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‘Algoritmo da Ganância’ das Petroleiras impõe desastre e destruição Imprimir E-mail
Escrito por José Carlos Moutinho   
Qui, 20 de Maio de 2010
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Pelos dicionários, algoritmo é um conjunto de execuções (calculadas) para o cumprimento de tarefas específicas ou resolução de determinados problemas. Os profissionais em Tecnologia da Informação (TI) têm muita familiaridade com o tema. Eles sabem que, para a existência e sucesso de determinado sistema, há que se definir cuidadosamente o algoritmo. Uma vez definido, o sistema poderá evitar perda de tempo e insucessos na execução quotidiana. Bons sistemas devem levar em conta (e respeitar) o ser humano e o meio ambiente.

 

No caso do derramamento de petróleo no Golfo do México, no dia 20/04/2010, na costa do estado de Luisiana (EUA), no qual estão envolvidas a BP (British Petroleum) e a Halliburton, a exemplo de outros desastres envolvendo multinacionais (as "Big Oil"), parece haver somente um algoritmo em execução: o aceleramento da exploração de petróleo em prol da maximização de lucros, acrescido de mais ganância, ao menor custo.

 

O lucro máximo (e imediato) deve preceder sobre os interesses do ser humano e do meio ambiente. É a lógica das corporações mundo afora. E mais: resistem a pagar a conta de tais agressões e tentam esconder o problema "debaixo do tapete", pois não se pode manchar a imagem da empresa. Manchar o mar, matar trabalhadores e destruir a fauna e a flora, vá lá. Mas manchar a imagem da empresa...

 

Os desastres são numerosos. Até hoje as empresas e as autoridades governamentais parecem não saber como evitá-los e lidar com eles em tempo hábil. Praticamente todos os desastres são considerados os maiores da história, o novo supera o velho. E os responsáveis não estão conseguindo aprender com eles, por isto não estão dotados de um conjunto de mecanismos para vencê-los. O desastre no Alasca, em 1989, de autoria da Exxon, poderá ser superado pelo desastre da BP, no Golfo do México.

 

A mancha na imagem das "Big Oil"

 

A imagem das corporações é tratada com carinho pelos meios de comunicação hegemônicos. Salta aos olhos, por exemplo, o fato de a imprensa brasileira não ter citado (se citou não deu para ver) a participação da multinacional Halliburton no derramamento de petróleo. A empresa do ex-vice-presidente dos EUA Dick Cheney é reincidente em desastres e negócios escusos. Lembremos que, no mundo, essa multinacional esteve (e está) envolvida em diversos sinistros, entre eles a ocupação do Iraque.

 

No Brasil, a Halliburton foi responsabilizada pelo desaparecimento dos computadores portáteis com informações estratégicas da Petrobrás. E mais: a Halliburton presta serviços (sem concorrência) para a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), conforme denúncia da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET), baseada em informações cedidas por fontes importantes do setor petrolífero brasileiro.

 

A agência independente de notícias estadunidense "Democracy Now!", no dia 28/04/10, confirmou que a Halliburton é uma das responsáveis pelo desastre no Golfo do México, que resultou em perda de vidas humanas e gravíssima agressão ao meio ambiente.

 

O portal venezuelano Aporrea noticiou, no dia 04/05, que a BP reconheceu que deu "um passo em falso" ao incluir nos contratos oferecidos aos pescadores do Alabama (EUA), para que ajudem na luta contra a mancha de óleo, uma cláusula na qual estes trabalhadores se comprometeriam em não denunciar posteriormente a petroleira. "Foi um passo em falso que demos em princípio", declarou o diretor geral da BP, Tony Hayward, durante uma entrevista coletiva no Alabama. A BP chegou a oferecer US$ 5 mil para não ser denunciada. Pronto, mais uma vez, lá se vai a imagem tão retocada e preservada das "Big Oil".

 

Logo na semana seguinte ao desastre, a mancha de óleo tinha aumentado e cobria mais 4.900 quilômetros quadrados do Golfo do México, devido à perda de 42.000 barris de petróleo por dia, e nenhuma medida eficaz foi tomada para conter o desastre. A Guarda Costeira dos EUA e o pessoal contratado pela BP seguem lutando para conter a mancha que se espalha.

 

Familiares de onze trabalhadores desaparecidos entraram na Justiça para responsabilizar a BP e a Halliburton por negligência na administração da plataforma "Deepwater Horizon". A Halliburton realizou trabalhos no referido poço petrolífero, antes da explosão.

 

A jornalista estadunidense da Democracy Now!, Amy Goodman, afirmou que a BP, depois de quase duas semanas, chegou a uma idéia para minorar seu crime ambiental, ao projetar uma pesada estrutura (de metal e concreto) em forma de sino para ser posta sobre o poço, mas fracassou neste intento.

 

Goodman informou ainda que já estão aparecendo várias aves e águas-vivas mortas nas ilhas que cercam a costa da Luisiana, o que tem aumentado em muito a contaminação daquelas águas. A vida silvestre, segundo especialistas em meio ambiente, está com sérias ameaças de contaminação química no longo prazo.

 

A jornalista destacou também que a analista do setor de petróleo, Antonia Juhasz, chamou a atenção sobre o poderio econômico e político da BP nos EUA. Segundo Juahsz, a BP é uma das mais poderosas multinacionais que operam no país. Em 2009, por exemplo, a empresa lucrou US$ 327 bilhões. No primeiro trimestre de 2010, a BP faturou mais de US$ 6 bilhões. O dobro dos lucros obtidos no mesmo período de 2009.

 

Segundo declarou a analista, a BP gasta muito dinheiro na política interna norte-americana, bem como na supervisão do cumprimento das normas do setor. Ou seja, é a raposa ditando as leis no galinheiro. Esta empresa muito ocupada com o seu lucro, a exemplo da Halliburton e outras "Big Oil", segue subtraindo vidas humanas, o meio ambiente e a própria democracia nos EUA. Não bastando, é incompetente e lenta na solução de seus crimes ambientais.

 

Os grandes faturamentos são acompanhados de grandes desastres. Em 2005, uma refinaria da BP, no Texas, explodiu, matou 15 trabalhadores e feriu outros 170. Em 2006, no Alasca, a BP derramou 200 mil barris de petróleo que, segundo a Agência de Proteção Ambiental, foi o maior derramamento que ocorreu naquela região. A empresa foi multada em US$ 60 milhões. Em 2009, foi multada em US$ 87 milhões pela explosão da refinaria.

 

Não bastando, a explosão da plataforma da BP no Golfo do México, o Serviço de Administração de Minerais, do Departamento do Interior, aprovou 27 novas permissões para perfurações em alto mar. A notícia é da Democracy Now!

 

A experiência brasileira

 

O diretor do Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro (Sindipetro-RJ), Emanuel Cancella, avalia que as petrolíferas multinacionais "praticam a produção predatória, principalmente quando estão fora de seus países de origem. A orientação do Império é da produção a toque de caixa, até porque os EUA só possuem reservas de petróleo para três anos de consumo. E a situação fica mais grave quando estão operando em país pobre, como acontece no México".

 

Sobre o fracasso da BP em conter a mancha de óleo, Cancella acredita que a solução virá. "Não na velocidade que a preservação do meio ambiente exige. Eles poderiam pedir ajuda à Petrobrás, que é reconhecida mundialmente pela prospecção de petróleo no mar".

 

Sobre as perdas de vidas humanas e agressão ao meio ambiente, o diretor do Sindipetro-RJ lembrou do afundamento da Plataforma P-36, no Brasil. "O desastre da P-36 aconteceu no governo FHC. As viúvas dos onze petroleiros foram proibidas de entrar na sede da companhia. Quando Lula assumiu o governo, autorizou o então presidente da Petrobrás, José Eduardo Dutra, a receber as viúvas e propôs um acordo indenizatório que incluiu até formação universitária dos filhos dos petroleiros mortos na plataforma".

 

Autoridades brasileiras disseram que o país não tem um conjunto de procedimentos para lidar com situações como a do Golfo do México. O geofísico e diretor da AEPET (Associação dos Engenheiros da Petrobrás), João Victor Campos, lembra que o Brasil teve a experiência com a P-36, "mas não aprendemos". "A sorte nossa foi que o vazamento foi mínimo, ao contrário deste no Golfo do México. É irresponsável, com o atual número de plataformas em operação em diversas áreas da costa brasileira, não termos medidas de enfrentamento para situações semelhantes".

 

João Victor explica que o desastre da BP "ocorreu em função da explosão de um bolsão de gás (metano, provavelmente) próximo à superfície, no caso no próprio assoalho oceânico. Estas ocorrências de bolsões de gás não são raras, têm sido registrados diversos casos na superfície. O inusitado é que este se deu no fundo do mar".

 

O geofísico acrescenta que existe válvula que detecta pressões anômalas no poço, blow-out preventer, cuja indicação é mostrada na plataforma da sonda por um grande "relógio" chamado "Martin Decker". "Como se tratou de explosão súbita e inesperada, como só acontece no caso dos bolsões de gás, não houve tempo para detectar a anomalia".

 

Ou seja, ao que tudo indica, teriam como evitar o pior. Mas a lógica da produção acelerada, para acompanhar as negociações na bolsa, impede um trabalha de qualidade, pois a ganância prevalece no algoritmo dessas multinacionais.

 

Em suma, o desastre da BP demonstra a assimetria entre a economia virtual e a vida real, ao tentar acelerar a produção na vã ilusão de acompanhar o ritmo dos algoritmos computacionais nas bolsas de valores, que operam um volume massivo de tarefas quotidianas em milissegundos. E não é só a BP. Praticamente todas as petroleiras mundo afora tentam acelerar suas atividades de extração a uma velocidade que agride a humanidade e o meio ambiente. Essa é a lógica imposta pelo modelo neoliberal, que precisa ser sepultada, se não, mais desastres virão.

 

No fechamento desse artigo, surgiu o afundamento da plataforma marítima de gás Aban Pearl, na costa do estado venezuelano de Sucre, no último dia 13/05. Conforme noticiou a Agência Bolivariana de Notícias (14/05), no acidente, os mecanismos de segurança foram acionados, fazendo com que a plataforma se desconectasse do poço Dragón 6 em tempo hábil. Os 95 trabalhadores foram evacuados a tempo, sem nenhum ferimento. Lembramos que a Venezuela tem sofrido diversos ataques, comandados pelos EUA, por ter abandonado o neoliberalismo e propor o socialismo do século 21. Tal fato confirma que o algoritmo do capitalismo selvagem realmente caducou.

 

José Carlos Moutinho é jornalista.

 

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Última atualização em Sexta, 28 de Maio de 2010
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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