidoras civis estadunidenses para facilitar o contato com elas não logrou êxito até o momento.

 

A precariedade de contatos estende-se também ao restante da comunidade. Os projetos de assistência, delineados pela Agência dos Estados Unidos para (sic) o Desenvolvimento Internacional (USAID), são de difícil execução, em decorrência mesmo da falta de segurança física para seus funcionários, ao circularem fora da zona de segurança em que se localiza a representação norte-americana.

 

Outrossim, a parceria com corporações privadas ou organizações não governamentais não tem sido muito frutífera, apesar das vultosas somas despendidas.

 

Guardadas as devidas proporções, tropas amero-européias não se entrosam muito bem com seus correspondentes afegãos. A motivação é variada: diferença robusta de treinamento, de remuneração, de interesse ou até de confiança. É rotineiro não comunicar aos militares afegãos os horários e os locais de patrulha.

 

A maneira por que se dividem os talibãs, com o fito de cooptá-los ou eliminá-los, tem sido contraprodutiva. Consideram-se os de baixo escalão como aproveitáveis; Os de médio ou alto, inservíveis, logo passíveis de morte. Na prática, a eliminação dos cabeças locais influencia os antigos liderados a deslocar o emprego da violência para atividades criminosas simplesmente.

 

De mais a mais, a tentativa de cooptação de uma parcela dos pachtos, com o objetivo de combater de maneira constante os talibãs, de inspiração sunita, falhou, a despeito das quantias repassadas diretamente e da orientação política do Presidente Hamid Karzai sobre de quais grupos a coligação atlântica deveria aproximar-se.

 

Enquanto isso, a retomada do processo de ‘talibanização’ de várias áreas do Afeganistão segue adiante com cobrança de impostos, aplicação de medidas punitivas em substituição ao poder do Judiciário, acompanhamento das administrações locais e decretamento oficioso de normas comportamentais relativas, por exemplo, à autonomia feminina, conteúdo escolar e consumo de álcool.

 

Desta maneira, a contra-insurgência a ser executada por Washington encontra-se de antemão descabida às reais necessidades do Afeganistão. Resta à população a agonia duradoura.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

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Comentários   

0 #1 O terror norte-americanoRemindo Sauim 26-07-2010 08:43
O redator me parece mais contra as formas com que é feito o massacre dos afegães e não contra o massacre.
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