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‘Desafio da esquerda é se contrapor à norte-americanização das eleições brasileiras’ Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito e Valéria Nader, da Redação   
Sexta, 28 de Maio de 2010
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Com a disputa das eleições gerais se aproximando e tomando conta das discussões nacionais, o Correio da Cidadania entrevistou o sociólogo Ricardo Antunes, professor da Unicamp, que fez uma profunda análise do quadro que se projeta para o pleito de outubro. Para ele, a tarefa fundamental da desmantelada esquerda brasileira é a de evitar uma ‘norte-americanização’ de nossas eleições, diante da evidente polarização Serra/Dilma que se desenha.

 

No entanto, considera um grande obstáculo para tal objetivo a não formação de uma frente única de esquerda, tal qual se viu em 2006, que terminou com uma surpreendente votação em favor de Heloisa Helena. Defensor de uma candidatura unificada em torno de Plínio Arruda Sampaio, o autor de diversos livros sobre o mundo do trabalho considera um imenso retrocesso a pulverização da esquerda anti-capitalista em três candidaturas.

 

Tal situação, explica, evidencia a necessidade de um novo movimento de base, unificando e trazendo organicidade aos incontáveis movimentos sociais e de classe que não se enquadraram na conciliação lulista. Organizar trabalhadores e movimentos sociais de norte a sul do país numa única corrente é a tarefa que cabe aos partidos de esquerda no atual momento.

 

Antunes descarta completamente a hipótese de Marina Silva oferecer novos ventos ao debate político, visto que sua crítica ambientalista já se deixou enjaular nos limites dos interesses do capital.

 

A entrevista completa pode ser conferida a seguir.

 

Correio da Cidadania: Como analisa o cenário político que se desenha para as eleições gerais deste ano, mais especificamente no pleito presidencial? Como deverá ser travado o debate político?

 

Ricardo Antunes: Inicialmente, o quadro que se desenha é uma espécie de aproximação entre as eleições brasileiras e norte-americanas. Há uma norte-americanização de nossas eleições. A polarização entre Dilma e Serra se assemelha ao dualismo político-partidário existente nos EUA. Feito esse movimento, teríamos um processo que, de um lado, tem Dilma e seus aliados da esquerda à direita; de outro, Serra e seus aliados do centro à direita.

 

Nosso primeiro desafio é ter uma candidatura que faça o real contraponto à norte-americanização do processo eleitoral brasileiro. E essa alternativa só pode ser de esquerda, sem nenhuma ilusão, mas com coragem de tocar nos pontos fundamentais das mazelas da sociedade brasileira.

 

Correio da Cidadania: Sendo assim, que papel deveria caber às candidaturas de esquerda nesse pleito? O que seus candidatos e partidos, especialmente num espaço tão exíguo de tempo, deveriam tratar de transmitir à população?

 

Ricardo Antunes: É evidente que o processo eleitoral não pode ser entendido como o elemento decisivo, sendo os demais irrelevantes. Eu diria que o momento eleitoral será cada vez mais positivo e forte para as mudanças sociais de esquerda quanto mais estiver impulsionado e respaldado pelo movimento popular, de base, fundado nas forças sociais do trabalho, nas massas do campo e da cidade. É preciso reorientar o movimento, fortalecer uma organização popular, de modo que esta impulsionasse num futuro próximo um movimento político que pudesse ter mais conseqüência nas disputas eleitorais.

 

No momento, essa força popular não existe sob esses três partidos. A força popular hoje está com o MST. Mas se conseguirmos, ou conseguíssemos, fazer um contraponto, mostrando que não há possibilidade alguma de resolver as questões causadoras do flagelo e miséria do Brasil sob essa ordem, já seria um grande avanço.

 

E é possível relacionar questões imediatas, próprias da vida cotidiana, com questões mais gerais. Por exemplo: lutar, fortemente, pela redução da jornada de trabalho, sem redução de salário. É uma questão muito importante, pois, a partir dela, se incluiria no mercado de trabalho uma enorme parcela da população que se encontra desempregada. Aproxima a classe trabalhadora desempregada da empregada, mostrando que uma bandeira pode ser um grande ponto de unidade e aglutinação entre esses dois pólos da classe trabalhadora. E permitira perguntar: ‘Quem controla o tempo da minha vida? Quem deve controlar?’. E também questiona que tipo de sociedade somos, o que produzimos e para quê.

 

Ou seja, uma só bandeira, da redução de jornada, que aparentemente não toca nos pilares do metabolismo social do capital, pode ser decisiva no futuro. Não por acaso Marx, no volume 3 de ‘O Capital’, disse que a luta pela redução da jornada era decisiva para a luta emancipatória. Porque ele pensava o aqui e agora articulado com um projeto social de horizonte socialista.

 

A questão agrária é outro caso semelhante. A quem interessa o agronegócio, a agroindústria, o etanol, que escraviza ou semi-escraviza uma infinitude de trabalhadores que, no corte da cana, vivenciam as condições mais exploratórias e degradantes de trabalho? A quem interessa uma produção de commodities para exportação, eliminando a agricultura familiar, voltada à subsistência e alimentação das classes trabalhadoras? Elimina-se a agricultura familiar e introduzem-se os plantios de commodities ou mares de cana para etanol, prejudicando o solo, retirando alimentos da população trabalhadora.

 

Vive-se uma regressão neocolonial, pois estamos retornando a um passado de país agrícola. Neste momento, seria mais decisivo ainda colocar essa questão, pois podemos ser o país do agrobusiness essencialmente, isto é, uma dupla submissão.

 

Tais exemplos - de luta pela desconcentração de terra, contra o agronegócio, e pela redução da jornada - mostram que uma campanha alternativa contra a ordem pode partir de pontos imediatos.

 

Correio da Cidadania: Quanto às candidaturas mais à esquerda, estão bem representadas nesta eleição? Quais partidos têm representado, ou poderão representar, esse debate, a seu ver?

 

Ricardo Antunes: Penso que, no nosso campo, a pessoa mais preparada, de modo contundente e didático, para iniciar tal explicação de contraponto aos candidatos da ordem é o Plínio Arruda Sampaio (candidato à presidência pelo PSOL). Não tenho a menor dúvida, com o maior respeito ao Zé Maria e ao Ivan Pinheiro. E acho que eles também reconhecem. O Plínio tem 40 anos de militância nas lutas populares, com a diferença de que, quanto mais maduro foi ficando, mais consistente se tornou seu projeto de esquerda. É uma coisa muito impressionante e positiva para quem o conhece. Pude conhecê-lo em meados de 60, quando dei aula na FGV, e passados 35 anos ele só ganhou em consciência, força, respeito junto ao movimento popular.

 

É inegável que o Zé Maria (candidato à presidência pelo PSTU), é um militante sindical da melhor qualidade que o Brasil criou desde as greves do ABC. O Ivan Pinheiro também sempre foi um homem de esquerda e militante dos bancários, com história no PCB. Respeito muito os dois. Mas qual nome, por exemplo, é reconhecido pelo MST como o mais qualificado para pensar a questão agrária brasileira? É o Plínio. Qual a expressão política da esquerda brasileira que vem estudando, digamos assim, a inserção destrutiva do capitalismo brasileiro nessa ordem global? É o Plínio.

 

É evidente que uma frente de esquerda teria de sentar junta sem um candidato previamente definido. E tenho convicção de que, se ocorresse tal debate, haveria uma tendência natural de se confluir para uma candidatura do Plínio. Precisa-se de espaços políticos importantes para uma composição de esquerda onde o fundamental não seria o ‘meu cargo’, mas sim o programa que defenderemos. E acho também, com todas as diferenças, que temos três agrupamentos claramente anticapitalistas. Os únicos no cenário político-partidário brasileiro que podem fazer uma campanha profunda, tocando nas questões fundamentais, da vida cotidiana das massas, e com coragem de dizer o que precisa ser dito, ao contrário das demais candidaturas, que não dizem o que é preciso, mas sim o que seus homens de marketing as orientam a falar para ganhar uma eleição.

 

E o Plínio não participaria de uma eleição para ganhar e se desfigurar, pelo contrário. Acho difícil, mas torço para que se faça a frente. Plínio só teria admitido sua candidatura se pudesse manter sua coerência dos últimos 40 anos. E isso pode lhe render um reconhecimento popular e também eleitoral que nos tiraria da condição de gueto.

 

Nós temos de saber que uma eleição desse tipo é um espaço para a esquerda debater algumas questões seminais, decisivas, e que, normalmente, no curso dos anos, está completamente vedado, na televisão, o debate que minimamente fale das questões essenciais. A mídia não tem a menor abertura em seus grandes veículos (como a TV, que fala para mais de 100 milhões de pessoas) para as questões cruciais. É diferente quando temos uma campanha gratuita eleitoral.

 

Entendo também ser muito importante não cair numa campanha louca para conseguir votos para os parlamentares, quando sabemos que a campanha está consubstanciada na figura de uma candidatura popular à presidência. Essa sim pode alavancar avanços em outras dimensões, onde o fundamental, para mim, é subir um degrau no patamar da organização e conscientização da massa trabalhadora no Brasil.

 

Correio da Cidadania: O que imagina possa ter mais contribuído para a não formação de uma frente de esquerda, tal qual se viu em 2006, de modo a fortalecer uma única candidatura de cunho verdadeiramente alternativo? Essas várias candidaturas que se travarão à esquerda não pulverizarão de tal forma o debate, de modo a torná-lo inócuo, de tão ‘nanico’?

 

Ricardo Antunes: Nós do campo da esquerda, até o presente momento, não conseguimos uma composição em direção a uma alternativa socialista que aglutinasse PSOL, PSTU e PCB – e parece difícil. Por razões justas, cada um dos três tem motivos para aparecer com cara e voz própria. Todos eles têm essa legitimidade. Mas, no meu entender, trata-se de uma derrota para o projeto de esquerda mais geral. Com os três movimentos juntos, teríamos condições de dizer um pouco mais sobre os pontos fundamentais da forma destrutiva do capitalismo brasileiro, oferecer denúncias e também alternativas à ordem capitalista, na medida em que esses três partidos têm uma forte confluência em pontos expressivos.

 

Por exemplo, mesmo com diferenças que podem correr internamente, principalmente no PSOL, com suas respectivas candidaturas, os três grupamentos têm uma clara confluência ao reconhecer que, dentro do capitalismo, não há nenhuma alternativa duradoura. Seria uma campanha com o dever de formular questões concretas e cotidianas, mostrando que o horizonte societal capaz de realizar plenamente as lutas cotidianas partiria de um movimento social e político de grande envergadura, que pudesse iniciar um combate mais ousado à forma de dominação burguesa no Brasil. Esses três partidos teriam condição de elaborar uma plataforma mínima de unidade.

 

Claro que existem diferenças entre eles. O PCB tem uma longa história, que começou em 1922; o PSTU nasceu de uma dissensão do PT nos anos 90; o PSOL, mais novo, também tem suas tensões e polêmicas internas acentuadas. Todos têm suas identidades, mas há pontos de confluência, e se fomos capazes de uma ação unitária em 2006, o que de lá pra cá piorou que impeça a repetição dessa ação? O PSOL, em certo sentido, ainda que o momento seja mais difícil, avançou claramente com uma candidatura de esquerda, o que não havia em 2006, como todos nós sabemos.

 

Correio da Cidadania: Está em curso um grave retrocesso, portanto, diante da quase certeza de que tal frente de esquerda não será formada?

 

Ricardo Antunes: Sim. Como hoje temos três candidaturas pequenas, a mídia sequer as leva em consideração. Imagine o seguinte: uma frente envolvendo os três partidos e mais uma parcela importante dos movimentos sociais, como a Conlutas, a Intersindical, o MST, sindicatos importantes, movimentos populares que existem às centenas e milhares, como os atingidos por barragens, sem teto e várias expressões localizadas que se sensibilizariam com uma proposta crítica como a nossa (que nunca venderia o milagre da felicidade geral a partir das eleições, quando a população sabe que não é o processo eleitoral que muda as estruturas do país). Seria algo muito mais complexo, e os últimos oito anos foram exemplares.

 

Lula foi eleito em 2002 com 53 milhões de votos, numa eleição popular e com forte apoio de massa, e nenhum pilar da tragédia brasileira foi sequer levemente tocado. O governo Lula não tocou em nenhum dos elementos que estruturam a tragédia brasileira! A única coisa que fez de diferente do Fernando Henrique foi ampliar quantitativamente a política assistencialista. O Bolsa Escola atingia 2 milhões de famílias e o Bolsa Família atinge 12 milhões de famílias, chegando a 50, 60 milhões de brasileiros.

 

Essa ampliação quantitativa fez a diferença, pois essa é a população mais empobrecida, não a mais organizada. Para essa parcela, o Lula é mais generoso, e não estão errados de pensar assim. Com o Lula, existe uma diferença de 100 reais por mês que permite comer melhor ao longo dos dias, o que é verdade.

 

Só que essa população, acrescida a outros 40, 50 milhões que são a classe trabalhadora organizada, pode vir a impulsionar outro tipo de política, de base, fundada em posturas mais profundas e radicais, tocando as raízes de nossas mazelas, as engrenagens causadoras da tragédia social brasileira.

 

Correio da Cidadania: E Marina Silva? Conseguirá preencher um suposto papel de ‘terceira via’ em uma eleição tão polarizada, arejando, ainda que minimamente, o debate?

 

Ricardo Antunes: A alternativa da Marina Silva não tem nem de longe a possibilidade de fazer isso. Embora seja uma mulher batalhadora que rompeu os grilhões que amarram parte importante das lideranças populares, nos últimos anos, especialmente no Ministério do Meio Ambiente no governo Lula, ela deixou claro que fez as concessões que precisava fazer. A mais grave, a meu entender, foi logo no começo, ao liberar os transgênicos. Se fosse coerente com seu passado, diria a Lula que não podia mais ficar ali. Mas, lamentavelmente, ela já estava numa rota que saía de uma análise ambientalista com inclinação à esquerda para entrar em uma análise ambientalista de inclinação centrista.

 

A escolha do presidente da Natura para seu vice, expressão típica do capitalismo em sua versão mais forte no Brasil, mostra que a crítica ambiental da Marina está dentro da ordem, é a crítica capitalista da questão ambiental. Dela, não podemos esperar nenhum contraponto à polarização Serra-Dilma. Tanto é assim que sua proposta ambientalista é tímida, e vive flertando com o PSDB para, eventualmente, tirar proveito de uma parceria, sem nunca ter de fato rompido com o governo Lula.

 

Ouvi uma entrevista dela na CBN. Quando faz críticas, faz ao PT e ao PSDB. Quando faz elogios, faz ao PT e ao PSDB. É como se dissesse que pode vir a depender de um dos dois mais adiante.

 

O desafio, portanto, é saber como fazer um contraponto, o que é muito difícil nesse processo eleitoral polarizado entre duas candidaturas da ordem, com uma terceira também da ordem.

 

Correio da Cidadania: Com este destino plebiscitário que parece estar realmente reservado a essa eleição, o que se pode esperar das disputas entre Serra e Dilma? Acredita que teremos apenas um turno, especialmente após a divulgação de diversas pesquisas, entre elas o Datafolha, dando conta da ascensão de Dilma?

 

Ricardo Antunes: Por ora, qualquer coisa é prematura. Primeiro, porque ainda não sabemos da capacidade da Dilma em herdar os votos do Lula e deste em transmiti-los plenamente a Dilma. Agora, ambos oscilam entre 35 e 40 por cento.

 

Mas quando começarem os debates públicos, televisivos, veremos o quadro eleitoral mudar, e pode mudar pra qualquer direção. A Dilma pode subir mais ou o Serra pode recuperar parte do que perdeu.

 

E por que pode mudar? A Dilma, por exemplo, não tem experiência nenhuma em campanha eleitoral, nunca foi candidata a nada. E quando estiver no debate, não poderá pedir para o Lula sentar do lado dela e ficar com ele a tiracolo. Aí o debate começa. O Serra, por sua vez, se tem seu nome amplamente conhecido, é um candidato limitado. A população sabe que ele é do PSDB; sabe que o PSDB é um partido de elite; sabe que as elites brasileiros são nocivas, egoístas, num certo sentido até professam uma concepção anti-popular em seus traços mais elementares.

 

Mas é evidente que o cenário eleitoral está em seus princípios. Quem será o vice do Serra? Se for alguém do DEM, mais corretamente Demo, é claro que sua candidatura será jogada mais pra baixo. Se conseguir o Aécio Neves na chapa, o que não acredito, terá um colégio eleitoral importante pra decidir, o de Minas Gerais, seja pró-Dilma ou pró-Serra. Claro que, olhando hoje, o cenário é mais favorável a Dilma, que vem num ciclo de ascensão, enquanto Serra se encontra num ciclo de descenso.

 

Quando começar a campanha, se os partidos de esquerda tiverem competência para mostrar que Dilma e Serra são duas faces da mesma moeda, com diferenças de pequeníssima monta, podem mudar um pouco o quadro. E a própria Marina saberá tirar suas lascas dessa disputa. Ela ainda está com uma campanha pequena e já tem12%; com a televisão, vai tentar explorar esses espaços.

 

Em suma, a campanha eleitoral por enquanto está em seus prolegomenos. A coisa vai esquentar mesmo a partir do debate público televisivo, quando o eleitorado poderá perceber as diferenças. E isso nos leva ao pensamento de como seria importante se conseguíssemos chegar a uma chapa com os três grupos de esquerda, ampliando o máximo possível nossa base de massa popular, de modo a nos dar uma densidade maior nesse processo eleitoral.

 

Correio da Cidadania: Apesar dessa mencionada desarticulação das massas, da falta de ligação entre a esquerda e as massas, enfim, todo um quadro de apatia, projetos de iniciativa popular como o Ficha Limpa mostram que a população está muito insatisfeita com a política e, de alguma forma, expressa tal sentimento - enquanto mais uma vez engavetamos uma autêntica reforma política no país. O que pensa dessa iniciativa?

 

Ricardo Antunes: O projeto Ficha Limpa é legítimo, porque o nível de corrupção do Estado e do parlamento brasileiros, da "classe política", é tamanho que a população manifesta seu repúdio.

 

Mas o projeto é policlassista, atinge indivíduos de várias classes sociais. Além de políticas desse tipo, que no plano genérico são positivas, precisamos de políticas de forte perfil classista.

 

Temos no cenário de hoje duas concepções políticas: uma é a tradicional, dos grandes partidos de sempre, com a política do ‘é dando que se recebe’. Podemos imaginar quantas estatais e ministérios entraram na roda para que o PT angariasse o apoio do PMDB; o que o PT deu ao PMDB para ter seu vice, a razão desconhece. É o ‘é dando que se recebe’. O PSDB é a mesma coisa. Para que tire o PP (do Maluf!) do PT, é na mesma base. Essa é a política tradicional.

 

E existe um outro pólo, oposto, uma concepção legítima, compreensível, que é a anti-política, com aquele pensamento de que política é podre, não adianta, é o espaço da traição e da manobra. É mais ou menos como o senso comum popular vê o parlamento brasileiro, como espaço da corrupção mais deslavada, onde as ‘personas’ traficam seus interesses à vontade.

 

Nosso desafio é reconstituir, ou mesmo criar, uma política radical, que não seja nem a primeira, longe dela, nem uma anti-política, que acaba travada numa questão fundamental: a de discutir os caminhos políticos alternativos e radicais contra a ordem. E isso, no meu entender, passa pela organização popular; depois, pelas conseqüências político-eleitorais, que só existem quando há base social impulsionando.

 

Correio da Cidadania: Acredita, nesse sentido, ser possível uma radicalização do sentimento de que nossa democracia precisa de mudanças drásticas ou estamos anestesiados com a idéia de Brasil emergente, elogiado exatamente pelas mesmas instituições responsáveis pela última crise do capital?

 

Ricardo Antunes: O governo Lula, claramente, conseguiu no seu segundo mandato desenhar o seguinte esquema: primeiro, ele é o homem da conciliação nacional, o Getúlio Vargas redivivo. Aquele era o estancieiro dos pampas; esse é o político de origem metalúrgica.

 

Porém, o Lula tem uma política de conciliação de classes na qual ele é um semi-bonaparte, não no sentido ditatorial, mas no sentido de ser o melhor gendarme que os capitais poderiam ter. Os bancos, a grande indústria de siderurgia, metalurgia, petroquímica, automobilística, ganharam muito. Como ele mesmo diz, nunca os ricos, os bancos, ganharam tanto dinheiro na história desse país, certo?

 

Por outro lado, em função de seu desgaste no primeiro mandato, especialmente na classe trabalhadora organizada, o Lula migrou sua base social para as camadas populares mais desorganizadas, aquelas que recebem Bolsa Família. O PT perdeu muita base, mas a recuperou em parte.

 

Porém, existem muitos setores populares, movimentos sociais contra as barragens, Belo Monte, transposição do São Francisco, que são importantes. Portanto, há resistência e oposição importantes no movimento popular. Talvez a campanha eleitoral pudesse ajudar em alguns pontos do programa alternativo e anticapitalista, juntando um pouco dessas inúmeras forças moleculares de oposição social, que ainda estão bastante carentes de organicidade entre elas.

 

Isso seria muito importante: juntar alguns pontos, de modo a iniciar um processo de reposição de uma organicidade entre as lutas sociais, sindicais, políticas e populares pelas bases, que estão moleculares hoje, mas que sabem que o governo Lula foi uma tragédia. Diferente de FHC, mas uma tragédia.

 

Em qualquer debate nas militâncias, na direção do MST, por exemplo, a polarização é alta, tanto que não definiu apoio nenhum. Algum dirigente pode apoiar, mas de forma contida, pois há um grande descontentamento. Nos movimentos sociais, sindicatos que não se institucionalizaram, nem se apelegaram, que não vivem o neoestatismo e essa nova forma de servidão, há descontentamento.

 

Mas é evidente que um presidente que governa para os ricos e fala para os pobres faz sucesso. Essa é a alquimia do Lula. E mais: quando fala aos pobres, seu linguajar é um; quando se dirige às classes dominantes, põe a gravatinha, vai com o discurso escrito e sofistica a fala.

 

É um governo que pratica a polissemia discursiva. Para cada público uma fala, de modo que se mantenha a conciliação nacional entre todos. É a força do governo Lula, mas é também sua tragédia para a esquerda e movimentos populares.

 

Nas próximas décadas, quando se fizerem balanços do governo Lula, perceberemos a monumental oportunidade perdida de se começar a destruir a tragédia brasileira. Oito anos se foram e nenhum ponto estrutural da tragédia nacional foi levemente tocado. Em certo sentido, alguns pontos se deterioraram. Basta lembrar que os "heróis" do agrobusiness saíram fortalecidos. Os bancos também. E a grande indústria pesada também.

 

Correio da Cidadania: Em vista do cenário eleitoral que se anuncia, com a provável vitória de Dilma ou Serra, qual seria, de todo modo, menos desastroso para o país, especialmente para a classe trabalhadora?

 

Ricardo Antunes: Eu não trabalho com essa hipótese agora. Eu diria que Serra e Dilma são ambos nefastos. Serra é mais privatista. Dilma é mais controladora dos movimentos sociais e populares. Serra voltará com algumas políticas mais elitistas e privatistas e nos incentivará à reorganização do campo popular contra as políticas de tipo neoliberal travestidas de social-liberalismo. A Dilma terá um governo como o de Lula, sem a revisão de nenhuma privatização. Aqui e ali haverá um sinal intervencionista, coisa que o Serra também tem.

 

É difícil saber quem é mais generoso com o capital financeiro. O próprio presidente do Banco Central, ex-presidente mundial do Bank Boston, é cogitado pra continuar! Claro, pois, para os capitais globais, ele é o cara. O Lula é a figura, mas o cara é o Meirelles, pra brincar com aquela frase do Obama.

 

Nesse momento, temos de trabalhar com outra alternativa: como impedir que a eleição deste ano seja uma norte-americanização do processo eleitoral brasileiro. Só pela esquerda pode ser jogado um pouco de areia nesse processo. Depois, em função do que colhermos nos primeiros momentos eleitorais, veremos que avaliação devemos fazer.

 

O meu sentimento é de que, neste processo eleitoral, onde a norte-americanização pode sair vitoriosa, não vejo mudanças substanciais nem de longe.

 

Portanto, temos agora de trabalhar com a hipótese de jogar areia nessa engrenagem. É uma corrida de rolimã, e, em vez de graxa, temos de pôr areia nesses carrinhos. Se fizermos isso, já será um bom começo.

 

Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista.

 

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Última atualização em Terça, 15 de Junho de 2010
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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