Movimento de estudantes pode iniciar nova jornada política no Brasil

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A ocupação da reitoria da Universidade de São Paulo (USP) pelos alunos da universidade, descontentes com as políticas para o ensino superior do governo tucano de José Serra, marca o início de uma nova era no movimento estudantil do país e a saída do marasmo vigente nos últimos anos.

Resistentes a pressões e ameças desde o dia 23 de maio, centenas de alunos já passaram pelas salas do prédio da reitoria, localizado à frente da Praça do Relógio, um dos marcos arquitetônicos da universidade paulista. Revezando-se na ocupação, os alunos freqüentemente contam com o apoio de manifestantes que engrossam o coro dos ocupantes. É um ponto estratégico para demonstrar descontentamentos com instâncias governamentais, já que a presença de câmeras de televisão no local se transformou em algo permanente.

Embora a participação de grupos políticos entre os ocupantes seja perceptível, não são as bandeiras da esquerda que predominam no ambiente da reitoria ocupada. A bandeira do ensino público essencial e gratuito logicamente se mantém, mas a influência de correntes ideológicas ou partidárias dominantes não é a tônica do movimento.

"A ocupação da USP é, essencialmente, heterogênea", diz Douglas Anfra, estudante na Filosofia e funcionário da Geografia da USP. "O que há é uma hegemonia do movimento em si", completa o estudante.

A pluralidade é inclusive observada nas salas do prédio da reitoria, onde alunos de diversos cursos - alguns cuja combatividade encontrava-se debilitada nos últimos anos - participam da ocupação.

Além de alunos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), é possível encontrar no prédio estudantes da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), da Escola de Comunicações e Arte (ECA), do Instituto de Matemática e Estatística (IME), da Biologia e da Física, entre outros.

"Mesmo alunos da Faculdade de Medicina, normalmente mais aquém dos acontecimentos no campus Butantã da USP, estão demonstrando apoio", reitera Anfra.

Greve diferente

Neste período em que a reitoria vem sendo ocupada, a ação dos estudantes foi reforçada pelas greves de professores e de funcionários da USP. Na FFLHC, por exemplo, a adesão à manifestação foi praticamente total. Cadeiras e mesas, estrategicamente posicionadas para a eventual necessidade de construir barricadas, encontravam-se espalhadas pela faculdade; sua utilização como tal, no entanto, não foi necessária, pois professores e alunos prontamente juntaram suas forças aos ocupantes da reitoria no combate às políticas do governo paulista.

Alguns professores de outras faculdades, porém, não acataram a idéia com muito entusiasmo. Apesar de, em sua maioria, se declararem contrários aos decretos de Serra, muitos torcem o nariz à ocupação e à postura combativa de alguns de seus colegas e dos estudantes.

Sylvio Sawaia, professor da FAU, liderou uma marcha contrária à ocupação que reuniu mais de cem pessoas. Sua principal preocupação era um possível confronto direto entre estudantes e Polícia Militar no campus - algo que, até o momento, não ocorreu, mesmo com a reintegração de posse da reitoria já determinada pela Justiça do estado de São Paulo.

Durante a assembléia ocorrida na segunda-feira, dia 11, os professores decidiram encerrar a sua participação na greve. Continuarão, no entanto, apoiando as reivindicações dos alunos e reiterando sua posição contra qualquer tipo de uso de violência contra os estudantes da USP que ocupam a reitoria.

Novidades no movimento estudantil

Embora a tática de ocupar reitorias não seja algo exatamente novo no movimento estudantil, os acontecimentos atuais na USP demonstram o novo fôlego conseguido pelos estudantes na luta por seus direitos. Algo a se destacar é a transparência com que tudo o que acontece na ocupação é repassado ao público - atas de reuniões e outras informações são publicadas, desde o início da ocupação, em um blog mantido pelos alunos. Uma rádio livre e transmissões de vídeo pela internet (estes, também divulgados via YouTube) também estão à disposição.

Luiz Martins, professor da ECA, garante que tais iniciativas são "algo que nunca havia visto antes no movimento estudantil, pois quando alguém vê a realidade da ocupação, vê nela a vitalidade renovada do movimento estudantil brasileiro".

Além de todo o aparato midíatico dedicado a mostrar o que está acontecendo realmente na USP e na ocupação, alunos e docentes organizam exposições extra-curriculares - na realidade, aulas expositivas sobre temas variados. Já participaram das exposições personalidades de renome como Fábio Konder Comparato e Paulo Arantes.

Para Luiz Martins, o espírito ativo e propenso a inovações na ocupação da reitoria deve-se ao fato de que a atual geração de estudantes brasileiros é a primeira que se vê sem futuro algum. Justamente por isso, pretende mudar a sociedade. "Esse povo, essa geração, vê a realidade da sociedade capitalista e consegue enxergar que seu futuro é sombrio", diz.

O professor considera as movimentações como parte de "uma mudança histórica e estrutural, pois todos os analistas do movimento estudantil - inclusive os especialistas nos acontecimentos dos anos 60 - apontavam os estudantes como uma espécie de índice superestrutural que nada tinha a ver com o funcionamento do capitalismo. Não eram sujeitos históricos. Hoje, são portadores dessa realidade estrutural, justamente por essa consciência, direta ou indireta, de que o capitalismo caminha irreversivelmente para a supressão de empregos, de aposentadorias, de sistemas de saúde".

Martins diz, ainda, que o movimento estudantil comprova o início de uma nova jornada política no país, onde os projetos ligados ao PT se esgotaram. Para ele, outros movimentos sociais, como o MST e o MTST, ainda possuem certa ligação com o projeto petista, hoje cada vez mais similar ao ideário de tradicionais setores da oposição como o PSDB.

"A aliança entre professores que apóiam o PT e professores que apóiam o PSDB na última reunião da ADUSP, por exemplo, é prova cabal disso", completa o professor.

Solução pelo diálogo

Também reunidos durante a semana para debater a situação na principal universidade do estado de São Paulo, os estudantes decidiram, na madrugada do dia 13, manter a ocupação na reitoria. Segundo comunicados divulgados ao público, as reivindicações estão mantidas e uma comissão de negociação aguarda a resposta da reitora, Suely Vilela.

Desde o início da ocupação, os canais de comunicação se mostraram minguados por parte da reitoria da USP. Os alunos, ao contrário do que grande parte dos meios de comunicação acusa, sempre aguardaram indícios de que suas reivindicações seriam atendidas.

Segundo a aluna Zilmara Pimentel, a preferência dos estudantes foi e ainda é "criar um canal de diálogo" que possibilite o fim do impasse, de maneira pacífica e de forma a que não se prejudiquem os alunos participantes da ocupação.

Luiz Martins considera a ocupação e a greve uma grande vitória para os estudantes do Brasil, que poderá acarretar resultados positivos. "Hoje, o score é tremendamente favorável aos estudantes", diz o professor.


Mateus Alves é jornalista.

 

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