Agrotóxicos versus saúde e meio ambiente

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A notícia veiculada pela "Folha de S. Paulo", na edição do dia 22 de março, reportando as flagrantes irregularidades constatadas pela ANVISA nas empresas fabricantes de agrotóxicos, é um fato importante, uma vez que a produção desses produtos no Brasil é marcada pela excessiva tolerância do poder público para com essas empresas e substâncias perigosas.

 

O poder público tem a obrigação constitucional de tutelar e assegurar a saúde e a qualidade ambiental. Mas, em relação aos agrotóxicos, esse importante preceito constitucional é, na prática, negligenciado. São priorizados os aspectos meramente produtivistas e colocam-se em segundo plano os riscos intrínsecos a essas substâncias. Não fosse assim, os produtos com princípios ativos baseados em moléculas de organofosforados - de elevada toxicidade e proibidos em grande número de países do mundo - não teriam ainda uso autorizado no Brasil, como é o caso do Metamidofós, Acefato etc. São vários os trabalhos científicos que comprovam a alta toxicidade e os danos neurológicos ocasionados por esses compostos, inclusive triplicando o índice de suicídios nas populações mais diretamente expostas aos mesmos.

 

Como se denota da reportagem da "Folha", o domínio de mercado é das transnacionais, que, vistas pelo cidadão incauto, são gigantes do mercado apenas pela extrema competência e compromisso com a sustentabilidade ambiental e social, como anunciam suas dissimuladas campanhas publicitárias. No entanto, são corporações absolutamente desprovidas de qualquer consciência ética ou ambiental.

 

As empresas produtoras de agrotóxicos lucram com o veneno na nossa alimentação, com a intoxicação de trabalhadores rurais e com a contaminação do nosso ambiente. E são as mesmas que nos impõem os transgênicos, produtos cujas conseqüências são ainda indecifráveis nos ecossistemas e organismos biológicos. Essas grandes corporações nos adoecem e nos ofertam medicamentos produzidos também em suas fábricas. Lucram com o fechamento de um ciclo de malefícios.

 

Tenta-se criar um mito, de fácil disseminação no senso comum, de que sem esses produtos não haverá capacidade de suprir as necessidades alimentares da população humana: os efeitos colaterais dos agrotóxicos são apregoados como uma espécie de mal menor ante a possibilidade de fome mundial. Desconsiderando que, mais do que uma questão de produção de alimentos, a fome que recai sobre grande parcela da população mundial é conseqüência do insano caráter concentrador do sistema capitalista.

 

Ademais, a criatividade humana tem plena capacidade para o desenvolvimento de tecnologias de produção agrícola que prescindam dos agrotóxicos, como mostram as crescentes vivências e experiências com agroecologia mundo afora. A disseminação de tais experiências encontra como principal obstáculo a insensibilidade governamental para um maior estímulo e incentivo à pesquisa, ao ensino e ao desenvolvimento de programas de extensão rural voltados para essa outra visão tecnológica.

 

A política governamental optou pelo agronegócio e suas nefastas conseqüências: monoculturas, desmatamento, poluição por agrotóxicos e adubos industrializados, concentração de renda e terras, empobrecimento do camponês, enfim, uma opção que não supera o histórico papel periférico de exportador de matérias-primas pelo Brasil. Trata-se de opção em evidente contradição com um novo paradigma de produção agrícola, mais limpa social e ambientalmente, voltada às necessidades humanas, e não apenas aos lucros de poucos.

 

Pensando nisso, elaboramos uma proposta de regulamentação da produção, comércio e uso de agrotóxicos no estado de São Paulo. A proposta tem como orientação a prevenção da saúde e do meio ambiente. Esperamos que a Assembléia Legislativa consiga, em seu conjunto, dar uma resposta à sociedade paulista em relação ao uso descontrolado dessas substâncias que ocorre atualmente no estado. É premente uma determinação política para que, acima dos interesses econômicos, esteja o bem estar da humanidade.

 

Marco Antônio de Moraes, 44, engenheiro agrônomo; Raul Marcelo, 30, deputado estadual e líder do PSOL na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo.

 

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Comentários   

0 #7 Ações positivasGeraldo Bittencourt 13-04-2010 14:25
Marcelo,só o fato de vc trazer essas informações representa uma atitude pró-ativa e positiva em tempos de carências de informações com qualidade. O tema é por demais oportuno: vida sustentável X capitalismo devastador. Interessei-me pelo o projeto de tua autoria e gostaria muito de ter a oportunidade de divulgá-lo em meu programa na Rádio Popular FM 107,9, Rádio Comunitária aqui em Cruz Alta. Grato e boa sorte com o projeto.
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0 #6 \'Agrotóxicos\" Morte silenciosa de agriJoão I Filho 11-04-2010 04:49
Quantas vidas ainda precisarão ser ceifadas, para que alguma medida seja tomada. Quantas mortes já ocorreram tanto de trabalhadores expostos, ou mesmo de consumidores que nem se quer foram investigadas as causas. Por que será?
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0 #5 Preocupação maiorRaymundo Araujo Filho 07-04-2010 13:29
Maior que a preocupação que semnpore tive com os "tentáculos do imperialismo" com seuis agrotóxicos, fertilizantes industriais e transgênicos, é ver que grande parte da esquerda está convicta que este é o caminho do desenvolvimento, e outra parte que acha possível conciliar o agronegócio (= agricultura do capital), com a Agricultura Familiar.

Com Lulla, consolidou-se a captura da Agricultura familiar como fornecedora de matpérias primas para a agroindústria oligopolizada.

Resta uma pequena parte da esquerda e até de alguns conservadores que apóiam a agricultura ecológica, a dar as esperançasa que "uma outra agricultura é ossível".
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0 #4 agrotóxicos e meio ambienteHélio Q. Jost 07-04-2010 12:55
Excelente artigo. A propósito, a LE MONDE desse mês,traz chamada de capa para artigo O BRASIL ENVENENADO e temas ligados a meio ambiente e agronegócio.
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0 #3 EntranhasJoão Coimbra 07-04-2010 11:53
Essa violência toda para com as populações, não é resultado de discriminação ou do menosprezo por causa de cor de pele, sexo ou outra desculpa qualquer. Essa violência a que somos sujeitados, através da comida, só pode ser fruto da ganância desenfreada e livre.
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0 #2 AgrotóxicosHélio Q. Jost 06-04-2010 12:56
O pior é que os nossos homens do AGRONEGÓCIO não querem nem saber,... . A associação que recolhe embalagens em Cascavel-Pr. divulgou, envaidecida, que recolheu "x" toneladas de vasilhame. Vasilhames que, em média, contém 20 (vinte) litros de agrotóxico concentrado cada uma. Imagine isso diluído, o tamanha da contaminação. - E as autoridades onde estão? E a CNTbio, etc.? Pior ainda, é que ninguém parece se conscientizar de a água NÃO É UM PRODUTO RENOVÁVEL!!! Água envenenada não tem mais solução! Nem fervendo, nem filtrando. Não é como água contaminada por bactérias, etc. em que o cloro, a filtragem resolvem. Precisamos agir, denunciar, fiscalizar, mobilizar.
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0 #1 Sabotagem dos EUAJose Laercio Scatimburgo 06-04-2010 09:11
Em 1956 os Imperialistas Americanos, exportaram 10 toneladas de sapos (anfibíos)
do Brasil, de diversas regioes. A finalidade é de sabotar a nossa biodiversidade, ou seja, exterminar as defesas naturais em nossa fauna e flora. Soma-se a isto, o ´plano dos sábios do sião´ de dominar o mundo através da imprensa, sistema financeiro, industr farmaceuticas...
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