Nordeste de luto

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É época de São João, quando o Nordeste se torna mágico. As festas juninas por aqui têm o sabor das festas natalinas em outras regiões do país. Época de comer, brincar de quadrilhas e forró, celebrar, reencontrar a família, experimentar a gratuidade da vida.

 

Este ano ficou diferente. O Nordeste ficou de luto pelas cidades arrasadas pelas águas em Pernambuco e Alagoas. Algumas pessoas me escreveram perguntando: como se explica o que está acontecendo?

 

Dou três fatores para entendermos um pouco o que acontece.

 

Primeiro, a ilusão alimentada pela indústria da seca de que "no Nordeste não chove". Terrível inverdade. Poucos sabem que o açude Castanhão, no Ceará, com capacidade de armazenar quase sete bilhões de metros cúbicos de água, foi construído exatamente para aliviar as enchentes diluvianas dos rios Salgado e Jaguaribe. A música "Súplica Cearense", quando um sertanejo implora a Deus para parar de chover, feita ainda em meados do século passado, ilustra essa dimensão pouco realçada do Nordeste.

 

Em segundo, poucos dias atrás, tivemos na Câmara Nacional de Outorga de Recursos Hídricos uma oficina para construir os critérios de outorga – licença para uso – das águas dos rios intermitentes do Nordeste. Tive a honra de participar como representante da sociedade civil entre mais de cinqüenta técnicos do governo. Nossa conclusão foi unívoca: "esses rios são importantes, mesmo que as águas passem por eles apenas uma semana no ano. Esses rios só podem receber outorga para usar a água para consumo humano e animal, jamais para lançamento de efluentes – todo tipo de esgoto -, pois não existe massa hídrica para diluir os efluentes durante o resto do ano".

 

Portanto, mesmo que intermitentes, as águas desses rios serão utilizadas pelas populações durante o resto do ano, quando elas ficam armazenadas em açudes, barragens ou pequenos barreiros. Hoje, nós as armazenamos também em cisternas para beber e produzir. Acontece que, em anos de chuvas muito intensas, muitas dessas barragens se rompem, intensificando os desastres que acontecem à jusante.

 

Terceiro, cito o especialista em clima Phillips Fearnside, americano que vive na Amazônia. Em evento promovido pela CNBB sobre as Mudanças Climáticas, ele nos apresentou dezoito possíveis cenários para o Nordeste. A maioria falava de aumento das temperaturas e dos períodos de estiagem. Entretanto, um deles falava em chuvas diluvianas para o Nordeste. Por ser o único a projetar esse cenário, foi eliminado.

 

Minha opinião – embora eu não seja técnico, vivo aqui e vejo a mudança empiricamente - é que Fearnside deveria ser mantido. Com o aquecimento do Atlântico, grandes volumes de água estão se evaporando, caminhando para o continente, estacionando sobre o Nordeste e produzindo chuvas incalculáveis, como os 230 milímetros em uma chuva em Uauá, sertão da Bahia, ou os 400 milímetros em três dias, como essas chuvas sobre Alagoas e Pernambuco. Lembremo-nos ainda das chuvas torrenciais em 2008 sobre Piauí, Ceará e Maranhão. Portanto, os tais fenômenos extremos dos quais nos falam os estudiosos do clima estão realmente já acontecendo.

 

Somemos esses fatores e teremos um pouco do entendimento do novo Nordeste e da tragédia pernambucano-alagoana.

 

Roberto Malvezzi (Gogó), ex-coordenador da CPT, é agente pastoral.

 

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Comentários   

0 #3 Nordeste de LutoMoacir de Souza 16-07-2010 17:42
Enquanto o nordeste não sofrer um impacto de educação, se consientizar que voto não se vende e souber escolher melhor seus representantes infelizmente os politicos corruptos e safados e filhos dos coroneis vão continuar mandando e comprando votos como é aqui na região do Vale do São Francsico onde até estão se bandeando para os partidos de esquerda e oposição e se pulverizando no diversos partidos para manter a egemonia e o comando das prefeituras onde são eleitos veradeiras antas. e tenho dito
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0 #2 Ajude às vítimas das chuvas de AlagoasErivagno Olivera Avelino 30-06-2010 18:34
Prezados,

Os Correios estão participando da campanha de ajuda às vítimas das enchentes de Alagoas. Repasso abaixo (com algumas alterações, porque é uma mensagem interna aos funcionarios, e nao posso repassar na íntegra) a forma que temos de contribuir. Podemos mandar roupas, calçados, alimentos... pelos Correios, tudo de graça. Se tiver dúvidas, pode passar em uma agência mais proxima, ligar para uma agência, ou pode mandar um e-mail pra mim que respondo. ()

A Diretoria da empresa aprovou a arrecadação de donativos pelas Agências dos Correios e o transporte, visando atender às necessidades emergenciais das vítimas das enxurradas e inundações ocorridas no Estado de Alagoas. A rede de atendimento iniciou a arrecadação no dia 25/06/2010.
Muitos dos municípios encontram-se sem água potável e sem energia elétrica. Devido à destruição dos prédios locais, há 1.000 (mil) desaparecidos e 75.000 (setenta e cinco mil) desabrigados. A população sofre com a falta de alimentos, haja vista que mercados também foram atingidos pela calamidade. O acesso às cidades encontra-se prejudicado, pois diversas estradas foram bloqueadas por deslizamento de barreiras e queda de pontes.
Na campanha de arrecadação de donativos pelas agências poderão ser recebidos alimentos não perecíveis, vestuário, roupas de cama, mesa e banho, calçados, tendas e barracas. Remédios só poderão ser aceitos se doados por fabricantes ou redes farmacêuticas que se responsabilizem pelo cumprimento das normas aplicáveis a esses produtos. Não serão aceitas doações em dinheiro. Os produtos deverão ser embalados pelo doador, em pacotes que não excedam 30 quilos, e entregues nas Agências dos Correios. Devem-se evitar embalagens frágeis que possam se romper durante o manuseio e transporte. A postagem dos donativos será gratuita.

No ato da postagem, a encomenda deve ser endereçada à Coordenadoria Estadual de Defesa Civil de Alagoas, Rua Lavenere Machado nº. 80 — Trapiche da Barra, Maceió/AL, CEP 57010-383, não sendo permitido o envio a pessoas físicas, órgãos ou entidades.
As encomendas-donativos que não atenderem às condições preestabelecidas não poderão ser recebidas.
As orientações do detalhamento da operação serão passadas a toda Rede de Atendimento pelo Departamento de Administração da Rede de Atendimento (DERAT) com o propósito de que sejam divulgadas às agências e à sociedade.
Esta iniciativa faz parte da Política de Responsabilidade Social da ECT, sendo denominada “Correios Solidariedade Expressa”. As ações de ajuda aos desabrigados são desencadeadas pelos Correios sempre que solicitadas pelos governos estaduais, em situações de emergência e calamidade pública. Essa atuação dos Correios é uma importante contribuição de mobilização social e solidariedade, tendo como beneficiário direto a própria sociedade. Como braço do governo e importante agente de ação social, a ECT possui como um de seus papéis institucionais o apoio a ações governamentais.
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0 #1 nosdeste de luto... e com razão!guimarães s. v. 30-06-2010 08:26
dou-lhe inteira razão! caro Gogó, os governos não se incomodam nem se interessam, deveras, pela solução radical, strictu sensu, para os problemas do Nordeste e a "indústria da seca" interessa demais aos "políticos", né? o jeito é fazer o que você vem fazendo: prosseguir no esclarecimento das populações sobre seus des/governos e maus políticos. abração solidário. Sérgio Guimarães, primeiro candidato a senador do PT/BA, 1982, eleições viciadas e manipuladas pela ditadura militar.
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