A esquerda deve se abstrair das eleições?

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A modernidade e o capitalismo são faces da mesma moeda. São produtos e produtores do mesmo momento histórico. E como se conforma a modernidade? Através dos Estados nacionais. Para a expansão e consolidação da reprodução do capital e do capitalismo como um sistema econômico e político mundial, os Estados nacionais, através da administração dos governos, cumpriram e cumprem papel fundamental. É na sua consolidação que o capital e o capitalismo encontrarão sua mais eficiente administração e a própria intervenção para a sua reprodução.

 

Assim, como filhos da modernidade, somos filhos dos Estados nacionais. Situamo-nos e encontramo-nos cultural, social e politicamente nas fronteiras de nossos países. Mas os Estados nacionais abrigam diversas contradições. E é no seio destas contradições que surgem as idéias socialistas, que mostram a contradição entre o capital e o trabalho. Que nos mostram a luta de classes e os diversos interesses inconciliáveis. Os Estados tornam-se mais complexos e os governos, que se ampliaram enormemente no século passado, passam a cumprir diversos e novos papéis sociais. Em alguns momentos são liberais, apoiando o mercado, e em outros são intervencionistas, quando a reprodução do capital assim o exige.

 

Mas as contradições atingem também o governo. O grande número de funcionários, notadamente nas áreas da educação e saúde, onde as gestões dos Estados pelos governos assumem uma intervenção maior, leva estas contradições ao governo. E, também, os ideais socialistas, moldados na modernidade, passam pela conquista de governos.

 

Assim, não podemos e não devemos nos abstrair desta discussão e discutir apenas as mazelas do capitalismo sem debater o seu gestor. Ou seja, precisamos denunciar e nos organizar contra o capital e o capitalismo na sua totalidade, enfrentando quem o reproduz e quem o administra.

 

Desta forma, os movimentos de trabalhadores, de estudantes e os movimentos sociais devem se posicionar claramente nos embates diretos com o capital e com seus gestores. Não devem deixar que se criem as ilusões de que um governo de origem popular, que recebe bem e é amigo de militantes dos movimentos sociais e sindicalistas, administre o capitalismo com o apoio dos próprios trabalhadores. Dito de forma mais clara: devemos dizer que o governo Lula e sua candidata contribuíram e irão continuar contribuindo para bem administrar o capitalismo e o capital. Com diferenças com o neoliberalismo de FHC/Serra, mas com muita continuidade. E o pior é que a continuidade se centra na manutenção da reprodução do capital e do capitalismo como sistema econômico e social/cultural/político.

 

Devemos denunciar estes governos e apoiar candidaturas claramente comprometidas com gestões populares e anticapitalistas. Devemos disputar os governos de forma independente, mesmo que este fato não resulte em vitórias eleitorais imediatas. Afinal, quem se lembra ou estudou a história do PT sabe que ele começou pequeno, sem perspectivas eleitorais imediatas, mas compromissado com práticas e princípios que se colocavam ao lado do mundo do trabalho contra o capital. Que estava crescendo nas bases e nas lutas, mas que foi atropelado pelo imediatismo.

 

Assim, defendo que as esquerdas busquem sua unidade em candidaturas claramente posicionadas e que continuem seu trabalho de base, mas que não abram mão de disputar eleições com discurso e práticas próprias. Não existe contradição entre disputar os governos e desenvolver trabalhos de base. Pelo contrário, disputando governos aproveitamos o momento político para debatermos propostas e podemos levar a contradição ao Estado nacional. De outro modo seremos engolidos novamente pelo voto útil que, na maioria das vezes, se torna inútil se queremos superar o capitalismo.

 

Antonio Julio de Menezes Neto é cientista social, doutor em Educação e professor na UFMG.

 

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Comentários   

0 #6 Concordo que a esquerda não deve ficar dDenilson Borges Lopes Sanches 10-08-2010 14:03
Estou de acordo que nós, socialistas, não devemos ficar de fora das eleições ditas "burguesas", financiadas com o dinheiro das empreiteiras, do sistema financeiro e dos grandes conglomerados empresariais e da informação. Isso sem abrir mão do nosso ideal de transformação e que as candidaturas de esquerda façam a disputa para: denunciar as mazelas da sociedade e dos projetos em questão; e também para anunciar o projeto socialista como a verdadeira solução para os graves problemas sociais e ambientais.
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0 #5 As eleições não são a batalha finalrodrigo 22-06-2010 11:14
editorial brasil de fato.

As contradições desse modelo econômico certamente exigiram uma participação popular na política que vá além do calendário eleitoral



15/06/2010




Editorial ed. 381




A campanha eleitoral deste ano à Presidência da República agora está oficializada. Ou seja, com as convenções nacionais realizadas nas últimas semanas, os principais partidos políticos formalizaram suas candidaturas.




É verdade que, nos últimos dias, a mídia corporativa tem se “preocupado” mais com a Copa do Mundo e a seleção brasileira. Mas o fato é que o tema eleitoral já era tema de pauta desde o ano passado, como “cortina de fumaça” para a crise econômica mundial e muito longe de qualquer debate sobre projeto estratégico para o país. Esta, aliás, deverá ser novamente a marca da campanha presidencial. Isto é , ausência total de verdadeiro debate de projeto político que encare os graves problemas estruturais do país.




O PT e o PSDB insistem em tratar a campanha como “plebiscitária” – deve-se escolher entre a continuidade do governo Lula ou o retorno ao período do governo FHC. No entanto, nos programas de governo de ambos os candidatos, não há nada que indique que a economia deixará de ser hegemonizada pelo capital financeiro. Isso se torna evidente nas semelhanças entre as propostas para a agricultura, que privilegiam o agronegócio, braço do capital internacional e especulativo no campo.




Mesmo a ideia de que se trata de um embate entre os governos Lula e FHC é sintomática desta despolitização. Por um lado, o PSDB, herdeiro de oito anos de governo FHC e há 16 anos no governo de São Paulo – o Estado mais rico do país e com vergonhosos índices sociais –, significa retomar as privatizações e retroceder nas relações internacionais com o hemisfério sul, realinhando o país subordinadamente aos Estados Unidos. Por outro, o atual governo abandonou bandeiras históricas do seu próprio partido e optou por não enfrentar o capital financeiro internacional. Ao contrário, estimulou setores poderosos da economia, como os próprios bancos e empreiteiras, e blindou-se com um apoio popular, misto de clientelismo com assistencialismo. Portanto, está longe de atender às bandeiras históricas da classe trabalhadora.




E, nesse cenário, nos setores de oposição, à esquerda ao governo Lula, vigora a fragmentação e o divisionismo característico dos período de descenso social. O período eleitoral é visto apenas como espaço de agitação política e, consequentemente, há dificuldade de se construir um projeto alternativo, capaz de aglutinar outros setores da sociedade. E, novamente, não se trata de nomes, mas sim de se atacar os problemas concretos e estruturais da sociedade brasileira.




No entanto, no conjunto dos movimentos sociais, há um esforço em construir plataformas políticas unitárias que tentam flexionar o debate eleitoral para as questões sociais e econômicas. É neste sentido que resultaram as propostas apresentadas pela Coordenação dos Movimentos Sociais, pelas conferências realizadas pelas diversas centrais sindicais, seja no polo da CUT-CTB ou no da Conlutas-Intersindi cal, e entre os movimentos da Via Campesina.




Há evidentemente uma compreensão deste conjunto de organizações de que aliança do PSDB com o DEM, representada pela candidatura de José Serra, significa a retomada do projeto privativista, a restituição da política de relações exteriores submissa ao império e a criminalização dos movimentos sociais.




Entretanto, os movimentos sociais também vêm insistindo que as eleições não são a batalha final. As conquistas da classe trabalhadora sempre se originaram nas ruas, nas lutas populares, sindicais e estudantis. É ali que a classe trabalhadora é forte e pode, realmente, se fazer ouvir.




As eleições – espaço político que poderia ser importante para apresentar projetos para o país e de elevar a consciência política da população brasileira – estão cada vez mais despolitizadas e mais dependentes do poderio econômico. São vergonhosas e imorais as milionárias cifras gastas para eleger os integrantes dos poderes Executivo e Legislativo em nosso país. Montantes que afastam os setores populares das disputas eleitorais e tornam candidatos reféns dos financiadores milionários. É crescente a sensação, em cada eleição, de que as doações às campanhas eleitorais se constituem em verdadeiros investimentos, feitos pelos grandes grupos econômicos, para os quatro anos seguintes. O que o país precisa é de um projeto de desenvolvimento econômico e social, que promova justiça social e a distribuição da renda e da riqueza produzidas em nosso país. Um projeto desses contraria os interesses dos grandes doadores das campanhas eleitorais. É por isso que, com a conivência dos partidos políticos, o parlamento se torna cada vez mais o espaço da pequena política.




Infelizmente, no Brasil, ainda penamos com o longo descenso das lutas de massas e com o rebaixamento da discussão política. Mas as contradições desse modelo econômico – que mesmo em período de crescimento econômico promove a desigualdade social – certamente exigiram uma participação popular na política que vá além do calendário eleitoral. As lutas sociais, a organização e a politização da classe trabalhadora e a implementação de um projeto popular para o país devem alicerçar as politicas que realmente promovam mudanças estruturais que assegurem condições dignas de vida ao povo brasileiro.
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0 #4 procedentebraz menezes 22-06-2010 08:57
parabens ao Antonio, mas é antigo como a humanidade, a vida humana, os interesses, as disputas
devem ocupar todos os espaços possivel, como voce escreveu bem,dando o valor os limites e avanços de cada um dentro do seu tempo na história, como eterno movimento.
braz pt 13 vermelho
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0 #3 Sem um projeto é irresponsabilidadedavid barbosa de oliveira 21-06-2010 18:20
Uma vez que se entra na disputa eleitoral, todos estão aptos a vencer. Não apenas a denúncia, pois essa é uma condição sine qua non, mas um projeto, onde demonstramos claramente que é possível rompermos com a sina que nos foi dada e disponibilizar ferramentas que auxiliam o processo revolucionário. repito, auxiliam pois nenhum partido produz a revolução, apenas indica o caminho e cria instrumentos para tal processo. opinião de um cidadão qualquer.
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0 #2 a esquerda se abster nas eleições? NÃO!!guimarães s. v. 21-06-2010 16:32
caro Antônio Júlio, concordo na integralidade com seu discurso e subscrevo o comentario do Alceu. Nos marcos do capitalismo, a participação "das esquerdas" só pode e deve se dar com vista ao esclarecimento do eleitorado sobre o que é o capitalismo e as formas subreptícias que desenvolve, tipo "eleições democráticas", para iludir o povo e mantê-lo sob seu domínio, lá dele, capitalismo. e também para eleger representantes, deputados e senadores que venham amplificar o eco dos ideais que defendemos e praticamos. nesse sentido, é bem vinda todas as candidaturas de esquerda, como a de Plínio de Arruda Sampaio a presidente da república. o PSOL participa das eleições de 2010 buscando manter e ampliar as bancadas de parlamentares no Rio. São Paulo, Rio Grande do Sul, Pará e, com grande probabilidade, em Alagoas com Heloisa Helena e Bahia con Hilton 50. e, quem sabe, em outras unidadades federativas. ousar! agir! vencer! Sérgio Guimarães, primeiro candidato a senador pelo PT/BA, 1982, eleições viciadas pela ditadura militar.
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0 #1 Como frente, é válidoAlceu A. Sperança 21-06-2010 08:14
Só faz sentido a esquerda participar das eleições burguesas como frente anticapitalista, instrumento de denúncia. Fazer o jogo partidarista deles - eleição burguesa e partido contra partido é apenas a expressão do poder econômico - é inútil.
Concordo com a avaliação: disputar para denunciar, para sacudir. Espero que Ivan Pinheiro e Plínio Sampaio tenham a sabedoria necessária para construir um aríete anticapitalista.
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