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Europa alerta para profundidade da crise do capital e vulnerabilidade do Brasil Imprimir E-mail
Escrito por Fernando Silva   
Quarta, 02 de Junho de 2010
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"O futuro não virá por si só, se não tomarmos medidas", Maiakovski.

 

Estamos em meio a um novo pico da crise econômica mundial. Agora com centro na Europa, especialmente nos seus elos mais frágeis. A Grécia é o primeiro experimento dos governos centrais, desde 2007-2008, de descarregar nítida e brutalmente sobre as costas da classe trabalhadora o ônus da crise da dívida, que quebrou aquele país e ameaça contagiar a União Européia como um todo. Para obter a ajuda do FMI e dos bancos centrais europeus – fundamentalmente do que manda na "comunidade do euro", o alemão –, o governo grego tenta aplicar um plano que prevê corte de salários, de direitos e de gastos sociais numa dose nunca vista no longo pós-segunda guerra mundial. Balões de ensaio semelhantes estão sendo tramados para Portugal, Espanha e Itália. Não se trata de uma mera falência dos "pobres da Europa", que por si só seria grave, mas da ameaça de morte do euro como moeda comum àquele espaço, portanto, do pilar da integração européia.

 

Este novo momento da crise combina estagnação, alto desemprego, alto endividamento da sociedade e do Estado, quebrados após esgotarem sua capacidade de financiar, ou melhor, depois de injetarem bilhões em seus bancos para salvar os ricos das "bolhas" artificiais, como a imobiliária.

 

Ou seja, a situação na Europa alerta: apesar da relativa calmaria de 2009, não se fechou a crise aberta entre 2007 e 2008. Pois nunca se tratou de uma crise das bolsas ou dos bancos simplesmente, mas de uma crise do "modo de funcionamento" do sistema, digamos assim, adotado desde o final dos anos 70. Ou seja, segue aberta e se agravando a crise da "era das desregulamentações", do "livre mercado", da hiper-liberdade de circulação de capitais. Uma avalanche que abala os parâmetros com que o capital se acumulou e reproduziu nas últimas quatro décadas, com profunda integração entre finanças, comércio e produção globais.

 

Embora esta nova avalanche ainda não tenha atingido aquele que continua sendo o coração do sistema (os Estados Unidos), o novo momento traz uma diferença de qualidade do ponto de vista dos revolucionários: luta de classes. Há fortíssima reação dos trabalhadores, trabalhadores e da juventude na Grécia; greves e protestos muito expressivos em Portugal, Espanha, Itália. Mesmo na Inglaterra, ainda longe do epicentro da crise da dívida dos elos mais frágeis, há fortes tensões sociais provocadas pelo alto endividamento e desemprego da sociedade, que resultaram, como era de se esperar, na derrota dos trabalhistas nas eleições gerais e na volta dos conservadores (ainda que sem maioria absoluta, expressando uma crise do velho bipartidarismo).

 

As eleições inglesas e, ainda mais dramaticamente, o levante social na Grécia evidenciam que ainda estamos em uma etapa de forte crise de alternativas. É certo que, onde há lutas sociais, tendem a surgirem e se fortalecerem alternativas anticapitalistas sindicais e partidárias. Ainda assim, não está de modo algum definido qual será o desenlace para a esquerda socialista neste riquíssimo, mas difícil processo de lutas de classes na Europa. Ali, as diferentes agrupações anticapitalistas – algumas já razoavelmente consolidadas, como o Bloco de Esquerda em Portugal, ou mais atuantes, na Grécia – serão colocadas à prova.

 

Em resumo, cabem duas observações sobre o novo momento:

 

a) A crise é de longa duração. A simples repetição dos remédios mais duros do período anterior, como se vê agora na Grécia, sinaliza a inexistência de uma nova política ou novo padrão de recomposição do capitalismo para superar a crise. É uma crise estrutural, que acarretará um longo período de turbulências, estagnação, tensões sociais, e prováveis realinhamentos geopolíticos, com disputas ainda mais violentas por mercados, recursos energéticos e naturais. Ainda que se mantenha a predominância do imperialismo norte-americano, vão se acirrar também contradições inter-estatais, além das contradições de classes. A economia dos Estados Unidos, apesar de uma leve recuperação conjuntural, parece caminhar para uma estagnação semelhante à japonesa dos anos 90. Embora o neoliberalismo demonstre seu fracasso, não muda o modelo de acumulação, liderado pelo capital financeiro. Embora os governos centrais tenham conseguido impedir a depressão aguda, com as injeções massivas de dinheiro público na economia, seus "planos de resgate" são medidas de resultado duvidoso no longo prazo e sem condições de vida muito longa

 

b) Está mais do que nunca na ordem do dia a reconstrução e a reorganização das bases de um projeto para a revolução, como necessidade imediata e histórica. Pois, sem superar a crise das alternativas das classes trabalhadores e sem referências claras para a construção de uma saída em que as ações de massas e elementos de auto-organização comecem a tomar o centro da cena, os custos, dramas e sofrimentos humanos para que o capitalismo supere esta crise serão imensos, incalculáveis. A História do século 20 é repleta de exemplos de até aonde vai o grande capital para resolver suas crises sistêmicas.

 

Desdobramentos da crise e a situação no Brasil

 

O futuro se constrói no presente. Não basta apresentar objetivos estratégicos para uma década ou mais, lá adiante. Isto significa buscar compreender a situação conjuntural em que atuamos, ou seja, o cenário brasileiro, a política concreta do governo Lula e do grande capital no contexto mundial; os desdobramentos que essa crise global poderá ter no país, com que tempos e contradições a partir do cenário político de hoje.

 

Em 2008, a crise econômico-financeira nos países centrais chegou com extrema velocidade e violência no Brasil. Com a súbita escassez de crédito internacional, queda brusca das exportações provocada pela retração do comércio mundial e a queda no preço das commodities, o país viveu uma rápida recessão, com dois trimestres de retrocesso e um saldo de um milhão de novos desempregados.

 

Porém, do segundo trimestre de 2009 para cá, o país vem conseguindo uma recuperação igualmente rápida, com projeção de crescimento de 6% para 2010, após o crescimento zero de 2009. O que permitiu ao governo e ao grande capital brasileiros controlarem a crise? A montanha de verbas públicas injetada na economia sob a forma de liberação de crédito. O baixo endividamento da população em relação ao padrão ocidental – que permite uma margem de manobra na expansão do crédito. A redução paulatina das taxas de juros (já interrompida). A intensificação da política de isenções fiscais. O peso do mercado interno - especialmente na produção industrial, da qual 80% são consumidos em território brasileiro. A recuperação do salário mínimo e um crescimento da massa salarial, ainda que em razão do aumento da precarização dos contratos – este crescimento se deu fundamentalmente na faixa de 1 a 3 salários mínimos.

Estes fatores, somados às políticas compensatórias do governo Lula, com eixo no Bolsa Família, estão na raiz da popularidade imbatível do presidente que, a propósito, torna o cenário eleitoral cada vez mais favorável à candidatura do governo e, simetricamente, extremamente difícil e limitado para uma visão crítica e de esquerda nas eleições de 2010.

 

Porém, em que pese não ser provável nenhum descontrole econômico, nem qualquer turbulência nos níveis do último trimestre de 2008, nem de longe se deve desconsiderar que esse novo pico da crise com centro na Europa deverá passar ao largo do Brasil.

 

É o próprio BNDES que afirma isso, ao prever conseqüências negativas expressivas para as exportações do país com a crise européia, já que vai para o velho continente cerca de um terço daquilo que é exportado ao ano pelo Brasil. Nem é demais lembrar que, na semana do anúncio do pacote impopularíssimo do governo grego, a fuga de capitais do Brasil foi da ordem de US$ 2 bilhões, e mais algumas semanas de instabilidade na Bolsa.

 

É preciso não perder de vista o grau de vulnerabilidade da economia brasileira, dado pelo modelo agro-industrial-exportador, sua enorme dependência do comércio mundial e sua subordinação ao capital financeiro. A manutenção deste modelo, ancorado na remuneração e dependência do capital financeiro, mantém sérios gargalos e arma bombas de tempo importantes, que cedo ou tarde serão acionadas no Brasil.

A manutenção de altas taxas de juros e o conseqüente aumento da dívida pública, o crescimento do endividamento da sociedade, o estrangulamento dos serviços públicos e sociais, a manutenção da política preventiva de arrocho no setor público, a busca de retirada de direitos, o estrangulamento também da infra-estrutura, a política de crescimento predatório e privatista na área energética com sérias conseqüências ambientais... Tudo isso deverá cobrar seu preço talvez no próximo governo, diante de um cenário cada vez mais instável no mundo.

 

A lógica ortodoxa neoliberal de submissão ao capital financeiro abre brechas e contradições flagrantes na política do governo Lula, como agora na questão do reajuste dos aposentados e do fim fator previdenciário, que o governo já anunciou que vai vetar.

 

Desafios da esquerda socialista nessa conjuntura

 

Há tempos diferentes, portanto, para a construção de uma política e de uma ação socialista conseqüente para disputar a consciência da classe trabalhadora. Há brechas que se abrem e inegáveis desafios conjunturais aos quais uma autêntica esquerda socialista precisa responder nestes tempos de crise.

 

Mesmo numa situação econômica e política concreta muito diferente da norte-americana (de estagnação econômica) e da européia (ameaçada por um terremoto político e social), a resposta socialista no Brasil tem que se referenciar na crise global.

 

Impossível, porque incorreto, abrir mão da denúncia da manutenção desta política econômica, cujos pilares são os mesmos que levaram o mundo à porta da bancarrota com conseqüências muito graves no Brasil – onde qualquer nova turbulência se combina com as "tradicionais" mazelas que acossam diariamente o povo trabalhador: o desastre da saúde pública, da política habitacional, o desprezo para com os direitos da classe trabalhadora, dos aposentados, a precarização do trabalho, a falta de esperança para a juventude das grandes periferias, uma criminalização permanente sobre as lutas sociais e sobre a pobreza, só para ficar em alguns dos mais evidentes exemplos.

 

Tais questões estarão em pauta neste ano de eleições presidenciais que definem a sucessão de Lula. As duas principais candidaturas – a do governo Lula e a da oposição de direita – são claramente portadoras do mesmo modelo em vigor até aqui, modelo do qual não discorda a candidatura Marina Silva, capaz de apresentar-se como uma alternativa síntese, pois defende a herança da política econômica dos mandatos de FHC e Lula. Assim, é um desafio de grande monta atuar nas eleições de 2010 com uma política de esquerda autêntica, alternativa e socialista, sintetizada hoje no PSOL e na candidatura de Plínio Arruda Sampaio.

 

Por isso, é fundamental a construção de uma política e de um programa que, a partir das demandas populares e da crítica radical da política do Estado e do grande capital até hoje vigentes no Brasil, consigam apresentar uma autêntica alternativa anticapitalista, popular e socialista.

 

Está colocada, por exemplo, uma campanha em defesa dos aposentados, contra o veto ao fim do fator previdenciário. No terreno do programa, é preciso esclarecer a conexão entre os vetos de Lula e o peso da dívida pública, da obrigação perversa de remuneração com recursos do Estado ao capital financeiro, enquanto o orçamento social, arrochado, não dá conta das necessárias reformas agrária, urbana, ambiental, nem de um mero reajuste para os aposentados.

 

Será a partir da crítica à submissão do Estado brasileiro à lógica da dependência ao grande capital e seus interesses que nascerá uma alternativa anticapitalista. Nesta etapa de crise de longa duração, a natureza de um programa dos trabalhadores, seja nas lutas, nos debates ou nas eleições, só pode ser de ruptura com o capital.

 

Será uma tarefa pedagógica alertar ao povo sobre o que virá por aí em tempos de crise global. Nem bem a turbulência econômico-financeira bateu às portas do país em 2008 e o grande capital desencadeou enorme ofensiva sobre os direitos e o emprego da classe trabalhadora. E intensifica uma preventiva ofensiva criminalizadora sobre as lutas e movimentos sociais para impedir e minar ao máximo a capacidade de resistência operária e popular.

 

Por isso, um dos objetivos principais nestas eleições deve ser construir uma campanha colada aos movimentos sociais, referenciada nas suas demandas, nas suas lutas, apoiando as suas iniciativas, como a de construção da nova central combativa, as ocupações dos sem-terra, estimulando a auto-organização popular.

 

Por fim, voltemos ao início: a natureza da crise atual na economia capitalista e a queda de braços entre governos e o capital com as classes trabalhadoras na Europa, com centralidade agora nos enfrentamentos na Grécia, terão desdobramentos no globo e no nosso país ao longo do tempo. No Brasil, o norte é a luta para a constituição de alternativas estratégicas de saída da crise e de poder do ponto de vista dos "de baixo". Mas isso se consegue na atuação nas lutas e demandas sociais não atendidas e com uma conseqüente atuação nas importantes eleições de outubro, buscando recapacitar a formatação de um projeto socialista para o Brasil.

 

Pois é desde já que se constrói o dia depois de amanhã.

 

Fernando Silva é jornalista, membro do Diretório Nacional do PSOL e do Conselho Editorial da revista Debate Socialista.

 

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Última atualização em Segunda, 01 de Novembro de 2010
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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