Serra, atrasado no tempo

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O slogan principal de campanha do candidato Serra é "O Brasil pode mais". Ele aponta, portanto, para a possibilidade de dar continuidade ao governo Lula. Ultimamente, porém, ele elevou o tom de suas críticas ao governo que supostamente diz querer dar continuidade. Por outro lado, como fez em 2002, ele procura se distanciar do governo FHC, ao mesmo tempo em que reafirma que o sucesso do governo Lula se deveu às reformas implantadas durante os oito anos de governo tucano-pefelista.

 

A que se devem essas contradições do candidato? Para explicá-las, talvez seja necessário voltar um pouco mais no tempo. É preciso relembrar que os anos 1980 foram a década perdida na economia de muitos países. Foi uma década particularmente danosa para a América Latina e o Brasil, onde a economia ficou estagnada, a recessão e o desemprego aumentaram e a miséria alastrou-se.

 

No final dessa década, a China e os países asiáticos demonstravam que era possível aproveitar a globalização para desenvolver-se econômica e socialmente. Porém, no Brasil e países da América Latina foram adotadas as recomendações do FMI, Banco Mundial e outros organismos financeiros, controlados pelos Estados Unidos e potências européias, segundo as quais era necessário implantar reformas neoliberais para que as economias voltassem a crescer.

 

Essas reformas incluíam disciplina fiscal e sistema tributário rígidos, taxas de juros elevadas, taxas de câmbio flutuantes, total abertura comercial, abertura completa ao investimento direto estrangeiro, privatização das empresas estatais, desregulamentação econômica e trabalhista e inviolabilidade do direito de propriedade. O Estado deveria ser retirado das atividades produtivas e o mercado deveria ter liberdade total para demonstrar suas potencialidades.

 

O PSDB, que surgira de um racha do PMDB, aparentemente pela esquerda, sucumbiu a esses argumentos já durante a implantação das reformas neoliberais do governo Collor. E foi o sustentáculo principal de sua continuidade durante o governo Itamar e, em aliança com o antigo PFL, hoje DEM, aplicou-as tenazmente durante os oito anos do governo FHC, iniciados em 1994.

 

Desse modo, o PSDB tornou-se o partido orgânico do neoliberalismo no Brasil e responsável pela inserção subordinada do país no mercado internacional. Essa função, inicialmente apenas ideológica e política, tornou-se muito rapidamente também uma função social e econômica, através do entrelaçamento profundo entre os principais quadros do tucanato e os interesses dos diferentes grupos financeiros em ação no Brasil e no exterior. Onde estava Serra que não se opôs a isso?

 

O governo FHC abriu, sem qualquer controle, o mercado nacional à ação predatória das corporações transnacionais. Os investimentos externos voltaram-se exclusivamente para a especulação nas bolsas e para a aquisição de plantas industriais já existentes, muitas das quais foram simplesmente fechadas. A quebra do parque industrial brasileiro, em virtude dessa "abertura", poderia ser considerada crime contra a soberania nacional, se fosse devidamente investigada. Por que Serra não se insurgiu contra isso e mostrou seu pretenso viés nacionalista e desenvolvimentista?

 

As privatizações do governo tucano-pefelista só não zeraram a participação do Estado na economia porque houve resistência e não houve tempo suficiente para privatizar todas as empresas estatais, ainda sobrando a Petrobras, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica. Se o tucano-pefelismo houvesse permanecido mais alguns anos no governo, o Estado brasileiro não teria hoje qualquer instrumento econômico para estimular o crescimento e enfrentar as crises sistêmicas do capitalismo. Que se saiba, Serra jamais disse nada contra isso.

 

O ajuste fiscal tucano-pefelista foi realizado às custas das grandes massas do povo e do crescimento econômico nacional. Sob o argumento neoliberal de que crescimento causa inflação, a estagnação econômica dos anos 1980 prolongou-se durante os anos 1990, com profundas repercussões no alastramento da miséria e nas condições de vida da maior parte da população. Desemprego e precarização do trabalho foram realidades perniciosas causadas pelas políticas econômicas e sociais da era FHC. Jamais se viu Serra insurgindo-se contra elas.

 

Embora o tucanato tenha assumido o governo pretensamente para impor um caminho que retomasse o crescimento e distribuísse renda, na prática fez o contrário. Procurou reorganizar o capitalismo brasileiro através da desorganização do tripé que havia permitido seu crescimento histórico. Buscou liquidar seu esteio estatal, enfraquecer seu esteio privado nacional e estimular o total predomínio do esteio privado estrangeiro, em especial de seu setor financeiro. Por que Serra nada disse a respeito?

 

Paralelamente a isso, o tucano-pefelismo introduziu alterações constitucionais que impediam o Estado de ser o principal indutor da economia e o transformavam num simples regulador. Supostamente, ao mercado caberia o papel de inserir o Brasil, de forma competitiva, no mercado internacional. Na verdade, à medida que as corporações transnacionais assumiram o controle dos setores estratégicos da economia brasileira, como energia, telecomunicações, mineração e finanças, elas dominaram o mercado nacional. Nessas condições, o país se tornou subordinado e refém delas, num mercado mundial em que elas também predominavam. Por que o tucano Serra se calou diante disso?

 

As reações a esse processo passaram a ser qualificadas como coisas de "bobos" e "reacionários". Ao mesmo tempo, os tucano-pefelistas envidaram esforços para criminalizar os movimentos sociais e as forças políticas que se opunham ao desmonte econômico do parque produtivo nacional e ao desmonte do Estado. Também aqui não se tem notícia de qualquer manifestação democrática do demo-democrata Serra.

 

Apesar de tudo, os resultados reais do desastre a que o país estava sendo levado começaram a ficar evidentes durante a crise econômica e financeira de 1997 a 1999. Em 1998, para reeleger-se e continuar seu caminho por mais quatro anos, o tucanato teve que contar com a ajuda do empréstimo ponte do FMI, que evitou uma moratória desmoralizante em plena campanha eleitoral. Serra não piou nem chiou.

 

No início dos anos 2000 já se tornara evidente para a maior parte da população brasileira que o governo tucano-pefelista fora um engodo mais danoso do que o de Collor. Deu-se conta de que o Brasil perdera as possibilidades de crescimento dos anos 1990. As reformas de FHC criaram um país economicamente devastado, com sua infra-estrutura sucateada e seu comércio internacional deficitário. Por que Serra, ao invés de dissociar-se do desastre e expor suas pretensas opiniões desenvolvimentistas, manteve-se fiel ao figurino neoliberal?

 

Apesar de todo esse histórico, Serra procura impingir a idéia de que o sucesso do governo Lula na política econômica se deve às ações do governo FHC. E virou crítico das lacunas da infra-estrutura, dos juros altos, dos atrasos na saúde, dos problemas na segurança pública e do atual processo de crescimento. Está pelo menos 12 anos atrasado. Deveria ter feito isso, na pior das hipóteses, a partir de 1998.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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Comentários   

0 #6 Qual o Projeto?Raymundo Araujo Filho 26-07-2010 19:00
Já comentei sobre este "up grede" dado por Lulla nas universidades e escolas técnicas.

Conheço muito bem as Escolas Técnicas, notadamente as rurais do Brsil. Hoje, o que temos é investimento em estruturas tecnológicas "perfeitamente adaptadas" às novas necessidades do mercado dos oligopólios capitalistas.

Enquanto os salários dos professores continuam congelados, não falta verba para laboratórios para estudo ds transgênicos, da agricultura "moderna", das altas tecnologias que apenas servirão ao agronegócio. São poucas as inciativas que desenvolvem os conhecimentos autóctones.

A compra de vagas das Universidades particulares para cursos superiores de Estilismo, Culinária, Estética, entre outras são muito grandes e alcançam as verbas para as universidades públicas que, pelo amor de Deus, continuam à míngua, e com os salários congelados.

A Iteligência brasileira, perdeu o vínculo com a qualidae dos projetos, fixando-se na questão numerária.

Perguntem, por exemplo, aos insuspeitos (pois eleitores declarados da continuidade ao Lulla) líderes dos Movimentos pela Terra, porque seus projetos educacionais, com controle dos próprios trabalhadores são boicotados pelo governo, vivem à míngua e com verbas em doses homeopaticas. Perguntem ao MST qual o apoio do governo aos projetos de escolas rrias dele, desvinculadas das redes muicipais, controladas or prefeitos abjetos.

É triste ver isso.
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0 #5 E a privatização da educação?Francisco de Assis N. de Castr 26-07-2010 17:59
Não se pode esquecer que o governo do professor FHC transformou as universidades federais em mendigas. Os recursos eram escassos e muitas vezes as contas de energia atrasavam meses, com ameaças de corte de fornecimento pelas empresas de energia privatizadas.
O argumento cínico do governo do professor FHC é que o papel do Estado era financiar o ensino fundamental e médio, deixando ao mercado o filé do ensino universitário.
Deve doer bastante no ego de FHC ver quer o governo do "analfabeto" Lula resgatou, fortaleceu e expandiu a universidade federal e o ensino técnico, inserindo as escolas técnicas federais no ranking das melhores escoals do país.
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0 #4 Esperando Wladimir...Raymundo Araujo Filho 21-07-2010 15:27
Continuo aguardando que Wladimir Pomar nos explicite quais foram as "reformas positivas de FHC", mencionadas por ele em alguns artigos anteriores. Não é a primeira vez que cobro esta explicitação.
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0 #3 Ezio José 21-07-2010 06:32
Que matéria excelente! Se todos tivesem acesso à informações deste calibre nós teríamos eleitores conscientes em todos os cantos.
Pena que ao cometarmos assunto com este conteúdos à alguns radicias, logam tapam os ouvidos e se dispormos a leitura à eles, só pelo título não lêem. São como religiosos ou torcedores futebolísitcos fanáticos.
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0 #2 E por que não ser mais explícito?Petronílio Cedraz 20-07-2010 14:59
É oportuno esse artigo, porém deveria ser mais explícito. Ao falar dos juros altos de hoje, que chegou a um dígito,por que não dizer que no governo \"TUCANODEMO\" chegou a 45%, salvo engano?
Petronílio cedra
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0 #1 Serra, o oportunista.Márcia Regina 20-07-2010 12:31
Ótimo artigo, Wladimir! É providencial resgatar o \"rolo compressor\" que os tucanos fizeram na década de 90, utilizando os mais inescupulosos mecanismos e \"tenebrosas transações\", em perfeito conluio com a grande imprensa, de quem são \"sócios\". Onde estava mesmo o falante Serra, assistindo a tudo isso e ainda posando de Ministro?
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