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Caça a guerrilha paraguaia é véu do interesse dos EUA nas fronteiras do país Imprimir E-mail
Escrito por Diego Ghersi   
Quarta, 05 de Maio de 2010
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Algo está acontecendo no Paraguai, porém, as dúvidas aumentam, sobretudo pelas grandes dificuldades na hora de colher informações confiáveis. Apareceu o Exército do Povo Paraguaio (EPP), grupo ‘guerrilheiro’ auto-declarado "marxista-leninista e guevarista", que estaria atuando em cinco departamentos (estados) do país: Concepción, San Pedro, Amambay, Presidente Hayes e Alto Paraguay.

 

A origem do EPP data de princípios de 2008 e estaria conformada por um núcleo ativo de 20 membros. Diz estar enfrentado com o presidente Fernando Lugo, a quem acusam de não promover a Reforma Agrária, questão que motorizaria seus esforços para destituí-lo, tomar o poder em seu lugar e constituir-se como um governo marxista-leninista. Tudo muito linear, não?

 

Não desmente seus vínculos com as FARC colombianas e nem que seus membros teriam sido treinados em Cuba e Venezuela. São acusados de roubos, seqüestros, atentados e ao menos quatro assassinatos ao longo deste ano. Tudo muito parecido ao discurso linha dura de figuras como Álvaro Uribe, da Colômbia, não?

 

Ao presidente Lugo não lhe faltam problemas: não conta com maioria no Congresso; tem o vice-presidente contra si; é apedrejado pelos meios de comunicação e o Poder Judiciário, por demandas sexuais motivadas durante seu bispado. Além do mais, o EPP atua no território onde ele foi sacerdote e enfrentou o latifúndio. Cenário propício para desestabilização, não?

 

As prefeituras de Concepción, San Pedro, Amambay, Presidente Hayes e Alto Paraguay – onde operaria o EPP – se caracterizam pela concentração de grandes extensões de terras em poucas mãos. Ditas terras foram adquiridas durante os processos ditatoriais de Stroessner em favor de militares de alto coturno do regime. Outras, em regiões fronteiriças, foram compradas por criadores de gado e sojeiros brasileiros, à mercê de leis e decretos violatórios à soberania do país.

 

A região envolvida ocupa grande parte do território do país, com cerca de 800 mil habitantes submetidos à pobreza; abundam as fazendas de gado e as chamadas "zonas liberadas" para cultivos de maconha.

 

Lugo havia proclamado durante sua campanha a necessidade de encarar uma Reforma Agrária integral e como veículo imediato por excelência para combater a desigualdade social do país. Mesmo assim, os avatares de seu mandato marcado por contínuas tentativas destituintes forçaram-no a adiar seus projetos.

 

Neste contexto se produz a sugestiva irrupção do EPP. Sugestiva porque sua pobre organização não está à altura dos objetivos que se propõe; porque sua imagem midiática parece estar construída na medida justa que requer a formação de uma politicamente correta opinião pública – de rejeição às práticas violentas e antidemocráticas; e porque ninguém acredita que a melhor maneira de favorecer a Reforma Agrária seja socavar o governo Lugo, mas exatamente o contrário.

 

A aparição do EPP forçou o mandatário paraguaio a solicitar o Estado de Exceção por 30 dias nos departamentos afetados, e isso significa que neste período o Executivo poderá decretar prisões nas zonas de luta. "O objetivo principal do Estado de Exceção é capturar membros do EPP que cometeram uma série de crimes horrendos no Paraguai", explicou o próprio Lugo.

A medida foi acompanhada pelo deslocamento de 3000 efetivos – entre exército e polícia -, comandados pelo general Oscar Velázquez.

 

A respeito da participação militar, o presidente do Partido Comunista do Paraguai, Ananias Maidana, destacou o importante apoio das forças populares ao ministro da Defesa, Luis Bareiro Spaini, "porque ele representa o melhor da tradição e da história do exército paraguaio em defesa da soberania nacional e contra a intervenção estrangeira". A observação é importante porque coloca o ministro da Defesa fora de suspeitas de desestabilização.

 

A Câmara dos Deputados – opositora a Fernando Lugo – tenta destituir Bareiro Spaini. O ministro teria enviado uma carta à Embaixada dos EUA em Assunção, censurando-a em alguns conceitos que seu titular teria emitido sobre a gestão Lugo, o que motivou a ira dos legisladores – materializadas em um "voto de censura em sua gestão" – e também que Lugo tivesse de respaldá-lo.

 

No estritamente operacional, os entendidos em assuntos militares destacam o controle que o Exército Paraguaio tradicionalmente tem de seu território nacional, ao que qualificam de "efetivo e total". Sendo assim, na realidade o EPP deve estar com seus dias contados, dado que o esforço militar se soma ao fato de que suas lideranças estariam identificadas, o que os afasta dos refúgios urbanos e os relega a uma dura sobrevivência na selva.

 

As atitudes da diplomacia estadunidense, questionadas pelo ministro da Defesa, fazem lembrar ações da embaixada de Washington na Bolívia, quando dos episódios na "Meia Lua", em 2008, em busca de destituição do presidente Evo Morales.

 

Com efeito, enfrentar um movimento insurgente sem armas e nem recursos, sem meios para tarefas de propaganda e sem algum apoio urbano é uma situação difícil de digerir e que conta com os vários antecedentes negativos da história militar, que não se pode crer que alguém treinado desconheça. Então, por que tanto barulho com isso? Tudo tem um cheiro estranho, não?

 

Por um lado pode se pensar que se forçou o presidente Lugo a direcionar esforços em uma questão que se não for exitosa lhe trará uma imagem de fraqueza e afundará ainda mais as bases de seu governo.

 

Por outro, o obriga a utilizar mecanismos excepcionais de repressão – emprego do exército em questões internas -, configurando um perigoso precedente para toda a América do Sul.

 

Além do mais, repercutiu que militares estadunidenses instalados na localidade de Estigarribia poderiam colocar sua "experiência de combate em regiões de similares características" a serviço dessa operação de caça a título de "colaboração extra-oficial".

 

Isso corrobora a teoria de que os EUA tentam por qualquer meio envolver-se militarmente em regiões de abundantes recursos – já estão na Colômbia – e a partir dali projetar-se a países fronteiriços ao Paraguai.

 

Neste marco, toda a operação EPP poderia ser uma nova criação tática de Washington, afinal de contas, não constituiria nenhuma novidade, correto?

 

Diego Ghersi é professor da Faculdade de Jornalismo e Comunicação Social da Universidade Nacional de La Plata (Argentina).

 

Publicado originalmente na Agencia Periodística del Mercosur (http://www.prensamercosur.com.ar/apm/nota_completa.php?idnota=4657)

Traduzido por Gabriel Brito, jornalista.

 

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Última atualização em Sexta, 14 de Maio de 2010
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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