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O ciberativismo e o deserto do real Imprimir E-mail
Escrito por Lucio Carvalho   
Sexta, 14 de Maio de 2010
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Tenho um problema em minha vida. Todos têm, com maior ou menor gravidade, em maior ou menor número. Alguns problemas de algumas pessoas chegam a durar uma vida inteira e passam, mesmo assim, insolúveis. Problemas podem mesmo dar causa ao fim de muitas vidas. Podem mudar seu rumo. Podem tirar do rumo uma vida que parecia ter tido desde sempre e para sempre um destino certo. Um problema pode ser um tipo de fatalidade, mas também pode ser previsível. Imprevisível é maneira como as pessoas tratam dos problemas. Os seus e os dos outros. Em seu tempo, o Barão de Itararé diria que o "mal alheio pesa como um cabelo", mas no tempo presente, nos dias de hoje, no modo de vida contemporâneo (escrevo a 12 de maio de 2010, 10 horas da noite), inventou-se um modo prático de exorcismo dos problemas alheios: chama-se "ciberativismo".

 

Trinta anos antes de morrer, ainda em 1978, o francês Jean Baudrillard anunciava o fim do social e a sobrevivência passiva das massas, as multidões, a maioria silenciosa. O ciberativismo é como o corolário do fatalismo denunciado por Baudrillard e, apesar, da interconectividade rondar cada impulso elétrico do planeta, cada bit emitido e recebido, ela não chega a romper o silêncio do real, o silêncio do deserto do real.

 

Não que o ciberativismo vá, por seu próprio instrumento, provocar a derrocada do movimento social feito na sola do sapato, mas ele traz consigo a mesma sina da democracia representativa, ou seja, o fim da necessidade do diálogo social, da contraposição, da denúncia, do debate, do embate, da dúvida. É como a sacralização da representação política através de um único motor: simplesmente a razão do indivíduo.

 

Esse é o ponto, aliás, que responde bem às expectativas contemporâneas: os dilemas sociais resolvidos num mero exame de consciência. Os efeitos, as conseqüências dos problemas, soam como nomes remotos de coisas que acontecem aos outros. Miséria? Sim. Dá-se um clique contra a miséria.

 

Na fantasia proposta, o problema passa a estar nas mãos de quem os pode resolver. Fome? Um horror. Dá-se um clique contra a fome, mas um bilhão de pessoas continua a sem ter o que comer e o clique, o fabuloso clique, não converteu sequer um centavo em favor destas pessoas. E o seu problema continua lá. Lá dentro. Na barriga delas.

 

Não é estranha a adesão dos indivíduos a estes instrumentos da impessoalidade que a internet propiciou. As causas pelas quais se procuram adesão através das e-petitions (petições eletrônicas) são mesmo nobres e não se nega a importância de que as pessoas criem canais de manifestação que, de outra forma, estariam fechados e circunscritos aos interlocutores privilegiados da burocracia inerente ao sistema de representação.

 

O que está em questão não é uma disputa ideológica, mas a extensão do instrumento enquanto potência criadora de interesses e o que é feito dessa energia. O que está em questão é que o instrumento em si mesmo não significa a expressão do sentimento individual ou coletivo, mas uma amarração em torno de uma idéia representada virtualmente, um tipo de intenção delegada com efeito demonstrativo. Demonstrada a simpatia ou antipatia por uma idéia, a adesão ou condenação de um gesto ou ato político, então, o que vem a seguir?

 

A falta de respostas, a replicação e manutenção dos problemas: este é o nosso deserto do real. Muito em breve talvez a ciberparticipação seja a forma exclusiva de manifestação cívica. Talvez faça parte da televisão interativa, que deveria acompanhar a televisão digital. Talvez os orçamentos públicos sejam decididos como se decide o Big Brother, por telefone, talvez o voto deixe de ser obrigatório, o fato é que nada disso garante a operacionalização concreta do real no real, que sempre dependerá de que alguém imprima um gesto e altere o gesto de outra(s) pessoa(s). Talvez isso pudesse garantir que os problemas de todas as pessoas fossem resolvidos. Na pior das hipóteses, que pudessem ser redimensionados, re-equacionados. Mas a dimensão fantástica da experiência virtual impõe uma película revestindo o real, o intocável real.

 

O ciberativismo não é um novo movimento social, mas é um novo movimento de massas. Talvez possa ser o único instrumento aceitável numa sociedade de indivíduos cada vez mais enclausurados nos seus instrumentos de conexão, seus computadores, telefones e dispositivos. Campanhas virtuais estão mobilizando cada vez mais as pessoas a pensar e a clicar. O desafio agora está em ir além do clique, além da decisão do clique, além da intenção. Um clique não é uma procuração de interlocução social. O indivíduo não pode se abster da sua vontade política, mesmo que seja para exercer a passividade e pregar o ceticismo mais completo.

 

Quando um organismo como a FAO propõe como ação uma petição on-line para pressionar os governos a erradicar a fome (ver em http://www.1billionhungry.org/), é de pensar se seu objetivo é simplesmente mobilizar as pessoas a dar um clique e nada mais ou se efetivamente há alguma expectativa concreta de que os governos sintam-se pressionados por esse tipo de iniciativa e que, por conta disso, resolvam solucionar o problema da fome em definitivo.

 

Betinho, o irmão do Henfil, foi a pessoa que mais lutou contra a fome no Brasil e no seu documento de fundação da ‘Ação da cidadania contra a fome, a miséria e pela vida’, a primeira grande rede de pessoas e instituições que se reuniu em torno de um objetivo no Brasil pós-ditadura, disse que "quando uma sociedade deixa matar crianças é porque começou seu suicídio como sociedade".

 

O que é preciso pensar nesse momento é se o ciberativismo e sua rede de cliques sem face têm alguma proposta para conter esse suicídio, pois ele já se encontra em curso. Caso contrário estamos ainda falando do mesmo deserto do real. E nele tudo segue igual: nem sequer a chuva chove mais no molhado. Se estiver vendo alguma coisa leve em consideração a possibilidade de ser um holograma ou uma miragem.

 

Lúcio Carvalho é coordenador da revista Inclusive: inclusão e cidadania (http://www.inclusive.org.br/) e autor de Morphopolis (http://www.morphopolis.wordpress.com/).

 

 

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