Emergência vira rotina

 

A sucessão de tragédias, que antes chamávamos de emergenciais, agora vai se tornando cotidiana.

 

Meu irmão de música e caminhada, Magalhães, é coordenador do "Setor de Emergências" da Cáritas Brasileira. Temos um acordo comum quando nos encontramos para reuniões das pastorais sociais: pela noite só falamos de música, ou tocamos violão, ou vamos ver alguma apresentação de boa música. Foi assim que vi no Clube do Chorinho, Brasília, uma apresentação de Paulo Moura, um dos maiores saxofonistas do mundo, falecido esses dias atrás.

 

Acontece que Magalhães agora não tem mais sossego. Das enchentes do Maranhão para as enchentes de Santa Catarina, para o terremoto do Haiti, para as enchentes do Piauí, Maranhão e Ceará, para as enchentes de Pernambuco e Alagoas. Basta ligar a televisão e, quase rotineiramente, lá está uma campanha emergencial da "Cáritas e CNBB".

 

Faz alguns anos levamos para dentro da CNBB, a partir das Pastorais Sociais, o desafio assustador do Aquecimento Global. Nas Pastorais Sociais, mesmo nos movimentos sociais, parecia algo absolutamente estranho. Quantas vezes foi preciso ouvir que "a questão ambiental é um problema da classe média". Muitas vezes é preciso ter paciência mesmo com as populações com as quais trabalhamos.

 

No documento que elaboramos sobre a mudança climática "Aquecimento Global: profecia da Terra", já alertávamos que ele tem o dom de tornar pior tudo que já é ruim.

 

O aumento da temperatura gera obviamente mais calor, intensifica a evaporação das águas, provoca, em conseqüência, chuvas torrenciais, enquanto no outro extremo provoca secas, destrói a agricultura, provoca enchentes, destrói cidades, arrasa a economia das famílias, força migrações, mata pessoas.

 

Como prevêem os cientistas, a cada grau a mais na temperatura, o aumento desses fenômenos extremos se agrava de forma assombrosa. O cenário mais aterrador foi projetado por James Lovelock em sua modelação de computador: se a concentração de CO2 na atmosfera atingir 500 ppm (parte por milhão), a temperatura da Terra vai disparar de forma geométrica, restando ao final um planeta tórrido, com vida apenas onde hoje estão os pólos. Para ele, se a humanidade continuar com o nível de emissão atual, em quarenta anos chegará a esse patamar.

 

Diante de tragédias tão cotidianas, parece que apenas o governo brasileiro e a elite do agronegócio continuam "sem olhos para ver, ouvidos para ouvir, coração para sentir". A mudança no Código Florestal nos empurra ainda mais para o Aquecimento Global.

 

Mas, não é só ele. Continuar queimando energia fóssil, sobretudo petróleo, é também uma forma de contribuir para que as tragédias se tornem cada vez mais cotidianas. Quem vai ousar questionar o Pré-sal?

 

Só os loucos podem sonhar em mudar essa rota. Afinal, como já ouvi, "tem gente demais na face dessa Terra"

 

Roberto Malvezzi (Gogó), ex-coordenador da CPT, é agente pastoral.

 

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Comentários   

0 #5 A inércia é a tendênciaOdirley Batista Moreira 20-08-2010 06:51
Não vejo muitas possibilidades de mudanças a curto prazo, o modelo de desenvolvimento em vigência interessa e garante a reprodução do capital das grandes coorporações mundiais, que por sua vez dominam os governos e os meios de comunicação em massa.
Portanto teremos muitos culpados pelaschuvas, pela fome, pelo calor, menos o modo coom a sociedade atual reproduz seu modo de vida.
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0 #4 Quem podera sobreviver ?César Faria 27-07-2010 05:41
Conheço um pensamento do escritor Paiva Netto que diz assim, "A destruição da natureza é a estinção da raça humana"Eis ai o resultado do progreço de destruição. E todos os seres humanos é culpados por isso.
Não que eu seja contra o progresso.
Estamos realmente vivendo um momento apocalípico.
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0 #3 emergência vira rotina: uma loucura....guimarães s. v. 21-07-2010 01:11
complementando. uma perda enorme para amúsica brasileira a morte de Paulo Moura, um saxofonista de escol, quiçá único no mundo em seu virtuosismo. sergio guimarães.
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0 #2 emergência vira rotina: uma loucura....guimarães s. v. 21-07-2010 01:06
sim,Gogó, só os "loucos" podem mudar esta rota, porque só os "loucos" sonham hoje em dia. e vamos continuar sonhando o mesmo sonho, você, eu, o Magalhães, e muitos e muitos outros. porque, disse Dom Helder Câmara, "qundo um só sonha é um sim´les sonho, mas quando muitos sonham o mesmo sonho, é já a realidade. amemos e sonhemos! Sérgio Guimarães, o amigo dos idos de 1981-1987.
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0 #1 Não precisa falar mais nadaCarmen Costa 20-07-2010 17:44
A pedra está sendo cantada a alguns anos, mais nada de diferente foi até hoje feito e levado a sério para evitar está catastrofe.
Muito bom artigo.
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