Episódios Neocoloniais - O caso do arquipélago de Malvinas

 

Sem consultas ou negociações, a Inglaterra, no início de 2010, resolveu iniciar a prospecção de petróleo em solo marítimo onde se situa o arquipélago das Malvinas. A plataforma de exploração "Ocean Guardian" foi enviada para área a 160 km ao norte das Malvinas com o objetivo de explorar gás e petróleo. Segundo o diário inglês The Sun, estima-se a existência de 60 milhões de barris nessa plataforma marítima. Há estimativas maiores.

 

A Argentina, em defesa de seus recursos naturais, reagiu afirmando que se trata de exploração ilegítima em águas de sua plataforma continental, argumento correto tanto do ponto de vista político como geológico. Desta forma, iniciou-se uma guerra, por ora verbal e diplomática, entre os países, somada a declarações de vários governos, inclusive o estadunidense representando a grande potência imperialista mundial.

 

Paralelamente (final de fevereiro), ocorreu a Cúpula da Unidade da América Latina e Caribe, em Cancún (México) — segunda reunião do Grupo do Rio e da Cúpula da América Latina e Caribe (CALC) —, com a presença dos chefes de Estado de todas as nações da região, exceto Honduras, suspensa pela Organização dos Estados Americanos (OEA). Nesta reunião, a Argentina recebeu o apoio, sem exceções, dos 32 países participantes – inclusive aqueles de passado colonial inglês.

 

Assim, foi reafirmada a soberania Argentina sobre as ilhas Malvinas. O Brasil manteve sua posição histórica de solidariedade com a Argentina e criticou a ONU por não decidir a respeito da soberania do arquipélago.

 

Segundo o noticiário, a Inglaterra ignorou a cúpula de Cancún e deu início às perfurações. Enquanto a presidente argentina, Cristina Kirchner, discursava, "no Atlântico Sul, a 100 quilômetros das Malvinas, operários da companhia Desire Petroleum ignoravam os apelos latino-americanos e começavam a exploração do solo marítimo" (jornal O Estado de São Paulo, 23/02/2010). A Inglaterra reforçou seu poderio bélico na região com o envio de um submarino atômico. A arrogância da atitude inglesa faz jus à sua história de ex-potência colonial. Não por acaso, a secretária de Estado do governo dos EUA, Hillary Clinton, acaba de fazer um giro de pressões na América Latina e Caribe.

 

Estes são os principais fatos do momento. Vistos de forma isolada, não bastam para se compreender a dimensão da crise que envolve as Malvinas. É preciso considerar outros aspectos - do contrário corre-se o risco de dar crédito aos argumentos da imprensa conservadora que procura desqualificar a questão, como se fosse apenas um recurso menor do governo argentino para superar crises internas. Trata-se de uma questão geopolítica que afeta a soberania e a segurança não apenas da Argentina, mas de toda a América Latina.

 

Como evidência de sua origem colonial, o arquipélago ostenta dois nomes: Ilhas Malvinas para a Argentina e para nós latino-americanos e caribenhos; Ilhas Falklands para a Inglaterra e parcerias. Trata-se de um arquipélago com cerca de 3.000 habitantes, conhecidos por kelpers. Estes ilhéus fazem parte do Reino Unido (conhecido pela sigla UK), mas não gozam da cidadania inglesa (costumes coloniais!).

 

Os interesses gananciosos dos ingleses datam de há muito tempo. Estão clara e violentamente explicitados na história argentina desde 1833 quando as tropas britânicas invadiram as ilhas. Esta usurpação do território argentino ocorreu pouco tempo depois da formação da nação platina. Em 25 de maio de 1810 o então chamado vice-reino do Rio da Prata libertou-se da Espanha. Em 9 de julho de 1816, em Tucuman, foi assinada a primeira constituição. A Carta Magna tinha caráter democrático e republicano e marca a fundação da Nação Argentina.

 

Como nos informa o jornalista e escritor José Steinsleger em artigo publicado em La Jornada (Malvinas: brasa encendida), alguns anos após a invasão, o então primeiro-ministro da rainha Victoria, lord Aberdeen, profetizou: "En estos dias de desenvolvimiento de Sud América, las islas tienen gran valor para Inglaterra como base naval". O controle das rotas entre os oceanos Atlântico e Pacífico era uma das razões desta afirmativa.

 

Em 1985, entrou em operação um grande aeroporto militar situado em uma das ilhas do arquipélago. Tal fato possibilitou à Grã-Bretanha converter as Malvinas na principal base militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) no Atlântico Sul, com evidente vantagem para os Estados Unidos (potência imperialista mundial e, obviamente, o país mais importante dessa organização). Essa base somada à recente reativação da IV Frota Naval da marinha dos EUA dá bem a idéia do poder de controle e intervenção bélica nos acontecimentos políticos e econômicos da região (1).

 

Além dos interesses sobre as riquezas petrolíferas, minerais e pesqueiras, o domínio inglês sobre as Malvinas possibilita à Inglaterra o acesso à Antártida e suas riquezas em detrimento dos países latino-americanos. A base inglesa no continente gelado explica-se pela presença dessa ex-potência colonial na região. A Inglaterra também se interpõe à soberania argentina sobre as 200 milhas marítimas aceitas pela comunidade internacional.

 

Para avaliar corretamente os acontecimentos atuais há que se entender e respeitar o sentimento do povo argentino sobre a questão das Malvinas. Ele é conseqüência da usurpação do território, de muito sofrimento e perdas desde o nascimento da nação platina.

 

É oportuno recorrer ao dicionário Houaiss e frisar o significado da palavra usurpar: apossar-se de ou tomar (algo) pela força ou sem direitos. Quando a ditadura do General Leopoldo F. Galtieri lançou o país de forma insana a uma guerra com a invasão das ilhas, o fez procurando manipular esse legítimo sentimento argentino. A finalidade primeira era salvar a moribunda e sangrenta ditadura de então.

 

(1) - A respeito, veja-se "Conferencia Internacional sobre La OTAN, IV Frota de Estados Unidos y Las Malvinas"; Buenos Aires, 19 a 20 / Marzo / 2009; http://conferotan.org. Não é o caso atual. A questão das Malvinas é importante para todos nós latino-americanos. Trata-se de questão geopolítica — episódio neocolonial e imperialista, um dentre muitos outros casos que evidenciam o neocolonialismo de nossa época.

 

José Juliano de Carvalho Filho, Thomaz Ferreira Jensen, Guga Dorea e Andrea Paes Alberico, do Grupo de São Paulo - um grupo de 12 pessoas que se revezam na redação e revisão coletiva dos artigos de análise de Contexto Internacional do Boletim Rede, editado pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, de Petrópolis, RJ.

 

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Artigo publicado na edição de março de 2010 do Boletim Rede.

 

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Comentários   

0 #2 Impressa de massaAdelino Machado 02-05-2010 06:41
Interessante é que impressa de massa no Brasil não discute essa questão. Com isso ficamos cada dia mais convencidos de que somos usurpados de nossos recursos naturais para alimentar empresas mantenedoras da arrogância nacional e internacional.
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0 #1 joao carlos pompeu 30-04-2010 17:44
enquanto isso, no anno da graça de 1833…
“… o Beagle dirigiu-se para as ilhas Falkland, ou Malvinas, como eram chamadas em Buenos Aires. Ele esperava ser hóspede dos colonos argentinos, que haviam se estabelecido ali durante anos. Em 1º de março, porém, quando o navio ancorou em Port Louis, o extremo leste do arquipélago, Charles viu uma bandeira inglesa hasteada. Navios de guerra britânicos haviam tomado as ilhas em nome da Coroa, em janeiro, expulsando o exército argentino. Toda a América do Sul estava “em agitação” por causa da ação britânica, ouviu dizer Darwin. “Pela espantosa linguagem de Buenos Aires poder-se-ia supor que esta grande república pretende declarar guerra à Inglaterra!” Aquilo parecia ridículo, ainda mais porque apenas um inglês vivia realmente nas ilhas, um lojista chamado Dickson, responsável pela bandeira. Mas Darwin percebeu sua importância estratégica para o comércio entre leste e oeste, e era por isso, como FitzRoy explicou, que ele pretendia fazer um levantamento acurado.
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O Beagle chegou a Port Louis, Malvinas do Leste, no dia 10 de março de 1834 – perfeitamente dentro do tempo previsto. Um levante havia ocorrido. Gaúchos e índios haviam massacrados cidadãos britânicos, incluindo o guardião da bandeira inglesa. “Assassinato a sangue-frio, roubo, saque, sofrimento”, as atrocidades eram infindáveis. A Marinha enviara quatro marinheiros armados sob as ordens de um tenente e eles haviam varrido os rebeldes do interior da ilha, enjaulando-os imediatamente para julgamento. Mas o “principal assassino”, Antonio Rivero, ainda estava à solta. Ele estava resistindo em uma ilhota localizada no estreito de Berkeley, jurando vingança, e o tenente, que agora desempenhava as funções de governador, solicitou a FitzRoy que o capturasse. E assim os marinheiros do Beagle capturaram o “vilão”, colocando-o a ferros no porão do navio.
Darwin contemplou o episódio com desdém. Ninguém em Malvinas do Leste, “este pequeno e miserável pouso da discórdia”, mereceu nenhum elogio. É claro que o governo de Buenos Aires chamaria àquilo de “revolta justa” e falaria sobre seus “pobres súditos gemendo sob a tirania da Inglaterra”. Do lado da Inglaterra, a mesquinha ação policial da Marinha era indigna da Coroa. “Aqui, nós, à maneira de cães esfomeados, tomamos uma ilha e deixamos uma bandeira da Inglaterra para protegê-la; o possuidor foi, obviamente, assassinado; enviamos um tenente, com quatro marinheiros, sem autoridade ou instruções” e “os assassinos foram todos apanhados, havendo agora tantos prisioneiros quanto habitantes.” Que atitude de visão curta em relação a uma ilha que “deve algum dia tornar-se um ponto de parada muito importante no oceano mais turbulento do mundo”! De fato, o comércio em expansão da Inglaterra só fazia seu desânimo colonial parecer mais desprezível. ” Quão diferente da velha Espanha.” O Almirantado deveria ter seguido o exemplo dos conquistadores e transformado Malvinas do Leste em uma fortaleza.
em “Darwin – a vida de um evolucionista atormentado” de Desmond & Moore.
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