A Pensão da Dona Loló

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Ah, o mundo sempre foi/ Um circo sem igual
Onde todos representam/ Bem ou mal
Onde a farsa de um palhaço/ É natural...

 

Sonhos de um palhaço (Antonio Marcos/ Sérgio Sá).

 

Existiu no início dos anos de 1980, no bairro da Bela Vista, capital de São Paulo, uma distinta mulher, cinqüentona corpulenta, tipo polaca, cabelos desalinhados, que se dizia "viúva de comunista", deslumbrada com a eclosão de lutas sociais pela "nova esquerda". E quando se falava em PT e CUT ainda, ela era olhos receptivos de entusiasmo só. Sobrevivia de pensão do falecido e, aparentemente, não tinha filhos. Orgulhava-se de não ter de pagar aluguel, pois possuía bem imóvel.

 

Dona de uma casa de cômodos grandes e arejados, sobretudo a cozinha bem-equipada, e com sanitários amplos, amava recepcionar "militantes socialistas". Generosa e de visão romântica da transformação social por organizações populares e sindicais em curso, costumava oferecer "de grátis" refeições reforçadas àqueles(as) que se identificavam por "companheiro(a)". Assim, nos horários de almoço e de jantar, observava-se movimentação crescente naquela casa, quase sempre sem contrapartida alguma pelos que ali se fartavam ‘do bom e do melhor’.

 

Os freqüentadores "socialistas", nas esquinas das ruas ao entorno do Teatro Municipal de São Paulo (onde havia uma barraquinha de produtos promocionais do PT), se incumbiam de alardear aos ares: "Quem quiser pegar um rango esperto com direito a soneca num sofá, sem desembolsar um níquel, é só ir à Pensão da Dona Loló". "A senha de acesso à boca livre é afixar um botom com a estrela do PT na camiseta vermelha ou usar boné do partido, e se anunciar num grito de guerra Pátria livre! Salve a Classe Trabalhadora!". "Quem souber assobiar a Internacional (hino) então, será bem-vindo lá". "E... pronto! Estará o companheiro de estômago forrado, cafezinho quente, à vista de boa televisão; como manda o trato da Revolução".

 

Ressalta-se que os ingratos aproveitadores daquela casa, em sua maioria rudes, mal-educados, de pouca formação política, boquirrotos e errantes, de vida dolce far niente (agradável ociosidade), sequer ajudavam na lavação dos utensílios de cozinha, não davam descarga no sanitário, jogavam papéis sujos e guimbas pelo chão... E exigiam "porteira aberta", sem tranca à chave, num entra-e-sai como que casa de mãe Joana. E quando utilizavam a sala de visitas daquele imóvel, sob o pretexto de "reuniões de encaminhamento" - leia-se ‘repone’ -, geralmente até altas horas da noite, quando saíam, o ambiente era desolador: cheiro de cigarro, desarrumação dos móveis e sujeira por todo canto. Até as canecas de café por lavar largavam sobre os parapeitos da casa.

 

Contudo, como era de se esperar, sem receita para as despesas de alimentação, energia elétrica, água e limpeza, aquela "revolucionária de coração" foi à decadência. Por conseguinte, aos montes e de fininho, sumiram todos os "socialistas", ignorando a existência da Pensão da Dona Loló. Tempos depois, por bocas miúdas, soube-se que aquela hospitaleira senhora havia passado dessa para a melhor; em cujo enterro não deram o ar da graça os que juraram honrar a luta dos explorados e oprimidos. Para muitos desses velhacos, o rumo foi... "saída pela Direita".

 

Julio Cesar de Castro, Belo Horizonte/MG.

 

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Comentários   

0 #5 A Vida Imita a ArteRaymundo Araujo Filho 25-05-2010 15:51
É motivo de orgulho ter, já há algum tempo, passado a compartilhar uma amizade internética com o poeta, sábio, politizado e "carne de pescoço" Julio de Castro.

Evoé!

Quantas Donas Lolós o PT deixou para trás, na sua incansável corrida às benesses do Poder exercido para benefícios partidariamente endógenos e exonerativos de nossas riquezas e dignidades.

Cito a viúva e familiares do prefeito de Santo André Celso Daniel, a viúva e familiares do prefeito de Campinas Toninho do PT, os dois barbaramente assassinados por motivos políticos, e não por cruimes comuns como a polícia tucana e seus aliados petistas querem que creiamos.

Poderia eu citar tantos que foram postos de lados na nova configuração do PT. E é certo que muitos preferiram migalhas dadas como recompensa pelo ostracismo a que foram relegados. Não vou citá-los porque teria de omitir muita gente por falta de espaço.

Julio de Castro nos remete ao que pretendeu-se um dia, elegendo Lulla no bojo de um discurso de profundas reformas e de um mínimo de ética no Poder, e com uma base popular mobilizada e que foi sumanmente manipulada e derrotada.
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0 #4 Pensão da dona LolóMari 25-05-2010 14:15
Essa pensão deve ter sido muito boa,pena q foi ficção.
Poeta é Poeta.
Tem uma imaginação!!!!
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0 #3 memóriaJosé Barrios 24-05-2010 16:49
Companheiro Castro. Bom artigo. Isso que você escreve é também memória popular. Adiante
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0 #2 A pensãoBARBARA RAMOS 24-05-2010 06:54
Caro poeta, li esse texto, achei interessante, bem, como você diz parece ter consonancia em algum espaço de convivencia de outras pessoas


Abraços,
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0 #1 LembrançasJose Laercio Scatimburgo 23-05-2010 11:57
Parabens pelo excelente artigo. Tão saudoso e verdadeiro.
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