Indecisão de rumo no Afeganistão

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Há no país uma disputa entre Executivo e Legislativo relativa às verbas destinadas à rubrica militar; pressionada pelo constante déficit orçamentário, a Casa Branca aspira a reduzi-las, porém choca-se com o posicionamento do Congresso, propenso, indistintamente dos dois tradicionais partidos, a aumentá-las, sob justificativa de caráter emergencial – nas últimas semanas, a quantia ultrapassaria trinta bilhões de dólares, sendo destinada boa parte do montante às operações em solo afegão.

 

Paradoxalmente, a Grã-Bretanha, o aliado mais próximo na guerra do Afeganistão, já declarou o encolhimento de suas atividades na região, nada obstante ser o novo governo conservador. De mais a mais, a restrição financeira britânica é um recurso bem-composto para preparar aos poucos os Estados Unidos para sua futura retirada, tendo em vista a visível infrutuosidade da guerra.

 

Na visão do Partido Conservador, não há quase mais validade em temporariamente recuperar bairros em cidades importantes, como Candaar, por exemplo, ou eventualmente avançar no interior do inospitaleiro país. A despeito da superioridade técnica, faltam efetivos para permanecer em tais locais por períodos duradouros, o que torna frustradas todas as investidas.

 

Em nove anos transcorridos, a Casa Branca já não dispõe de alternativas viáveis à mesa, haja vista o extenso arco de medidas cogitadas e porventura aplicadas: da contenção específica da resistência fundamentalista ou nacionalista à contemplação da reconstrução nacional. Excetuando-se a cooptação esporádica de líderes regionais, nenhuma delas sustentou-se durante muito tempo.

 

O único segmento detentor de êxito naquele país é o privado. Representado por corporações de vigilância, encarrega-se de proteger, por meio de contratos vultosos, instalações e autoridades norte-americanas – a chamada segurança diplomática. Em decorrência da ação bastante controvertida, pesam várias acusações contra elas, entre as quais a de assassínio de civis.

 

A despeito do desgaste político, não falta no Departamento de Estado entusiasmo para a composição de novas tarefas, entre as quais a de patrocinar por meio delas a contratação para o treinamento de parte da polícia afegã, não obstante severas críticas de parlamentares estadunidenses vinculados à área de defesa e política exterior.

 

Desta forma, o governo norte-americano assiste ao esgotamento de suas possibilidades do ponto de vista militar, mas não de empresas de sua bandeira. Indo além, ele recentemente apresentou à opinião pública outra forma de viabilizar sua presença em território afegão: a econômica, ao anunciar o vasto potencial mineral do país – lítio, cobre, cobalto, ouro, ferro, entre outros – com o valor estimado em centenas de bilhões de dólares.

 

Mesmo exposta de maneira positiva, a atual gestão democrata na Casa Branca involuntariamente, ao evocar a inexplorada riqueza, confirma o caráter neo-imperial de suas ações externas, apesar de combalidas manifestações de defesa de direitos humanos ou de proteção local a minorias étnicas ou religiosas.

 

A surpresa é a lembrança tardia do argumento, haja vista a diferença de postura no conflito iraquiano, em que o petróleo tem sido constantemente mencionado, ainda que de modo difuso – a presença estadunidense, a par da imperiosa implementação de um regime democrático, teria ocorrido para impedir que extremistas tivessem o controle do produto e fizessem dele uso político.

 

O que não se decidiu ainda é a maneira como se explorarão as riquezas do subsolo; assim, outro embate poderá vir a lume em breve, caso queiram participar também companhias de países-membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

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