O pacto sob fogo neoliberal

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O pacto e o fogo do título acima não são, necessariamente, o da coalizão montada por Lula para o segundo mandato, nem o das forças que estão por trás da artilharia midiática que tenta, mais uma vez, associar o presidente a bingos e outras falcatruas, procurando transformar compadres em parentes, e parentes em braços operacionais. Embora possa haver similaridades, e a situação presente mereça atenção, vamos voltar ao outro pacto, aquele que associava capitais estatais a capitais privados, nacionais e estrangeiros, no processo de desenvolvimento capitalista, e das condições que levaram esse pacto a ser atacado pelo neoliberalismo.
 
No início dos anos 1970, o capitalismo brasileiro já era altamente concentrado, e começara a ingressar no processo de centralização. Companhias dos setores mineral, industrial, agrícola, comercial, financeiro, e de serviços, passaram a unificar-se em algumas poucas corporações empresariais. Em contraposição, as forças produtivas do país continuavam com lacunas imensas e elos não plenamente desenvolvidas. Seu núcleo tecnológico era comparativamente fraco em relação ao dos países desenvolvidos, e seu núcleo financeiro era muito dependente do sistema internacional.
 
A redução do ritmo de crescimento econômico, que interferia na rentabilidade empresarial, também formara um imenso exército industrial de reserva, com todas as conseqüências sociais, ou anti-sociais, que o fenômeno comporta. Em meados daquela década, tornou-se evidente uma crise naquele pacto estatal-capitalista. Ele dividiu a burguesia e o regime militar, enfraquecendo-os diante do ressurgimento dos movimentos democrático, operário e popular.
 
Paralelamente, esse é o momento em que o capitalismo dos países desenvolvidos ingressa, como um furacão, numa nova fase. Impulsionado pela nova revolução tecnológica nas áreas eletrônica, informática e de novos materiais, o capitalismo avançado desenvolveu rapidamente seu sistema nervoso central. Aumentou não só a velocidade e a quantidade de suas informações, mas também implantou "cérebros" numa quantidade considerável de máquinas e equipamentos, levando o trabalho humano direto a ser crescentemente dispensado.
 
Isso levou muitos ideólogos a imaginarem que o capitalismo, para continuar progredindo, não mais precisaria de seus sistemas ósseos, musculares e circulatórios, representados por suas fábricas e trabalhadores industriais. A sociedade da informação substituiria e supriria tudo o mais. Essa suposição tornou-se o substrato das ideologias da destruição criadora, da desindustrialização, da desproletarização, e da privatização, corporificadas no neoliberalismo. Este, numa inversão completa, passou a responsabilizar e a atacar o Estado pelos problemas estruturais inerentes ao próprio capitalismo. Daí a colocar sob fogo o pacto entre os capitais estatais e os capitais privados, e romper com ele, foi um passo.

 

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político. 

 

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