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África do Sul antecipa horizonte desanimador para 2014 Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito, da Redação   
Segunda, 19 de Julho de 2010
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Terminada a grande festa do futebol, é hora de se despedir dos convidados, limpar o salão e fazer um balanço do evento mais mobilizador da humanidade. Conquistada ineditamente pela Espanha, a primeira Copa do Mundo em solo africano deixou boas lembranças esportivas e indeléveis marcas no país sede, algumas para orgulho do povo local, muitas para seu desespero.

 

De olho na próxima edição, daqui a quatro anos no Brasil, somos obrigados a realizar algumas reflexões acerca do que significou para a África do Sul ser sede do mundial e o que tende a ser o certame verde e amarelo, especialmente no que se refere ao tão propalado legado para a nação que eventos de tal monta são capazes, ao menos no papel, de proporcionar.

 

"A verdade é que o Estado não ataca os problemas de fundo porque, provavelmente, quaisquer progressos substantivos nesse sentido viriam a suscitar a questão das relações entre as classes e o próprio modo de produção", escreveu o economista Patrick Bond, que ao lado de outros docentes, pesquisadores e membros da Universidade de Kwa-Zulu Natal manteve na internet o Observatório da Copa do Mundo.

 

Com essa afirmação, o professor, implacável crítico dos donos deste grande circo, aponta diretamente para o fato de que não é do real interesse de nenhum dos entes envolvidos na organização do evento – FIFA, governos e patrocinadores – promover reais avanços na vida cotidiana do país. Menos ainda referenciados na justiça e progresso social.

 

Just for business

 

A Copa de 2010 escancarou ao mundo que o futebol é comandado por homens de negócio que não perdoam nem as mazelas de um país atrasado para fazer a única coisa que julgam necessária à vida, obviamente o incessante business. Em um mundo em que a maior parte das relações sociais e humanas é calcada pelos interesses de maximização de ganhos via mercado, não havia possibilidade de o futebol manter-se descolado de tal lógica. Logo, foi inevitável o encontro do esporte mais popular (e rentável) do mundo com aves de rapina das mais diversas procedências.

 

O governo calcula que, com a Copa, foram criados cerca de 130 mil empregos, número insuficiente para fazer frente à fatura passada pela crise financeira de 2008. "As estatísticas da África do Sul anunciaram, na semana passada, que mais 79.000 empregos foram perdidos no último trimestre, crescendo para quase um milhão o número de demissões desde que estourou a crise mundial em 2008", contrapõe Bond.

 

Somado a outros fatores, qualquer espectador minimamente atento percebe que a grande motivação por trás do planejamento do evento é a cadeia de negócios e empresas envolvidos na mesma engrenagem, simbolizada pelos estádios hipermodernos que se configuram como autênticas ilhas de suntuosidade em meio à pobreza dominante no país, tal qual os ainda brancos bairros de elite.

 

Durante os anos de preparação da Copa, o governo sul-africano bateu na tecla do desenvolvimento que 64 partidas seriam capazes de garantir ao país, elevando o nível de vida da nação recentemente libertada do jugo racista. Com isso, fermentou o sentimento de frustração que agora atinge milhões de sul-africanos, que não somente ficaram a ver navios em termos de progresso, como tiveram suas vidas ainda mais infernizadas.

 

Num país que estima os estrangeiros entre 3 e 8 milhões (!), não é possível saber ao certo quantas pessoas foram deslocadas para locais ainda mais precários que suas moradias anteriores, mas certamente se contam às dezenas de milhares, visto que tais expulsões (ao melhor estilo apartheid) ocorreram em praticamente todas as obras de estádios.

 

Por conta da truculência do governo local na condução do mundial, não faltaram conflitos violentos entre os que eram expulsos de suas regiões e a polícia. No entanto, trata-se do país que estatisticamente mais promove protestos sociais no mundo, talvez a grande herança das lutas lideradas por Mandela, o que torna difícil esconder do planeta tantas feridas. Nem mesmo com o vergonhoso estado de sítio informal imposto aos moradores de áreas mais pobres e afastadas, que tiveram seu acesso às grandes cidades dificultado ao máximo, foi possível dissimular o caldeirão que faz o país fervilhar.

 

Longe de resolvidas, agravaram-se as injustiças

 

Na Cidade do Cabo, uma das mais movimentadas em termos de lutas sociais, chegou-se ao ponto de se encher de tapumes a estrada que liga o aeroporto ao campo, de modo a esconder os precaríssimos assentamentos de pessoas que foram morar ali exatamente por conta da construção do Green Point.

 

"Além disso, a Copa do Mundo da FIFA impactou negativamente em nossas comunidades, já que não temos permissão para trabalhar perto dos estádios, fan parks ou outras áreas turísticas. Os pobres não são excluídos só dos espaços econômicos, mas também de nossas casas, sendo realocados para townships (definição local para guetos) como Blikkiesdorp, longe do centro, das oportunidades de emprego e dos olhos dos turistas", expressou o Abahlali baseMjondolo, movimento de luta pela terra fundado em 2005 e que já desfruta de forte presença na população, a ponto de ter organizado um ‘mundial paralelo’, a Copa do Mundo do Povo Pobre, idealizada ao lado de outros movimentos que passaram o mês da Copa promovendo a campanha ‘anti-exclusão’.

 

"Essa Copa do Mundo do Povo Pobre foi feita porque nos sentimos excluídos da Copa do Mundo da FIFA. Vemos que o governo colocou enormes quantias de dinheiro na construção do Green Point e em melhorias do Athlone Stadium, mas nós, comunidades pobres, não nos beneficiamos de nenhum desses investimentos. As partidas são jogadas na cidade, mas não temos ingressos e nem transporte para poder presenciar os eventos", explicam.

 

Porém, como já dito em matéria deste Correio, os senhores do futebol sabiam perfeitamente de todas as injustiças que seus interesses financeiros imporiam a muitos sul-africanos. Como também avisara Patrick Bond, isso ocorre pelo fato de o evento estar intrincado ao modelo neoliberal de produção e consumo, voltado a gerar grandes rendimentos aos empreendedores, especialmente em obras de infra-estrutura, mas negligenciando completamente a contrapartida do beneficio social, comunitário.

 

E como manda o receituário desse modelo de economia e sociedade, o trabalhador sul-africano que prestou serviço ao Comitê Organizador Local (que assumia as responsabilidades do dia a dia do torneio, enquanto a FIFA contava dinheiro) na organização e logística da Copa foi super-explorado em sua jornada laboral e, ainda por cima, enganado em relação aos valores a serem pagos. A segurança de todos os setores do mundial terminou a cargo da polícia local, pois quem prestou serviço à Stalion (contratada pela FIFA) abandonou o barco após sucessivos embustes.

 

Além disso, a FIFA impõe enormes barreiras de isolamento a fim de beneficiar seus patrocinadores, garantindo total exclusividade aos seus parceiros comerciais em seus respectivos ramos de atuação. "Não sou KFC, não sou Mcdonalds, por isso não posso estar lá dentro trabalhando. Eu também queria estar legalizada, mas não dá", lamentou uma vendedora de lanches de Johanesburgo, momentos antes de Espanha e Paraguai, às câmeras da ESPN Brasil.

 

Agora, a festa acabou e de fato ela foi um sucesso para seus patronos (e alguma festa o povo local também pôde fazer, afinal, quem é de ferro?). A FIFA anunciou no dia seguinte ao título espanhol que a competição lhe rendeu lucros de 6 bilhões de reais, dobro do registrado na Alemanha-2006, o que dá idéia de como a espiral de exploração comercial não encontra limites no futebol. Fora isso, podem-se levantar questionamentos sobre a moralidade de um governo bancar sozinho os 8 bilhões de reais que custaram a Copa ao mesmo tempo em que não leva um naco dos lucros por ela gerados. A máxima gratificação da entidade comandada há 12 anos por Joseph Blatter foi a cobertura dos custos de funcionamento do Comitê Organizador (cerca de 1% do lucro auferido).

 

Dessa forma, a expectativa que ronda o país é a da explosão de uma nova onda de diversas violências e protestos sociais. Está claro para os cidadãos sul-africanos que o governo pode realizar investimentos maciços quando interessa, inclusive dispensando auxílio da iniciativa privada, de modo que será muito difícil controlar a frustração de uma população que, além de tudo, foi afastada do próprio evento em si.

 

O pior pode estar por vir

 

"O CNA, partido que liderou todo o processo de libertação nacional, tornou-se, ao fim destes anos de poder, um perigo evidente para a integridade da sociedade sul-africana. Em vez de um projeto político coletivo de transformação da sociedade, é hoje um instrumento de ‘progresso pessoal’ de uma elite, com o conseqüente agravamento das desigualdades", escreveu Richard Pithouse, do South African Civil Society Information Service. Alguma semelhança com a próxima sede da Copa e sua atual força política dominante?

 

Com a saída do país dos holofotes do mundo, e o desaparecimento do gigantesco policiamento, teme-se pelo ressurgimento de ondas de violência contra trabalhadores de países vizinhos que tentam ganhar a vida na mais desenvolvida nação do continente. Como citado acima, sem sequer haver controle do número de imigrantes, não se pode mensurar o grau de estragos que poderiam provocar, mas diversos trabalhadores moçambicanos, zimbabuanos, nigerianos, já declararam receio pelos próximos tempos.

 

De acordo com estudos do Africa Peer Review Mechanism, "a xenofobia contra outros africanos está neste momento crescendo e tem de ser sufocada no ovo". Em 2008, ataques contra negros de outros países deixaram 60 mortos, configurando uma enorme assombração para o devir.

 

Se alguma tragédia do gênero vier a se confirmar, será duplamente desgraçada, pois se os pobres de diferentes países se matam por se verem como inimigos, competidores, o sistema que os condena fica isento de ser mais profundamente questionado como verdadeiro progenitor de toda injustiça. "Um olhar mais cuidadoso em relação às ondas de violência xenófoba joga luz sobre os nossos mais incuráveis problemas, que são os da exclusão econômica", pondera Glenn Ashton, escritor e pesquisador sul-africano.

 

"O que estamos enfrentando não é xenofobia, mas conseqüência da pobreza e da falta de transformações econômicas progressistas desde 1994. Assim como os protestos pelos serviços básicos ocorrem por conta da incapacidade das autoridades em atender os desejos e necessidades dos mais marginalizados setores sociais, nós podemos afirmar com igual firmeza que essas esporádicas ondas de xenofobia são apenas outro aspecto do mesmo problema", completa.

 

Assim como o Pan do Rio em 2007, a Copa do Mundo não deixou legado algum ao povo local, apenas decepções e muitas contas a pagar depois de um mês de inesquecível e anestesiante festança. Em ambos os casos, isolou-se a pobreza dos olhos do mundo e gastou-se muito dinheiro além do previsto, com fortes rastros de corrupção. E a previsão orçamentária para a Copa verde e amarela já é quatro vezes superior à edição deste ano.

 

Como mostraram diversos estudos econômicos, uma Copa do Mundo tem poucas chances de fazer o PIB de um país variar acima de 1%. A lição que devemos trazer da África do Sul (fora a de nunca mais inventar Dungas) é a de que um evento esportivo, por maior que seja, não é capaz de resolver os grandes gargalos de uma nação. Quando essa nação é endemicamente corrupta e conduz desde já a organização da próxima edição com muitos erros, atrasos, falta de transparência e democracia, podemos ter certeza de que não serão apenas Neymar, Messi, Villa, Robben e Muller que farão muitos ‘gols’ pelos campos do país do futebol.

 

Leia mais:

 

Copa da África desmente promessas de desenvolvimento e escancara apartheid intacto

 

Gabriel Brito é jornalista.

 

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Última atualização em Quarta, 04 de Agosto de 2010
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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