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Reviver no Afeganistão a contra-insurgência do Iraque Imprimir E-mail
Escrito por Virgilio Arraes   
Terça, 06 de Julho de 2010
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Ao assumir o governo em janeiro de 2009, Barack Obama possuía boas condições políticas para preparar de modo gradativo a retirada das tropas norte-americanas de dois pantanosos teatros de operações: Iraque e Afeganistão.

 

Ano e meio depois, trouxe de maneira consciente para sua administração o desgaste outrora pertencente a seu desditoso predecessor. Note-se que a confrontação com o Afeganistão tornou-se o mais longo conflito da história militar norte-americana.

 

Durante o transcorrer da campanha presidencial de 2008, os republicanos conseguiram temporariamente amainar o confronto no Iraque por causa da cooptação lá de muitos líderes políticos, em sua maioria sunitas, através de um processo desencadeado por medidas clientelistas desde o ano anterior. No curto prazo, a iniciativa seria até bem sucedida.

 

Aos meios de comunicação divulgou-se que o êxito decorria de uma bem elaborada contra-insurgência, delineada e aplicada pelo General David Petraeus, avaliado como um dos oficiais mais bem preparados intelectualmente do país, com passagem por uma das universidades mais prestigiadas do globo, Princeton, onde efetivou seu doutorado em relações internacionais.

 

Por meio da nova política, a tática de ocupação estadunidense alargava-se, ao se reconhecer a insuficiência das ações meramente militares, nada obstante o envio de mais trinta mil efetivos, e, por conseguinte, se destinarem recursos para recuperar a combalida estrutura estatal. Em tese, a programação teria sido cumprida.

 

Um dos pontos essenciais da nova postura administrativa havia sido o de estruturar, treinar e equipar as forças policiais locais, com o fito de impulsionar a transição da saída das tropas estrangeiras. Na prática, elas não funcionam de maneira adequada, tendo em vista seu número até hoje insuficiente e falta de coesão, em face da ausência de um vínculo laico, logo nacional, não religioso.

 

Desta forma, o Iraque encontra-se há um bom tempo diante de uma guerra civil, na qual sunitas e xiitas eliminam-se às centenas por mês, e desprovido dos recursos mais elementares como eletricidade constante e água potável, principalmente em áreas rurais, apesar dos bilhões de dólares gastos no país.

 

A despeito da intensificação da instabilidade em solo iraquiano, Petraeus foi convocado para implementar a mesma política em território afegão; a diferença é que sua indicação partiu de um governo do Partido Democrata, outrora questionador de tal execução no Iraque e de seu aparente sucesso.

 

Curiosamente, o oficial sucede um discípulo seu, o General Stanley McCrystal, exonerado por comentários considerados pela Casa Branca como inoportunos à revista Rolling Stone.

 

De mais a mais, a equação no Afeganistão é mais complexa, porque a fragmentação política, anteriormente à chegada das tropas otanianas, já era mais profunda, haja vista o modo por que se derrubou o regime monárquico, se implementou o governo comunista, com auxílio externo, e, por fim, se estruturou a formação de milícias fundamentalistas, também com ajuda de fora; tamanha roda-viva ocorreu em menos de duas décadas.

 

Assim, ações em que se entrelaçam medidas diplomáticas, militares e econômicas, com o alvo de diluir a resistência e quiçá mesmo isolá-la - e ao mesmo tempo de robustecer a presença estrangeira e, por conseguinte, legitimá-la - dificilmente terão êxito, porque não há mais motivo para justificar o prolongamento da existência da coligação norte-atlântica perante a sofrida população afegã.

 

A proposta de reconstruir o país não obtém sequer consenso entre a presente elite afegã, representada por um governo falto de confiança tanto política bem como administrativa diante de seu próprio povo. O território controlado por Cabul não ultrapassa mais de 1/3 do país; desta maneira, Washington apóia um governo deslegitimado perante a maior parte da sociedade.

 

O desnorteio estratégico da Casa Branca é evidente no tocante às duas guerras. Contudo, a pátria pioneira do cidadão-soldado, por causa da Revolução de 1776, gera cada vez mais uma elite política distante em sua juventude das lides militares, ainda que na Guarda Nacional. Com o fim da conscrição na década de 70, alijar-se-ia para muitos parte significativa da cidadania.

 

Assim, há duas percepções – civil e militar - do interesse nacional, nem sempre entrecruzadas, o que explica a divergência pública concernente aos rumos do Afeganistão.

 

Na visão castrense, sua postura mais conservadora encontrar-se-ia em patamar moral mais elevado do que a civil, maculada por lobbies de toda sorte, em especial a vinculada aos democratas. Para eles, esta seria hollywoodiana – a variante estadunidense da esquerda festiva do Brasil.

 

Deste modo, mais um desafio se coloca para a gestão de Barack Obama: manter sobranceira a postura das forças armadas ao mesmo tempo em que não permita o espraiamento de dissensões do alto oficialato, notadamente o de índole mais retrógrada.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

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Última atualização em Sábado, 10 de Julho de 2010
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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