A crise nas idéias

 

A síndrome do manual e a crise nas idéias parecem andar juntas, não só em terras brasileiras, mas também em outras partes do mundo. Basta ver como alguns analisam a evolução histórica após a grande hecatombe da segunda guerra mundial.

 

Segundo eles, a descolonização e a Declaração dos Direitos do Homem teriam dado alento à periferia do mundo, com a possibilidade das Nações Unidas afastarem os fantasmas da guerra, da fome, das doenças e estabelecerem o processo civilizatório em todo o mundo. Porém, aí teria surgido a Guerra Fria, elevando os gastos militares, dos quais se derivaram os avanços tecnológicos e científicos, que sustentaram da corrida armamentista.

 

Assim, a descolonização, a declaração dos direitos humanos e a ONU aparecem como as fadas boas. Infelizmente, como elas teriam sido atacadas pelas bruxas da guerra fria, isso deu na corrida armamentista que, paradoxalmente, contribuiu para os avanços tecnológicos e científicos. Assim, parecem irrelevantes os fatos de que os Estados Unidos foram os principais promotores da guerra fria e que as lutas pela descolonização já se desenvolviam antes da segunda guerra mundial, tomando vulto durante sua ocorrência e se apresentando como um problema não resolvido pela ONU e sua Declaração de Direitos Humanos.

 

A guerra fria surgiu, em primeiro lugar, do fato de os Estados Unidos terem saído da segunda guerra mundial como uma superpotência. Foi o único país a não sofrer qualquer dano militar em seu solo, podendo se tornar a principal fábrica mundial de fornecimento de armamentos durante o conflito. Surgiu ainda do fato de que, embora as outras duas grandes potências coloniais, Inglaterra e França, resistissem ao máximo a aceitar o fim de seus impérios coloniais, os Estados Unidos, com sua política de livre comércio, aceitavam uma política de descolonização, desde que em termos anti-comunistas.

 

Surgiu, também, do fato de que o final da guerra gerou uma crise de superprodução nos Estados Unidos, e uma das opções para sua superação consistia justamente na corrida armamentista com a União Soviética, assim como na expansão de conflitos militares onde fossem possíveis. Mas os Estados Unidos tiveram que levar em conta que a União Soviética também se transformara numa potência de primeira grandeza, assim como potência nuclear, o que tornava extremamente perigoso uma guerra quente entre as duas e exigia a elaboração de uma nova doutrina de guerra.

 

Finalmente, como um dos principais fatores da guerra fria, as lutas de descolonização se multiplicaram, independentemente da vontade das duas superpotências. Hoje se sabe o quanto a União Soviética se esforçou para evitar uma nova guerra civil na China, em 1946, assim como em diversas outras nações colonizadas, tendo em conta que suas feridas de guerra eram muito maiores do que as conhecidas então.

 

Ela temia ser envolvida em novo conflito mundial, sem estar preparada. Só aceitou os termos da guerra fria após os EUA haverem dado apoio à intervenção inglesa na Grécia e à recolonização da Indochina pelos franceses, além de provocarem a guerra da Coréia, com isso demonstrando efetivamente sua doutrina de guerras de baixa intensidade como a principal forma de disputa para impedir qualquer tentativa de independência nacional, que chamavam de expansão comunista.

 

Nesse contexto, ao contrário do que pensam alguns, era extremamente difícil, no mundo bipolarizado, que países periféricos escapassem de girar em torno de uma das duas potências. Isso mesmo não sendo satélites formais, e desfrutando de alguma condição própria para ensaiar projetos nacionais de desenvolvimento. Embora se saiba hoje que a Iugoslávia não se tornara satélite dos Estados Unidos, e que a Índia, China e Vietnã sempre mantiveram políticas próprias em relação à União Soviética, todos esses países pagaram sua cota de sacrifício nas relações com as duas grandes potências polares.

 

Nesse contexto, tornava-se limitado qualquer sonho dos países do Terceiro Mundo de cobrir a distância entre o grau de desenvolvimento dos países centrais e seu grau historicamente periférico. O Clube de Roma, ao afirmar que a pretensão dos países do Terceiro Mundo de alcançarem os padrões do Primeiro Mundo era inatingível, porque o consumo crescente de recursos não renováveis conduziria a humanidade ao colapso, apenas mascarava o interesse das potências industriais em manter os países pobres como mercado para seus produtos industriais e, também em grande medida, como produtores de matérias primas.

 

Porém, nenhum país do Terceiro Mundo subordinou-se ao que o Clube de Roma disse. Sua submissão era a contingência de serem dependentes dos países industrializados para a transferência de tecnologias e bens de capital. Era este anel de aço, e não o Clube de Roma, seu impeditivo. Do mesmo modo, ninguém deu atenção ao que McNamara afirmou em relação aos perigos de uma III Guerra Mundial, tendo como causa o crescimento demográfico explosivo. A única política de contenção da natalidade que deu certo foi a chinesa, mesmo assim muito depois das previsões de McNamara, e num contexto internacional e nacional bem diferente.

 

Tem gente que ainda não entendeu direito as mudanças desse período histórico. Ainda não se deu conta das implicações da descolonização e da criação de inúmeras novas nações. Acha que as mudanças dentro do capitalismo desenvolvido da superpotência norte-americana, das potências industriais européias e do Japão não mudaram em nada suas formas de agir. Pensa que basta negar o socialismo real para ficar de bem com a vida. Enxerga a globalização e o neoliberalismo como se fossem uma coisa só.

 

Apesar da persistência da atual crise econômica nos países centrais, essas pessoas acham que a superpotência se consolidou em definitivo. Apesar de os gastos militares dessa superpotência gerarem rombos deficitários monstruosos, acham que o fato de ela gastar em armamentos mais do que a soma dos outros nove países que a seguem nas despesas bélicas é uma vantagem imbatível. Apesar das super-empresas das potências industriais, as chamadas transnacionais, estarem transbordando não apenas suas filiais, mas plantas inteiras de fabricação por todo o planeta, não vêem nisso contradição alguma.

 

Apesar de tudo isso e mais uma série de outros aspectos contraditórios, permanecem convictos de que a superpotência domina todo o globo, tanto com o auxílio do dólar, atual indexador de toda a riqueza mundial, quanto de seu sistema financeiro, que se tornou o eixo da vida de todas as nações. Com isso, realmente demonstram que suas idéias estão mesmo em crise.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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Comentários   

0 #3 Descolonizando: o Espírito de CochabambaAntonio Julio de Menezes Neto 16-05-2010 04:56
Concordo, na maior parte, com a análise de Carlos Walter. O paradigma de WP está completamente superado e, deixo claro, tenho muito mais afinidades com as añálises de Carlos Walter do que divergências. Porém, não entendi a sua crítica ao marxismo. A crítica deveria ser direcionada para um tipo falido de marxismo (como o do WP). Pois em Marx, e em diversos marxismos, existe a crítica ao capitalismo e a defesa de uma outra sociedade menos consumista, mais equilibrada, onde o valor de uso supera o valor de troca. Leiam o primeiro capítulo de O Capital e vejam a crítica que Marx faz de uma sociedade submetida à mercadoria.Analiso que existem lutas globais (anticapitalismo) que devem ser feitas à luz de realidades diversas.
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0 #2 Descolonizando: o Espírito de CochabambaCarlos Walter Porto-Gonçalves 12-05-2010 07:27
Tenho acompanhado com atenção os artigos de Wladimir Pomar tendo sempre em mente que representa uma tendência clássica do pensamento de esquerda. Não sem um certo espanto pelo desenvolvimentismo que defende ainda ignorando a rica produção intelectual de pensadores críticos do capitalismo que incorpora, superando, a própria crítica marxista ao capitalismo. E essas análises vão mais além de uma crítica somente intelectual como se pode ver na Cumbre de Cochabamba, onde estiveram presentes 35.000 ativistas/intelectuais de 142 países onde surpreendentemente o Brasil se destacou pela quase-ausência. Toda essa visão que incorpora a crítica marxista ao capitalismo e vai além dela está bem representada nos 17 documentos finais das Mesas de Trabalho ali consensuadas. E uma das questões mais consistentes que ali se destac é exatamente quanto à questão que W. Pomar apresenta neste seu artigo acerca do tema colonial e que, surpreendentemente, não dialoga com esse pensamento crítico, sobretudo com o tema da colonialidade do saber e do poder (Aníbal Quijano, Catherine Walsh, Edgardo Lander, Imannuel Wallerstein, Silvia Rivera Cusicanqui, Arturo Escobar, Norma Giarraca, Carlos Lekensdorf, Josef Estermann, o bolchevique-katarista Álvaro Garcia Linera e tantos outros). Alias, todos esses intelectuais vêm produzindo suas reflexões em íntima relação com a lutas sociais latino-americanas e são solemente ignorados no Brasil, o que talvez nos ajude a entender a riqueza dos processos e dos movimentos sociais de nuestra América muito diferente da situação brasileira. Alías muitos desses movimentos vêm se constituindo contra a Petrobrás, a Camargo Correia, a Oderbrecht, todas financiadas pelo BNDEs com a mais valia social concentrada nesta instiuição que opera como o triste FMI e BM dando suporte aos grandes conglomerados \"nacionais\" para o \"desenvolvimento\" \"brasileiro\". Para esses intelectuais/movimentos, não se trata de lutas nacionais para ser desenvolvido (o que significa que permanecemos nos marcos da colonialidade: enfim, querendo ser igual aos colonizadores), mas bucam o suma qamaña, o suma kausay, o buen vivir até porque o que antes os europeus chamavam colonização passaram depois das lutas anti-coloniais pós-guerra a chamar, junto com o Banco Mundial, colonialmente de desenvolvimento. O que teve de \"missão\" (coisa de missionário) do Banco Mundial visitando a África, a Ásia e a América latina para estudar o desenvolvimento e seu par epistêmico o sub-desenvolvimento, deu emprego a muita gente e o fosso entre ricos e pobres no mundo depoois de 50 anso de desenvolvimento aumentou. Enfim, haverão aqueles que continuarão achando romântico e desqualificando essas lutas que, todavia, foram capazes de levar o primeiro indígena ao poder depois de 513 anos. Evo Morales quando assumiu disse que era preciso descolonizar o estado e, por isso, a Bolívia recusou a idéia de estado-nação e se declarou Estado Plurinacional Comunitário da Bolívia (idéia que, aliás, Florestan Fernandes, simpatizava para o Brasil no que sequer teve interlocutores na esquerda convencional) e também no Equador que também se declarou Estado Plurinacional. Enfim, é preciso descolonizar parte da esquerda que deve passar a olhar menos para a Europa e ver que há um rico pnesamento crítico se gestando a partir das nossas realidades que, sabemos, tem em seu âmago a presença colonial européia tanto por cima (o pensamento liberal, o capitalismo)como por baixo (o pensmaneto marxista, o socialismo). Por isso, não podemos ignorar o pensamento crítico construído sobretudo a partir de grupos/classes subalternas européias (o marxismo, o anarquismo, o socialismo), mas não podemos olvidar que se trata de um pensamento construído numa província do mundo, a Europa, que imperialmente pensa ter um pensamento universal, ou seja, atópico, independentemente do lugar onde foi forjado. Esse pensamento significou para a humanidade um enorme desperdício de experiência humana, pois ao querer colonizar/catequizar/conscient izar o outro não foi capaz de ver o outro como outro e assim nada aprendeu com ele. É essa visão que ignora o mundo na sua diversidade que quer colonizar todos em nome de um progresso idealizado por uns para todos e que está levando toda a humanidade e o planeta aos seus limites. A Whypala, bandeira dos movimentos sociais indígeno-campesino-operário boliviano, nos diz dos novos horizontes ético-politicos: é uma bandeira colorida onde o vermelho consta mas aberto a outras cores. O Espírito de Cochabamba há de recolher a diversidade criativa das lutras sociais em todo o mundo. Esse caminho já se iniciou com as novas teses de abril em Cochabamba.
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0 #1 Neoliberalismo, etapa superior do coloniRaymundo Araujo Filho 11-05-2010 16:21
A crise de idéias ataca outra vez. Na falta do que opor ao capitalismo, alguns resolveram capitular a ele, sob a cédula do "longo caminho para o socialismo" (alguns nem isso).

Assim, encontram na micro articulação periférica de alguns países emergentes, como o Brasil, com outros pares, alguma resposta eficiente (ou "possível", como dizem, mediocrizando o futuro), ao avassalador rolo compressor do capital, com a coisificação das pessoas e a transformação de cidadãos e cidadãs, em meros consumnidores.

Nos EUA, chamam de "free mouth", aqueles que não pagam para comer. São os aposentados, jovens, desempregados e excluídos sociais, cerca de 2/3 da população mundial.

Esquecem-se que uns já contribuíram o suficiente para poderem descansar (abrindo vaga no mercado de trabalho), ou até continuar trabalhando, para conseguirem mais bem estar, já no terço final de suas vidas. Os outros, uns ainda deveriam estar sendo preparados para a vida social e laborativa, e outros até simplesmente amparados, por os considerarmos humanitariamente que são vítimas do sistema imposto, e não quase que natural, como os tenta covencer Wladimir Pomar, a partir de sua base de raciocínio idealista, que nos expõe há muitos artigos (não sem resposta). E não me refiro a alguns indigentes que encontraram na política de oportunidades, o seu meio de ascensão social (conheço muitos que hoje até viajam de avião, às nossas custas)

Assim, acusa o articulista de "sem idéias", aqueles que além de fazerem críticas e reformulações ao que já se produziu de teorias e ações anti capitalistas, não capitularam, como embarcações desnorteadas, aos ditames da burguesia real, isto é, aquela que hoje se encontra visceralmente internacionalizada, com mecanismos compensatórios transcontinentais, com domínios oligopolizados em quase todos os setores da vida das pessoas, como se a população majoritariamente estivesse podendo escolher os seus padrões de consumo, e não sofrendo uma perfeita lavagem cerebral, dando valores exepcionais a verdadeiras quinquilharias tecnológicas, compradas a trocentas prestações mensais, com juros escorchantes, em detrimento de exigirem seus direitos à saúde, educação, segurança, transporte, acesso a cultura como entreterimento com valores concretos (e não só a entreterimento vazio) e salário digno.

Esquece-se Wladimir Pomar que a suposta movimentação de Lulla pelo mundo é incensada e custeada por aqueles donos do capital, que não permitirão que haja no Brasil, o que vemos na Grécia.

É que o Brasil é muito rico, com recursos humanos, naturais e tecnológicos excelentes, e vai pagar com aexoneração destes valores de sua gente, em troca de não sofrerem os ataques radicais do capital, destruindo economias, culturas e a vida das pessoas.

Lulla é eleito o "homem do ano", no mesmo universo em que Bill Clinton é considerado herói pela sua "magnífica" atuação no Haiti, e Lady Gaga um sucesso cultural (e não comercial).

Não entregaria nem um cachorrinho bassé (o cofap) para Wladimir Pomar cuidar. Seria temerário.
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