Emblemas da degradação

 

A notícia, quando saiu nos jornais em meados de março, provocou o impacto de uma pluma caindo sobre o carpete. Ninguém disse nada, nenhum dos analistas usuais de nossa vida política teceu qualquer comentário. Logo, página virada, a gravidade do fato noticiado ganhou a consistência fantasmagórica do inaveriguável. E agora lateja sob o manto do silêncio.

 

No fato em si não há nada demais: o deputado federal José Eduardo Cardoso, do PT paulistano, anunciou que não vai concorrer nas eleições deste ano. Desistiu, cansou, está desiludido. O motivo da desistência é o que confere gravidade ao gesto e onde reside o x do problema.

 

Não se trata de crise pessoal, doença ou infelicidades do gênero. Pelo contrário, o deputado goza de boa saúde e, segundo a crônica social, até namorada ele arranjou nos labirintos rarefeitos do Congresso Nacional. Também não perdeu apreço pelo trabalho parlamentar, que considera importantíssimo. Tampouco se declara decepcionado (talvez devesse) com seu partido e menos ainda com o governo Lula, onde, dizem as más línguas, postulou vaga no ministério.

 

A razão da desistência está centrada em uma única questão, definida com todas as letras na carta enviada aos seus colegas de partido. Lá diz que "no sistema eleitoral atual, o sucesso de uma campanha depende mais dos recursos financeiros do que das idéias definidas pelo candidato". Mais: "são os recursos financeiros cada vez mais que definem o sucesso de uma campanha...".

 

Diagnóstico terrível, além de verdadeiro. Basta ver a série eleitoral. Os chamados "candidatos de opinião", que mobilizam militância voluntária e cidadã na defesa de idéias, causas e projetos, estão perdendo espaço para os que operam negócios na política. Cada eleição bate o recorde anterior: até a próxima ela será a mais cara da nossa história. O padrão dominante da política pede chefes de executivos que intermedeiam negócios e bancadas das grandes corporações nos parlamentos.

 

A notícia da desistência se torna mais grave ainda por ser petista o desiludido. Está no segundo mandato federal, foi vereador destacado na maior cidade da América Latina. Não faz muito, disputou com boa votação a presidência do seu partido, onde ocupa a Secretaria Geral, o segundo cargo em importância no Diretório Nacional. O PT, como se sabe, polarizou e ganhou em campanhas caríssimas as duas últimas eleições presidenciais, recebe a parte do leão do fundo partidário e, por razões óbvias, é o partido melhor aquinhoado pelo seleto grupo de financiadores privados de campanha.

 

O Secretário Geral de tal partido, localizado no vértice da ordem dominante, declara que só se candidataria se houvesse "uma radical reforma no sistema político". Reforma, aliás, em favor da qual o seu partido não moveu uma palha sequer. E, mais grave, acrescenta que "o sistema político brasileiro traz no seu bojo o vírus da procriação da corrupção e das práticas não republicanas". Desiste de ser candidato, mas segue sorridente no ajuntamento dos beneficiários da supremacia plena da pequena política.

 

O cidadão comum, pálido de espanto, se posta diante de tal quadro de difícil compreensão. Os sinais de alerta, pequenos avisos, lhe chegam como cartas embaralhadas. O caso em pauta é mais um disparo telegráfico, um condensado que espelha o processo mais amplo de degradação do esquema político dominante. O diagnóstico terrível, o gesto da desistência e o torpor do conformismo, embrulhados no manto de silêncio, são, sem dúvida, emblemas da degradação.

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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Comentários   

0 #6 Financiamentos de campanhasAntonio Lucas 06-05-2010 20:34
O que dizer então do Psol,que no Rio Grande do Sul,teve e terá a campanha de grandes empresários.A Luciana Genro acha tudo isso normal.
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0 #5 Emblemas da degradaçãoPercio 01-05-2010 08:15
Para ser reeleito no sistema eleitoral vigente,o Dep. Jose Eduardo Cardoso teria que negar todas as suas convicções políticas. É uma descisão difícil, porém digna de respeito, ele é um ótimo parlamentar. Apesar de tudo, penso que ele deveria reavaliar sua posição. Talvez ruim para ele, porém importante para o povo e para o país.
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0 #4 Crônicas e Críticas da América LatinaPedro Ayres 29-04-2010 11:05
O comentarista antecedente está coberto de razão. Muito mais importante do que o simples debate sobre o preço das eleições - o que é normal no capitalismo-, é realizar a crítica sobre a falsidade democrática da "democracia representativa".
Um processo ideal para permitir que a lógica cumulativa do capital, também ocorra no âmbito das práticas políticas.
Portanto, façam as reformas que fizerem, nada será alterado se o caráter "representativo" continuar a ser a regra básica.
Uma Assembléia Nacional Constituinte Exclusiva poderia ser o início para um novo conceito de democracia.
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0 #3 Como assim?Felipe Gonçalves 28-04-2010 23:53
"Reforma, aliás, em favor da qual o seu partido não moveu uma palha sequer."

Isso não é verdade. Quem acompanha o parlamento nacional nestes últimos anos sabe que o PT é um dos poucos partidos que lutam por mudanças substanciais no sistema eleitoral.
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0 #2 Mário Kodama 28-04-2010 14:27
Esse deputado descobriu o Brasil...Parabéns...
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0 #1 DesvioRogério Guiraud 28-04-2010 10:11
Caro Léo Lince
Quero registrar mimha decepção com a oportunidade perdida pelo senhor no seu artigo propiciado pelo gesto do Deputado Cardoso do PT.
Cardoso ofereceu uma oportunidade raríssima de construirmos perpectivas a respeito de muitas visões das nossas Utopias perdidas e seu texto cometeu a falha imperdoável de reduzir tudo à questão 'entre-partidária' PT x PSOL (será outra?) desperdiçando a oportunidade de questionarmos o sistema eleitoral representativo e os conceito de Democracia o que Cardoso, talvez, estivesse a fim de propiciar-nos.
Mas ainda há tempo e o senhor tem os instrumentos para isso e espero que tente produzir algum ruído que seja ouvido para além daqueles que ainda sonham com esperanças de resgate da dignidade das disputas políticas com alguma ética.
O presidente e o sistema eleitoral precisam apontar disputas de algo além daquilo que já dominam e se nós repetirmos a mesma trajetória institucionalizada apenas reforçaremos aquilo que perdemos e não criaremos mais o novo que é o que podemos desejar!
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