Voltando à síndrome do manual

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A síndrome do manual está ligada a uma velha tradição da intelectualidade brasileira, tanto de esquerda quanto de direita. Ao invés de extrair da realidade brasileira os possíveis modelos de seu processo evolutivo, mesmo os heterodoxos, ela em geral importa modelos aos quais procura enquadrar a realidade do país, ou entra em pânico quando não há mais modelos utilizáveis.

 

Os liberais do século 19 esmeraram-se em importar os modelos inglês e francês, e depois o norte-americano. Este último serviu de paradigma para a primeira constituição republicana e para a democracia de fachada, ambas fora de lugar, com as quais temos convivido desde o final do século 19. Os socialistas e comunistas do século 20, adeptos de diferentes correntes filosóficas, inclusive do marxismo, procuraram importar os modelos social-democrata europeu, soviético, chinês, cubano ou utópico. Nenhum se adaptou às condições históricas geradas pelo Brasil.

 

Nos anos 1990, diante do fracasso das tentativas de esquerda, muitos de seus pensadores sucumbiram ao neoliberalismo. Depois, frente ao fracasso, ainda não completo, do neoliberalismo, enquanto os pensadores da direita não sabem ao que recorrer, muitos pensadores de esquerda continuam amarrados a algum tipo daqueles modelos do passado, mesmo quando dizem estar imunes a eles.

 

Uma análise, mesmo superficial, da atual intelectualidade de esquerda no Brasil talvez indique que uma parte significativa dela sofre de um ou outro dos males da síndrome do manual. Analisando, por exemplo, a ocupação da reitoria da USP por estudantes, com o apoio de muitos professores, em 2009 e que durou 50 dias, alguns concordam que ela teria rompido o hiato de apatia e desmobilização que marca os movimentos sociais brasileiros. No entanto, sustentam que ela foi marcada por um paradoxo. Pretendeu ser revolucionária e desafiar a ordem legal, mas teria lutado por pautas conservadoras e para restabelecer a ordem.

 

Concluem daí que a política tradicional não tem mais capacidade de processar os conflitos sociais, incapacidade que poderia ser chamada de irrelevância da política. Estaríamos vivendo, então, um momento que não mais entraria nos parâmetros antigos, que teria se caracterizado pelas grandes marchas. O grau de apatia, letargia e neutralização da política teria chegado a tal ponto que reivindicar pequenas coisas conservadoras e apontar os limites das ações do governo já seria uma coisa escandalosa, apesar da novidade de quebrar o silêncio.

 

Mas que novidade isso tem em relação à história dos momentos de refluxo da luta de classes, em que o nível de mobilização parece haver se congelado? Foi por não considerar na devida conta as "operações tartaruga" dos operários, por pequenas coisas conservadoras, como comissões de prevenção de acidentes de trabalho e reposição salarial, durante a apatia e letargia operária dos anos do regime militar, que a esquerda foi incapaz de prever, como deveria, os grandes movimentos de trabalhadores do final dos anos 1970.

 

Como isso não entrava nos parâmetros da luta armada e das grandes manifestações populares, nem em outros modelitos pensados por vários intelectuais, aqueles movimentos "conservadores" na base da sociedade não tinham "relevância política". E nem foram considerados, pelos intelectuais que sofrem da síndrome do manual, como parte do aprendizado econômico e político dos trabalhadores, que os preparou para as grandes jornadas posteriores, decisivas para dar fim à ditadura militar.

 

A avaliação que alguns intelectuais fazem da política educacional do governo Lula, com o ProUni, parece sofrer do mesmo mal. Tal política seria um verdadeiro achado para aqueles países emergentes sem solução, com populações eternamente pobres a serem administradas. Algo como o ProUni permitiria gerir 200 milhões de pessoas sem conflitos, tendo a natureza perversa de conquistar o sonho de vida da maior parte dos jovens pobres, que é o ensino superior.

 

Assim, ao invés de considerar a possibilidade da educação, inclusive a superior, como um instrumento de libertação, capacitando os jovens pobres a analisarem com mais agudeza a realidade em que vivem, a educação seria uma nova forma de dominação. Não passaria de uma hegemonia às avessas, por supostamente capturar o movimento social e levá-lo a uma espécie de eutanásia.

 

Por paradoxal que pareça, esses intelectuais de esquerda consideram que ampliar o acesso de jovens pobres à educação seria uma condução política em sentido inteiramente contrário aos interesses deles. O acerto total dessa política educacional não levaria a lugar algum, porque essa massa de jovens pobres ficará estacionada no lugar, para ser gerida pelas classes dominantes. Em outras palavras, a política educacional do governo Lula estaria errada porque é certa. Eis aonde, em alguns casos, leva a síndrome do manual: ao reacionarismo puro.

 

Não considera que uma grande parte dos jovens pobres é presa da hegemonia dominante justamente porque é ignorante. Dar-lhes educação, ou a capacidade de fazer uma leitura mais precisa da realidade e de seus problemas é uma das maneiras de evitar que fiquem estacionados no lugar. Pode até acontecer que alguns utilizem os conhecimentos para ascender socialmente e negar sua origem social. Também pode acontecer que alguns sejam atacados pela síndrome do manual. Mas a última coisa que pode acontecer à maioria é ficar estacionada no lugar. E isso é muito bom e importante para o futuro da luta social.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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Comentários   

0 #7 Excelente Texto PomarLuiz Motta 27-06-2010 11:37
Tem uma turminha , muito pequena inexpressível e a caminho da extinção , que juntos se parecem bastante nos resultados que é a de esquerda lunática junto com a extrema direita .. Ambos tem a característica da crítica vazia , dos dogmas e nada para colocar como opção viável.. e morrem de raiva porque a grande maioria da sociedade apoia as ações progressistas dos governos recentes de Lula e próximo de Dilma .. Que estão melhorando sensivelmente a vida dos mais necessitados dentro do que a realidade de correlação de forças atual permite ...
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0 #6 valdimir pomarRocha 03-05-2010 23:16
Ninguem sofre por doença só por ser pobre ! pobre esquerda nunca vai chegar aõ poder!!
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0 #5 Nem, tanto ao Mar, nem no PomarRaymundo Araujo Filho 29-04-2010 18:40
Ainda bem que não são todos que me acham um bestalhão. Minha mãe (acho que por generosidaee materna ) e o Jonas não me deixam mentir. São os dois que eu conheço.

Quanto Luiz Paulo Santana, agradeço a tentativa de Harmonizar os Contrários, mas solicito que leias a Hiostória da Travessia do Rubicão. Existem coisas na vida que são inconciliáveis.
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0 #4 Jonas 29-04-2010 11:14
Eu não acho vc um bestalhão. Concordo totalmente e fico indignado com a defesa do sr. Pomar, a quem sempre admirei. Há um limite, ainda que não possa parecer tão claro em certos momentos históricos, para o pragmatismo: o limite da realidade, este muito claro nas salas de aula brasileiras. Também temo pela pulverização política da esquerda, mas esse adesismo acrítico está se tornando insuportável. Restará vida, e opinião política, a margem do aparelho? Ou o único exercício será o da justificação?
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0 #3 WP X RAFLuiz Paulo Santana 29-04-2010 08:48
Sr. Raimundo, não adianta vociferar no deserto. A coisa tem que vir de dentro, não de cima ou de fora. Manter o olho crítico está certo, para aferir sempre o quanto estamos longe de uma democracia cidadã e participativa. Mas o desenvolvimento de uma massa crítica passa por caminhos nem sempre imagináveis. No estágio de ignorância em que nos encontramos (verdade que a ignorância política demora ainda mais a ser superada) não há como esperar ou propor alterações profundas. É passo a passo. É imprevisível. Os componentes são totalmente novos, essa mídia avalassadora, dominada e dominadora. Acho que ambos WP X RAF falam de coisas complementares: o primeiro estuda os acontecimentos e imagina estratégias. O segundo relembra criticamente quais são, ou seriam, os alvos, os objetivos. Espero que não se tornem inimigos incapazes de alianças. Essa é uma boa questão para a esquerda.
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0 #2 Glaura Pedroso 28-04-2010 16:27
Não sou totalmente contra o PROUNI, mas questiono por que transferir recursos para a iniciativa privada, via pagamento de bolsas, em lugar de investir na educação pública de qualidade, desde o ensino fundamental ao superior. É claro que uma proposta não exclui a outra, dependendo da realidade social e histórica de cada local. Neste ponto, concordo: é preciso olhar a realidade e não o manual. Mas não podemos nos iludir: a educação, embora essencial, não é libertadora por si. Os direitos fundamentais e a participação social dos mais pobres sempre terão de ser conquistados.
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0 #1 Idealismo de OcasiãoRaymundo Araujo Filho 28-04-2010 14:26
Os Pragmáticos Lullo Petistas, além de reforçarem o discurso anti intelectuais, principalmente os de esquerda, ainda reverberam e ampliam seus conceitos "idealistas de ocasião" nas suas análises políticas.

Começam criticando os intelectuais de esquerda, onde terminarão?

Bem, em primeiro lugar falam de Educação, como se ela fosse uma "coisa" substantivada sem nenhuma abordagem dialética. Tenho muita vivência e conhecimento das Escolas Técnicas Rurais, nos últimos 20 anos. Com Collor foram abandonadas. Com FHC começaram a ser reesrtruturadas, mas sob um modelo de transferência de tecnologias servis ao neoliberalismo, com verbas enormes para a chamada "Biotecnologia do Mal" (transgêncios, e outras).

Com Lulla, aumentando o número destas escolas, temos um nítido aprofundamento desta política. Não é à toa que o MST, a CCAMA (de Manoel Conceição) em seus projetos, têm um outro modelo de escolas, bem diferente deste completamente engessado do governo. E estou me referir a dois segmentos que emprestam seus apoios, no frigir dos (meus)ovos ao Lulla.

O ensino básico de Lulla e seus governadores e prefeitos aliados (a grande maioria, segundo os Lullistas se ufanam) é uma vergonha tão grande como a de qualquer outro governo anterior. A Escola Pública Básica está a míngua e deletéria.

O Pró Uni, a começar pelo vexame das tentativas de executar seus exames de admissão, afinal entregues a iniciativa privada (com o Caixa 2 de sempre, avento a chance), quando temos gráficas do senado, da Câmara, das Assembléias Legislativas, dos Diários Oficiais, entre outras, apenas me remete ao grau de corrupção que permanece neste governo.

E, mantenho as minhas críticas feitas no comentário sobre o artigo anterior, pois o Pró Uni com as suas ofertas essencialmente urbanas, afastam a juventude do Campo, esvaziando a Reforma Agrária que, embora muitos não queiram adnmitir, é uma das pernas do Tripé de Estruturação do Brasil.

Assim, Wladimir Pomar, nos dá a Educação como um Substantivo e Mágico e não Dialético para a discussão. Mas, como diz ele, os Intelectuais de Esquerda são horríveis. Gustavo Corção também nos achava assim. Nelson Motta, seu herdeiro ideológico, também.

Da mesmam forma, a meu ver, WP continua como uma Alice em seu Mundo Mágico a repetir que as "coisas" existem por elas mesmas, e não sob a condução dos agentes transformadores, isto é, nosotros.

Ninguém aqui é contra o acesso á EducaçãO. O que exigimos é que as coisas sejam feitas com cuidado e esmero, ainda mais em se tratando da vida de jovens.

Vender "Treinamento de Mão de Obra" como Ensino Universitário de qualidade e transformador é um pouco demais para o meu estômago de intelectual de esquerda (tem gente que me acha um bestalhão...)
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