Ho Chi Min (1)

 

O Vietnã comemorou, em maio, os 120 anos do nascimento de Ho Chi Min, inclusive com a realização de um seminário internacional para discutir o seu legado. Nesse seminário, abordou, principalmente, suas contribuições nas causas da independência nacional, socialismo, paz, amizade e progresso da humanidade, cultura, ética e dignidade.

 

Diante dos novos desafios enfrentados pelos Vietnã, em especial pela adoção dos mecanismos de mercado para desenvolver suas forças produtivas, com todas as conseqüências que isso representa, os comunistas vietnamitas parecem empenhados em resgatar os pensamentos históricos de Ho Chi Min como uma bússola que os oriente nesse complexo processo de transição.

 

Quando Ho Chi Min nasceu, em 1890, o Vietnã, juntamente com o Camboja e com o Laos, fazia parte da chamada Indochina francesa. Uma parte do país, o Nam Ky (Cochinchina) estava subordinada ao regime colonial. Outra parte, o Ban Ky (Tonkin) era um semi-protetorado, enquanto o Trung Ky (Anan) era um protetorado.

 

Na prática, essa divisão era formal, já que a administração colonial decidia a vida do povo das três regiões, explorava suas riquezas naturais, protegia os produtos industriais franceses em sua concorrência com o artesanato local e reprimia qualquer movimento tendente a recuperar a soberania nacional.

 

Ho foi o terceiro filho de um homem de cultura, que não se deixara corromper, nem pelo mandarinato, nem pelas possibilidades que os colonialistas ofereciam aos colaboradores. Desse modo, cresceu num ambiente em que a cultura de seu povo, com mais de 3500 anos de história, era estudada e mantida como forma de resistência ao domínio colonial. Aos 15 anos já estava envolvido com as atividades clandestinas que parte da intelectualidade vietnamita desenvolvia contra os colonizadores.

 

Porém, ao contrário de alguns desses intelectuais, que pretendiam voltar-se para o Japão como contraponto ao domínio colonial, Ho Chi Min sentiu-se mais atraído pelos países ocidentais, como a França. Tais países viviam a contradição de promoverem a liberdade, a igualdade e a fraternidade, mesmo formais, em seu território, ao mesmo tempo em que praticavam a opressão e a exploração contra outros povos, proibindo-os de reivindicar qualquer uma daquelas bandeiras surgidas da revolução de 1789.

 

Ao terminar seus estudos, em 1908, Ho Chi Min decidiu viajar aos países ocidentais para conhecer como viviam seus povos e tirar daí ensinamentos que pudessem ajudar seus compatriotas a libertar-se do jugo colonial. Saiu do Vietnã como ajudante de cozinheiro de um navio mercante. E durante vários anos conheceu, além da França, Espanha, Portugal e Grã-Bretanha, na Europa; a Tunísia, Congo, Daomé e Senegal, na África; e os Estados Unidos, Brasil e alguns outros países das Américas.

 

Em cada um desses lugares, permaneceu por algum tempo. Foi cozinheiro na França, limpador de neve e atendente de hotel em Londres, ajudante de pedreiro em Nova York. Em cada uma das cidades em que viveu, mesmo por pouco tempo, fez contato com os emigrados vietnamitas, com os movimentos populares locais, com políticos e intelectuais. Com isso, descobriu a existência de movimentos anti-coloniais, lutas operárias e mobilizações sociais de diferentes tipos dentro dos países imperialistas, a exemplo das ações dos negros norte-americanos

 

Através dessas viagens e contatos com diferentes povos chegou à conclusão de que "embora as cores da pele fossem diferentes, havia apenas duas qualidades de pessoas sobre a Terra: os exploradores e os explorados". Isto se tornou um ponto de virada em sua visão, já que o pensamento comum dos vietnamitas era que todos os franceses eram colonialistas. Ter o povo francês, principalmente seus trabalhadores, como aliados, tornou-se parte do pensamento adquirido na experiência das viagens de Ho Chi Min.

 

Durante a primeira guerra mundial, Ho permaneceu na Grã-Bretanha como trabalhador manual. Mas logo que o conflito foi encerrado, resolveu voltar à França, onde se tornou restaurador de pinturas antigas. Ao mesmo tempo, desenvolvia atividades políticas com emigrados vietnamitas e mantinha contatos com os socialistas franceses. Passou a escrever artigos e panfletos sobre a opressão colonial na Indochina e acabou juntando-se ao Partido Socialista.

 

A ocorrência da revolução russa, em 1917, causou um forte impacto no pensamento de Ho, estimulando-o a conhecer como os russos haviam chegado a tanto. Foi em parte sob a influência desse acontecimento que ele, sob o nome de Nguyen Ai Quoc, decidiu enviar à Conferência de Versalhes a "Petição na Nação Anamita (Vietnamita). A petição foi publicada em 18 de junho de 1919 pelo jornal L’Humanité, sob o título "O direito das nações".

 

Nessa petição, Ho demandava que o governo francês anistiasse todos os presos políticos, reformasse o sistema judicial vietnamita, dando ao povo do país as mesmas salvaguardas dadas aos europeus, permitisse a liberdade de imprensa, opinião, associação, assembléia e ensino, substituísse o regime de decretos pelo regime da lei, e permitisse a presença de uma delegação permanente de vietnamitas no parlamento francês, para mantê-lo informado de suas aspirações.

 

Embora a petição não reivindicasse a independência, ela foi uma demonstração de que a luta pela independência dos povos colonizadas estava tomando corpo. A recusa pura e simples da Conferência em examinar a petição levou Ho Chi Min a chegar a outra importante conclusão: as declarações imperialistas sobre liberdade e democracia não eram senão palavras ao vento para enganar os povos oprimidos. Para conquistar a independência e a liberdade os povos tinham que contar com sua própria força.

 

Isso levou Ho a se voltar ainda mais para a experiência russa. Junto com ativistas do Partido Socialista Francês participou ativamente das atividades de solidariedade aos revolucionários russos contra a intervenção das potências imperialistas que pretendiam derrubar o novo poder na antiga terra dos tzares.

 

Em 1921, Ho Chi Min tomou conhecimento das teses de Lênin sobre as Nações e a Questão Colonial, apresentadas no segundo congresso da Internacional Comunista. Essas teses, segundo descrição do próprio Ho, o levaram a exclamar que ali estava o que ele e os povos oprimidos procuravam. "Aqui está o que nós necessitamos, aqui está o caminho de nossa libertação". Com isso, o que era uma curiosidade pela experiência da revolução russa, tornou-se uma verdade revelada e um objeto de estudo intenso.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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Comentários   

0 #2 Henrique 18-06-2010 10:54
Muito esclarecedor professor, sem sua intervenção a minha miopia fruto da minha ignorância, não conseguiria ver tudo isso nas entrelinhas. Uma verdadeira aula. Aliás aprendi com ambos. Obrigado
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0 #1 Tiro no Pé!Raymundo Araujo Filho 07-06-2010 14:22
Em mais um artigo, Wladimir Pomar não se furta de generalizar o termo INTELECTUAL, citando genericamente o que corresponde a uma parcela dos cidadãos, e não só "intelectuais" que, a meu ver erradamente, "pretendiam voltar-se para o Japão como contraponto ao domínio colonial", como descreveu Wladimir Pomar. Muitos intelectuais da antiga Indochina eram anti coloniais e não adeptos do Império Nipônico, aliás, os melhores intelectuais.

E, corroboro o "erradamente", pois o Japão na época, não exatamente contrapunha-se ao domínio ocidental, pelas vias do anti capitalismo, mas sim pela afirmação da sua estrutura imperial arcaica, discricionária e corrupta.

Ho Chi Min era de outra estirpe, e olhou para a modernização do mundo ocidental, pelos ditames anticapitalistas, e não pela "Harmonização dos Contrários", como quer Wladimir Pomar.

Mas, creio que Wladimir Pomar não escreveu este artigo (o primeiro de uma série) à toa, nem gratuitamente.

Arrisco a interpretação do texto de WP, dizendo que ele tenta fazer uma aproximação daqueles "intelectuais" a quem Ho Chi Min se contrapôs, com um alinhamento oferecido às experiências em curso, genericamente chamadas de Bolivarianas, por alguns da esquerda brasileira (a maioria da "esquerda silencia sobre isso, ou diz como a Dilma disse "Chavez é um presidente de país sulamericano que TEMOS de conviver), ao "provincianismo revolucionário" que muitos acusam o Chávez e Evo Morales (aí Wladimir Pomar se aproxima de Serra, inequivocamente).

Não excluo a possibilidade do artigo de WP exalar uma crítica ao Chávez pela sua estreita aliança comercial com a China, levada a termo com bastante vantagem para a Venezuela, ao contrário da permissividade na balança comercial Pró China, permitida por Lulla.

Tem gente que não se olha no espelho, por pura vergonha, por isso preferem falar mal da feiura alheia.

Em primeiro lugar, as experiências de Chávez e Evo Morales à frente são anti capitalistas e anti coloniais em seus ditames, coisa que o Japão não era (era apenas anti ocidental, em defesa do parimônio do Império Japonês).

Depois, estes países sulamericanos buscam dentro de si as confluências com o que a esquerda foi capaz de produzir, sobre forte influência européia (Marx, Engels, Lênin, Trotsky, principalmente), mas acrescentando as nuances autóctones da população característica de nuestra america, como afirmação e moderação de um Povo que, definitivamente não foi libertado por nenhum europeu, mas sim CONTRA a Europa Colonial, e que tem uma cultura, sabores e saberes próprios e inalienáveis de seu processo, sendo portanto, insubstituíveis, mesmo que fosse por algum marxismo ou gênero parecido, sem passar pela catraca das peculiaridades e autonomias intelectuais-cultutrais e produtivas (modos de produção) e quanto ao modo de se ver a própria vida.

Tenho a certeza que "esquerdistas" como WP gostariam de ver "aqueles índios" submetidos ao processo industrial, como mola do desenvolvimento, mesmo sob o socialismo. O que ao meu ver, não faz parte do imaginário destes Povos, sendo que eles têm todo o direito de terem as suas próprias aspirações, como Povo Autônomo e Livre que querem ser, e tendo o direito de experimentarem seus erros e acertos, sem a tutela externa.

Assim, a meu ver, WP erra o alvo e, desastradamente atira no próprio pé, quando descreve a origem familiar do grande Ho Chi Min: "Ho Chi Min foi o terceiro filho de um homem de cultura, que não se deixara corromper, nem pelo mandarinato, nem pelas possibilidades que os colonialistas ofereciam aos colaboradores".

Ho Chi Min não poderia ser mesmo filho de nenhum membro da Ex Esquerda Corporation S.A., parte do Lullo Petismo aliada ao mandarinato de sarney, collor, barbalho e caterva e corrompida pelos colonialistas do capital industrial e financeiro oligopolizados.

Considero este texto de Wladimir Pomar, dentro do contexto das ilações que me permiti interpretar (com as devidas justificativas pontuais) como um ultraje à memória de Ho Chi Min e aos verdadeiros intelectuais deste nosso Brasil e Américas que, mesmo sob intenso bombardeio e segregação, resistem com análises certeiras e irrefutáveis (senão em textos caregados de imagens "LewisCarol-Alicianas"), e não se permitem a adesão ao ditames do Capital Colonialista e nem a alianças com os Mandarins Nacionais.

São textos como este de Wladimir Pomar que nos explica porque, com o foi colocado em recente pesquisa, grande parte dos PETISTAS (e não Lullistas, exatemantre)se consideram direitistas e nutrem grande desperezo pela ideologia de esquerda.

Só no Brasil de Lulla seria possível um Partido, o PT, se dizer de esquerda, tendo seus filiados a se dizerem "de direita".
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