Grande capital controla como nunca as eleições e os candidatos mais cotados

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A eleição presidencial mais controlada pelo grande capital, desde o restabelecimento das eleições diretas no país, se aproxima de seu calendário oficial. Por uma das inúmeras deformações do processo eleitoral, o que assistimos até o momento atende pelo eufemístico nome de pré-campanha.

 

Formalmente, somente após as convenções dos partidos – que devem se realizar até o dia 30 de junho - e da data de 6 de julho as campanhas podem se assumir como tais. O que assistimos, portanto, até o momento foram eventos pré-eleitorais, independentemente da máquina do governo federal ou do aparato do PSDB estarem a pleno vapor, com os seus respectivos candidatos, Dilma e Serra.

 

As eleições se encontram sob o controle do grande capital, pois o outrora contestador PT se encontra mais domesticado do que cachorrinho de circo. O candidato da oposição, José Serra, pertence ao confiável PSDB, partido responsável pela consolidação do modelo liberal-periférico ou neocolonial, como queiram, em curso no país desde o atribulado e instável governo de Collor.

 

Delfim Neto, o ex-czar econômico da ditadura militar, e conselheiro informal do atual presidente, já afirmou por mais de uma vez que "Lula salvou o capitalismo no Brasil". Exagero. O que Lula, o PT e os seus aliados históricos fizeram foi salvar justamente o modelo econômico baseado na dita abertura econômica e que se traduz no continuado processo de abertura financeira, comercial, produtiva e tecnológica do país.

 

Outra aberrante característica do momento é que a mídia dominante já realizou uma espécie de prévia eleitoral. Além dos dois candidatos já mencionados, a oligarquia que controla os principais meios de comunicação do país incluiu dentre os seus eleitos a eco-capitalista Marina Silva. Talvez pelo seu esforço de também se mostrar mais do que bem comportada frente aos donos do dinheiro, da terra e da mídia.

 

Marina, na busca dessa bem comportada imagem, se coloca capaz de – caso eleita – juntar o melhor do PT e do PSDB em seu governo, e vir a ser também "uma grande solução para o agronegócio". Parece que vai longe o tempo em que os verdes se colocavam a favor da agroecologia.

 

Para quem lê qualquer dos jornais de maior circulação, ou assiste a noticiários de TV, percebe-se com clareza a existência imposta desses três citados candidatos. É dentro desse contexto que devemos compreender o esforço realizado nos últimos dias por intelectuais considerados de esquerda e que procuram justificar o apoio a Dilma como a melhor opção para o país. Mais do que isso, procuram apontar o imenso equívoco que representa não apoiar o PT e seus aliados nesse momento. Até mesmo a célebre divisão entre a social-democracia alemã e os comunistas daquele país, no início dos anos trinta, e que acabou por facilitar a ascensão de Hitler ao poder, é lembrada para justificar a posição favorável ao apoio à candidata do Planalto.

 

Procurando respaldar essa visão, de forma mais consistente, encontramos análises que destacam que o atual governo promoveu a reinserção internacional do Brasil na economia global, com uma ativa política de integração regional e alianças estratégicas com os países do hemisfério sul. Como exemplo, cita-se o fato de a China ter se tornado o nosso principal parceiro comercial, com a América do Sul em segundo lugar e os Estados Unidos sendo deslocado para um modesto terceiro plano.

 

Esse tipo de abordagem desconsidera que o capital procura a sua valorização de acordo com condições objetivas de rentabilidade, o que não deve ser confundido com qualquer tipo de viés ideológico ou político. A China hoje, além de promover uma formidável expansão de sua infra-estrutura econômica, o que demanda a importação, por exemplo, do nosso minério de ferro, abriga um diversificado setor de bens de consumo duráveis e não-duráveis, que se deslocou dos Estados Unidos para aquele país. Há, inclusive, analistas que consideram que as mais de setenta mil filiais de empresas norte-americanas operando em território chinês consolidam uma integração produtiva sino-americana que conforma uma solidez estratégica entre esses dois países, que em muito extrapola a propalada relação do Estado chinês com a dívida pública do Tesouro americano.

 

Mas, especialmente, é uma análise que procura desconsiderar a nossa real inserção na economia global. Nossa presença comercial no mundo se baseia no modelo agro-mineral-exportador, tão criticado historicamente pela esquerda e por todos os setores que já alimentaram a esperança do estabelecimento no Brasil de um autêntico projeto nacional de desenvolvimento.

 

Ao mesmo tempo, com nossa estrutura produtiva cada vez mais desnacionalizada, importamos máquinas, equipamentos, peças e componentes industriais ao sabor das definições estratégicas das matrizes das corporações estrangeiras, aqui presentes através de suas filiais.

 

E para financiarmos tudo isso, para sustentarmos essas importações e as elevadas remessas de lucros e dividendos para os controladores externos de nossa economia, a devastação promovida pelo agronegócio, por mineradoras e siderúrgicas de produtos semi-elaborados ganha a sua funcionalidade, através de nossas exportações.

 

Levando-se em conta a importante agenda da integração latino-americana, um mínimo de cuidado analítico também se faz necessário. Não podemos confundir aspectos da política diplomática do governo Lula – efetivamente importante para vários governos reformista-revolucionários de nossa América – com o conjunto da nossa política externa.

 

Na América Latina, o furor e impetuosidade de multinacionais brasileiras já colocaram em rota de choque o governo Lula com governos efetivamente comprometidos com a transformação de seus países. Foi o caso, por exemplo, do conflito entre o governo do Equador e a Construtora Odebrecht, por ocasião do rompimento de uma represa construída pela empresa naquele país, onde o governo brasileiro e suas lideranças no Congresso – com o apoio do DEM – assumiram a firme defesa dos interesses da empreiteira brasileira.

 

Outro exemplo importante é dado pela política de financiamentos do BNDES para grandes projetos, de interesse das construtoras brasileiras. Além de internamente o BNDES ser hoje o principal agente financeiro da predação ambiental em nosso país, na América Latina o papel do Banco segue os mesmos passos.

 

Somente na Amazônia peruana, a previsão é que se construam seis usinas hidroelétricas, de total interesse das empreiteiras brasileiras, na procura de alternativas de negócios que escapem dos controles que nossa legislação ambiental procura estabelecer. Além disso, são projetos que obedecem às estratégias de infra-estrutura elaboradas pelo Banco Mundial para a região, dentro da concepção de se criarem melhores condições para a exportação de produtos primários para as economias centrais.

 

E essa política do BNDES na América Latina não pode também ser desvinculada dos obstáculos que o governo brasileiro coloca para a consolidação do Banco do Sul. Proposta como instituição de fomento relevante na região e instância para uma maior e necessária integração financeira entre os nossos países, fora da área de intervenção do FMI, Banco Mundial, BID – instituições que encarnam sobremaneira os interesses norte-americanos –, é sabida a oposição brasileira a esses propósitos.

 

E isso tudo sem também deixar de mencionar a presença das tropas brasileiras no Haiti, ou o recém acordo militar Brasil-Estados Unidos, rompido desde o governo Geisel, e agora restabelecido – sem um mínimo de transparência – pelo atual governo.

 

São muitos os exemplos, portanto, que colocam em xeque a ingênua, ou oportunista, abordagem que simplifica a análise mais substantiva da política externa brasileira. Por fim, não poderia também deixar de mencionar o argumento que destaca que acima de tudo o governo Lula priorizou o social.

 

Prioridades de governo se refletem, necessariamente, nos seus respectivos orçamentos. E é impossível acreditar que um governo que prioriza o pagamento de juros e amortizações, como é o caso atual, tenha tido condições de colocar as políticas sociais em um plano relevante.

 

O que tivemos, de fato, foi o aprofundamento da outrora também criticada focalização de políticas sociais nos setores mais vulneráveis do nosso povo. Política importante, para o atendimento aos mais carentes, mais miseráveis. Mas absolutamente insuficiente para o que precisamos: políticas universais e de alta qualidade para o conjunto do nosso povo.

 

Ao contrário, continuamos a assistir – em termos de educação, atendimento de saúde, transportes públicos, segurança ou habitação popular – a uma perigosa degradação.

 

Paulo Passarinho é economista e membro do Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro.

 

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Comentários   

0 #7 O sucesso de LulaRemindo Sauim 26-07-2010 09:08
Quando o Lula era apenas uma voz contra a Ditadura e a favor dos trabalhadores, era então considerado um terrorista comunista. Quando fundou-se o PT e Luis Inácio foi o candidato, davam risadas do nordestino. Quando em 1990 enfrentou Collor, novamente as acusações de terrorista comunista foram detonadas pela direita e seu império midiático. Esta mesma direita, disfarçada de centro fez tantas bobagens nos 12 anos que se seguiram que o povo resolveu mudar. As acusações de terrorista comunista vieram novamente as páginas dos jornais. Com a vitória de Lula, estes mesmos críticos o acusam de ser capitalista. Lula não mudou, é o mesmo que enfrentou a ditadura, nem terrorista comunista nem um capitalista de direita. Cumpriu todas suas promessas e ainda deixa uma sucessora que irá trilhar pelos mesmos caminhos da prestação de serviços ao povo brasileiro
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0 #6 joao a almada apos.banespa 25-07-2010 15:19
A enorme influencia do SANTANDER no governo ,na justiça, na eleições, comprando consciencias, demonstra cabalmente as razoes do autor deste artigo;
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0 #5 Lula e o CapitalFrancisco Xarão 06-07-2010 07:25
Camarada Paulo, a julgar pela tua analise o grande problema de FHC teria sido não operar a favor do capital, ja que o sucesso de Lula se deve justamente a isso: estar em sintonia com o movimento do capital. Tu tens razão Lula é um oportunista e com certeza soube explorar as contradições do capital. Engana-se em sua análise ao dizer que a política social de Lula é foquista. O bolsa família é um grande programa de transferência de renda e um bom experimento para um futuro programa de renda mínima com impostos progressivos. O SUS melhorou muito mais que triplicando as equipes de saúde da família. De fato precisa ser enfrentado o problema das especialidades. Agora o problema político da tua abordagem é: qual alternativa? Fora do PT o que sobrou são um monte de pequenos grupos ideológicos que não tem um programa em comum sequer para disputar a presidência do Brasil. A pulverização da esquerda em dezenas de grupos é a prova de que falta uma estratégia comum para a esquerda no Brasil. Diante disso não vou deixar que se repita aqui o massacre da republica de weimar, quando a esquerda marchou a favor da burguesia fazendo discurso contra. Assim me parece teu artigo.
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0 #4 A culpa será do povo?fernando 02-07-2010 12:22
Não aguento mais estes artigos culpando a mídia burguesa. O que vocês queriam? Que a mídia ficasse propagandeando a esquerda? O que vocês se recusam a enfrentar é porque o povo ignora essas candidaturas e entende que a briga é contra os tucanos. Não percebem o erro que cometeram. Não percebem que a consciencia popular está mais avançada que voces.
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0 #3 Que país é este?Francisco de Assis N. de Castr 30-06-2010 18:38
A argumentação do autor briga com a realidade. Aliás, é típico de certos setores da esquerda tentar enquadrar os fatos nos esquemas de análise ortodoxa, castrando o dinamismo que o marxismo imprimiu na dissecação do capitalismo. Se os serviços de saúde estão degradados - e desse setor conheço um pouco por ser trabalhador de saúde - não podemos empobrecer a análise creditando ao governo Lula a responsabilidade pelos séculos de dominação espoliadora das elites de nosso país. A academia continua formando médicos para o mercado e não para o serviço público. O subfinanciamento da saúde tem como um dos entraves a lei de responsabilidade fiscal, fruto do governo neoliberal de FHC, que prioriza o pagamento da dívida pública. E não se pode, pela via institucional, mudar substancialmente tal cenário com as forças do capital financeiro, do latifúndio e da grande mídia mantendo a hegemonia política, social, cultural, econômica e ideológica da sociedade brasileira. Somente a incorporação de setores populares na construção de um país mais justo e solidário pode apontar para um horizonte diferente. Afinal, como disse Engels, somente os pequenos avanços criam as condições para os saltos qualitativos.
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0 #2 O CAPITAL para criançasRicardo 26-06-2010 07:15
Parabéns ao Correio pela publicação de mais esse excelente disgnóstico de Paulo Passarinho. Estamos diante de mais 3 gerentes financeiros (para ficar apenas nas 3 primeiras e colloridas linhas do mesmo novelo fashion atual), que continuarão executando o que lhes será ditado pelo pelo próximo e verdadeiro presidente do Brasil - o do Banco Central. Para nossas crianças-esperanças (eleitores), restam as promessas de seus futuros gerentes e seus bons vices-gerentes: Serra e Coelho da Páscoa; Dilma e Saci Pererê; Marina e Boitatá.
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0 #1 lula e marxsuedon 26-06-2010 06:49
se lula salvou o capitalismo lula esta no caminho marxista quando este pregava que para se realizar avaços estruturalmente trasnformadores ou revolucionárias deveria acontecedr nos paises mais desenvolvidos, é o que o brasil esta apenas começando
a ser por causa do lulinha paz e amor
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