EUA: a expectativa equivocada em torno do Partido do Chá

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Em novembro próximo, haverá o primeiro teste eleitoral de peso dos simpatizantes do chamado Partido do Chá. Desconfiados dos democratas e desiludidos com os republicanos, seus eleitores, a depender naturalmente do resultado do pleito, indicarão a viabilidade no médio prazo de uma terceira via no sistema político norte-americano.

 

A insuficiência militar e a incapacidade econômica da gestão Bush ocasionaram a oportunidade para que ativistas descontentes se referenciassem de maneira constante aos fundamentos constituintes da nação estadunidense.

 

Como conseqüência, os adeptos do novo movimento têm atraído atenção significativa de todos os meios de comunicação, especialmente do televisivo. Aos olhos da mídia mais à direita, apresenta-se como uma agregação renovadora em termos de representação aos anseios da população, ao menos da classe média.

 

É possível observar isto quando se assiste ao programa de Glenn Beck, por exemplo, no canal a cabo Fox News, com mensagens direcionadas normalmente ao espectador comum, ou folheia-se o Wall Street Journal, voltado para o público mais sofisticado, de formação universitária, de renda mais expressiva e mais vinculado ao setor financeiro, onde se pode ler as colunas do economista Stephen Moore, membro da editoria.

 

Aos mais à esquerda, como algo de matiz folclórico, próximo da bizarrice e, por conseguinte, sem decisivo impacto eleitoral próprio. Aos mais incrédulos, a movimentação chazeira seria mesmo artificial, criada - não insuflada ou na melhor das hipóteses catalisada - por determinados veículos de comunicação.

 

Não se pode esquecer de modo algum que o principal estímulo ao Partido do Chá foi a severa crise econômica, de forma que o sentimento de renovação é legítimo, mesmo expresso muitas vezes inadequadamente.

 

Paradoxalmente, a preocupação com o possível êxito dos chazeiros é maior entre republicanos que democratas, tendo em vista a proximidade das prioridades administrativas, a fim de manter o bem-estar da população, de acordo com pesquisa do instituto Gallup, entre o final de maio e o início de junho último: dívida pública, segurança, ou seja, terrorismo, tamanho da burocracia governamental, custos do sistema de saúde e imigração ilegal - http://www.gallup.com/poll/141119/Debt-Gov-Power-Among-Tea-Party-Supporters-Top-Concerns.aspx.

 

No debate relativo à estrutura do Estado, muitos defendem a diminuição do percentual de impostos ou a sua ampla desregulamentação, sem entrar, contudo, em pormenores na sua materialização, de sorte que não se gere suscetibilidade, especialmente no caso da área de saúde, questão importante para segmentos da classe média empobrecidos recentemente.

 

Entre os assuntos desimportantes para o eleitor republicano ou chazeiro, localizam-se de modo geral o aquecimento global, a manutenção de tropas no Oriente Médio e adjacências, a discriminação contra minorias e o poderio das grandes corporações, nada obstante o auxílio governamental concedido a muitas delas durante a má-andança econômica de 2008. O desemprego mobiliza em torno de 1/3 dos entrevistados tão-somente.

 

Assim, o Partido do Chá constitui-se na prática uma ala ainda mais conservadora do Partido Republicano, porém sem figurar como dissensão interna, haja vista o compartilhamento bem próximo da pauta e ainda a ausência de grandes recursos financeiros para adquirir feição independente.

 

Curiosamente, as duas derrotas do Partido Republicano em pleitos presidenciais nos últimos vinte anos moveram seus simpatizantes para o arco mais à direita, mesmo reacionário. No lançamento de várias de suas candidaturas legislativas mais recentes, os republicanos mais exaltados chegam a pronunciar-se a favor da extinção do Departamento (Ministério) da Educação, em função do federalismo, da Agência de Proteção Ambiental ou da criminalização total do aborto, tendo como base textos do Antigo Testamento.

 

A despeito da perspectiva de êxito eleitoral de monta, o movimento do Chá certamente influenciará a composição da pauta republicana para 2012, porque muitos de seus simpatizantes encontram-se de maneira velada no ‘Velho Grande Partido’, de sorte que a política norte-americana se renovará, se for o caso, apenas em sua superfície.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

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