O novo debate econômico e político

0
0
0
s2sdefault

 

Embora os críticos do governo Lula tratem o PAC com desprezo, eles são obrigados a reconhecer que esse programa mudou os rumos da política econômica, como tivemos ocasião de constatar em comentários anteriores.

 

Mas eles, assim como uma série considerável de analistas e consultores econômicos, ainda não detectaram a profundidade dos efeitos do PAC na sociedade brasileira, em especial porque tal programa é acompanhado por uma política constante de redistribuição de renda. Por isso, quando a crise se apresentou no centro do capitalismo mundial, não foram poucos os que acreditaram que o Brasil entraria em bancarrota, e tentaram desqualificar por todas as formas as afirmações de que a crise atingiria o Brasil como uma marola, não como um tsunami.

 

Enganaram-se completamente. Primeiro porque, antes da crise, divulgavam que eventos como esse não mais faziam parte da história do capitalismo. Depois, porque o Brasil não só emergiu da crise como um dos países do mundo que já não pega gripe quando o colosso do norte espirra, como voltou a crescer de modo ainda mais consistente, enquanto os Estados Unidos e potências européias permanecem patinando em recessão.

 

Esses acontecimentos da vida real estão contribuindo para mudar a qualidade do debate econômico e social em nosso país. Embora o neoliberalismo continue com força, já que tem por base os interesses das corporações transnacionais e das grandes potências capitalistas, ele está sendo coagido a ceder lugar a uma nova política imperial, ainda em gestação, que leve em conta a emergência de fortes países em desenvolvimento. E embora a ideologia do capitalismo continue hegemônica, por sua nova expansão mundial, a crise em seu centro recolocou em pauta a questão do socialismo.

 

Isto tudo significa que o PT e o governo Lula, tendo por base a combinação de crescimento econômico com redistribuição de renda e ataque aos problemas sociais, se verão cada vez mais envolvidos num duplo debate. Por um lado, com ex-neoliberais, liberais ortodoxos e social-liberais, que acham "improdutivos" os programas sociais e se opõem a eles através dos ataques ao "aumento dos gastos públicos" e reclamam da falta de reformas estruturais liberalizantes.

 

Eles tendem a se unificar numa cruzada para que o PT e o governo se contentem apenas com o crescimento econômico e privilegiem os setores privados já estabelecidos no Brasil. Temem a entrada dos concorrentes asiáticos, em particular chineses, mas querem evitar, sobretudo, que os programas sociais levem o governo e o PT a pretenderem reformas estruturais, econômicas, sociais e políticas que democratizem a propriedade e a participação política, e mexam com os privilégios patrimonialistas.

 

Por outro lado, o PT e o governo continuarão às voltas com os pós-industrialistas e com a ultra-esquerda, que querem forçar o governo a abandonar o crescimento econômico com base na industrialização e concentrar-se exclusivamente no desenvolvimento social e ambiental, como se isto fosse viável sem os recursos e as técnicas que só o desenvolvimento industrial é capaz de fornecer.

 

Estes debates devem constituir o eixo sobre o qual se desenvolverá a campanha eleitoral de 2010. O que exigirá do PT e de sua candidata um programa que aprofunde ainda mais a combinação de crescimento econômico com redistribuição de renda, democratização da propriedade urbana e rural, solução dos problemas de saneamento, moradia, saúde e educação, participação democrática nos órgãos de governo e do Estado, soberania nacional, diversificação das parcerias internacionais e solidariedade com os países mais pobres.

 

Em outras palavras, um terceiro mandado do PT terá que alargar os objetivos do PAC, no sentido de fortalecer a infra-estrutura econômica e social, adensar as cadeias produtivas, democratizar o capital - neste caso expandindo a classe dos micro e pequenos capitalistas urbanos e rurais - e desenvolver uma forte classe trabalhadora assalariada nas cidades e nos campos. E, associado a tudo isso, terá que pensar seriamente numa estratégia e nas táticas de reforma do Estado, sem o que a participação democrática não passará de um sonho de verão.

 

As forças acumuladas, em especial durante o segundo mandato do governo Lula, ainda não permitem supor a possibilidade de realizar reformas radicais. Permitem, no entanto, supor que a nova classe de trabalhadores assalariados, que está se recompondo com o crescimento econômico, assim como as demais camadas populares beneficiadas pelos programas sociais do governo, aumentará suas demandas por mais renda, mais espaços para educação, saúde e moradia e mais participação democrática.

 

Por outro lado, a burguesia brasileira também se fortaleceu consideravelmente. Ela tem capitais e técnicas suficientes para ocupar produtivamente os milhões de hectares restantes do latifúndio improdutivo. Isto pode liquidar, em definitivo, qualquer possibilidade de transformação dos sem-terra em pequenos produtores agrícolas independentes e qualquer possibilidade futura de desenvolvimento da agricultura familiar.

 

Ela também tem capitais e técnicas para subordinar totalmente os micro e pequenos capitalistas aos interesses das grandes corporações e para tentar evitar, a qualquer custo, o fortalecimento do setor estatal da economia brasileira.

 

Nessas condições, o fortalecimento das empresas estatais, a sobrevivência e desenvolvimento dos micro e pequenos produtores industriais e agrícolas e a expansão da classe dos trabalhadores assalariados deixou de ser um problema exclusivamente econômico, para se tornar também um problema social e político de primeira ordem. O que vai se refletir, inevitavelmente, nas crises de crescimento da política governamental de harmonização de contrários.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

{moscomment}

Comentários   

0 #6 Lewis CarollRaymundo Araujo Filho 13-04-2010 07:54
Agora Luiz Motta me remete a Lewis Caroll, aliás, à sua mais importante obra "Alice no País das Maravilhas", que nos remete ao Maravilhoso Mundo de Alice.

A ladainha futebolística, de torcidas fanáticas, não dá bom resultado na política, causando desastres bem maiores do que os que acontecem nas escaramuças entre torcidas.

Aqui, na política, deformam-se mentes, perpetuam-se mentiras como se verdades fossem, pois são apenas postados como eslogans propagandísticos de governos ou candidatos.

As Alices deslumbradas enfraquecem o conteúdo do Correio.

Senão vejamos:

1) A reprodução de uma máxima neoliberal, agora adotada pela Ex Esquerda corporation S.A para se mostrarem "rersponsáveis" frente ao Capital, que é a "Dinheiro não nasce em ávores". Aliás, não há pobre ou trabalhador que não saiba disso. Já as Alices...

Depois, falar de Poupança do Estado, pagando R$200 Bi de JUROS de uma dívida fictícia, rolada na base da cocaína financeira dos capitais voláteis e livres de regras. É verdade que regada com 5 de Bolsa família e casas custando R$1,5 mil o M2.

Depois confunde "joint ventures" desnacionalizantes com "Estado Forte e Musculoso", talvez frequentador de alguma Academnia de Ginástica...

Aí, já fala em privatizar os aeroportos sem nenhum espírito crítico e ainda fazendo profissão de fé na boaventurança dos nossos ministérios, que obviviamente, ainda mais em ano eleitoreiro estão prenhes de projetos e iniciativas...para depois.

Abandona a discussão sobre participação popular ativa na política, e não apenas passiva, como "recebedor de benefícios", xcom o se o Lullo Psetismo fosee uma espécie de Zorro sem o Sargento Garcia.

Vou deixando este Luiz Motta aí com vocês e vou ver correndo o Alice...do Tim Burton....
Citar
0 #5 Lewis CarollRaymundoi Araujo Filho 13-04-2010 07:34
Lendo o Luiz motta, desta vez me lembrei de Lewis caroll, aliás, da sua mais importante obra, que é, sem dúvida Alice no País das Maravilhas.

Falar em poupança do Estyado, pagando R$200 Bi de JUROS de uma dívida alimantada pela cocaína financeira dos capitais voláteis, parece brincadeira. Aliás, de tão mau gosto quanto confundir "joint ventures" desbnacionalizantes, com "Estado Forte e Musculoso".

Lendo a Alice do Lullo Petismo (ao menos aqui no Correio), cheguei até a experimentar um pouco de Paz, tentando dar como certa que os super heróis dos ministérios citados vão fazer tudo direitinho prá nós.

Aliás, vou ver urgente o filme Alice, do Tim Burton. Deve ser bem melhor que esta ladainha Lullo petista, desçlocada no tempo e no espaço, e tentando transformar o Correeio da Cidadania, em algo menor e rarefeito de conteúdo.
Citar
0 #4 Parcerias público-privadaLuiz Motta 08-04-2010 22:30
Meu comentário
Dinheiro não nasce em árvore e no Brasil a poupança do estado ainda é pequena. O governo Lula-Dilma tem definido suas prioridades para a poupança estatal e criado mecanismos para atrair poupança nacional e internacional e ter forças para negociar rendimentos ao privado que menos prejudiquem os usuários do investimento no futuro . Governo efetuando parcerias com o privado viabiliza a execução de mais investimentos simultâneos portanto mais desenvolvimento e mais pode-se investir no social e se criar mais empregos e assim aumentar o PIB e o governo passa a auferir mais renda (via tributos) e assim investe mais e o ESTADO e o POVO (sem serrágio) ficam mais FORTEs.

Ou seja , não tem como crescer num bom ritmo no momento sem contar com a poupança privada . O governo tem que democratizar a comunicação acabando com a DITADURA do PIG, para lá na frente conseguir recuperar o terreno perdido para o privado com o aumento de tributação sobre o lucro dos que hoje estariam ganhando mais com as parcerias que se fazem necessárias . Porém se não reduzir o poder da mídia PIG, não conseguirá implementar no futuro uma redistribuição de renda via tributação..

Texto que dá uma idéia do que passa pelo governo:

Uma boa notícia: a gerente do PAC, Miriam Belchior, anunciou que o governo Lula prepara uma nova legislação sobre concessões dos serviços públicos na área de infraestrutura no país, visando aperfeiçoar o modelo existente.

O governo federal, informa Miriam, já iniciou consultas com o setor privado e com as atuais empresas concessionárias de infraestrutura. O foco da mudança começa nas ferrovias para aumentar a concorrência e separar a construção e manutenção da operação da malha.

Mas não é só isso, avisa Miriam. Após reunião com empresários ligados à Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB), ela reconheceu que um dos principais problemas na nossa infraestrutura são os aeroportos.

Aí, realmente, o governo corre contra o tempo na efetivação de soluções. Por isso, num esforço conjunto, os ministérios da Defesa, Fazenda, Planejamento e Casa Civil e a Infraero e o BNDES estão mobilizados em consultas e estudos para definir um modelo de concessões para os aeroportos.

Como sabemos, o crescimento do trafego aéreo e do volume de passageiros tem sido extraordinário. Com a Copa do Mundo em 2014 no Brasil e as Olimpíadas em 2016 no Rio, é mais do que urgente essa definição, sob pena de uma crise maior no setor. Sem falar no crescimento do transporte de carga e da aviação regional que, também, requer essas providências urgentes.
Citar
0 #3 Mentiras, mentiras e mais mentiras!Raymundo Araujo Filho 08-04-2010 14:57
Wladimir Pomar assume o discurso oficialista, tão uno entre a Burguesia, o Capital Internacional e o Lullo Petismo, que sequer admite que há outras interpretações sobre o mesmo fato.

Neste artigo, assim como no anterior, de forma mais acentuada, WP faz assertivas duvidosas, até sob os números oficiais do SIAF, IPEA e BNDES que, se em anúncios para a patuléia dizem uma coisa, sob atento olhar e análises nos mostram outras.

Aliás, não é sem a análise destes números que tenho feito os contrapontos a este ufanismo mentiroso que faz com que dêem como certo, o errado.

Neste artigo, WP tenrta colocar quem faz críticas, por exemplo ao PAC, como Algozes do Povo, que não fariam nada que trouxesse bem estar à população. Omite assim, que a nossas crítica é justamenbte oposta. Eu posso afirmar, e mesmo não sendo engenheiro ou gestor público, possogarantir que dava para construir o dobro de casas, com o mesmo dinheiro, caso o PAC não tivesse sido entregue á iniciativa privada, como está sendo.

Em cada área que WP quiser discutir, não com eslogans vazios, mas com dados conretos, estou disposto a dialogar.

Abaixo, estou postando o comentário que fiz para o artigo passado de WP, mas que por, digamos, problemas operacionais, não pode sai a tempo.
.............................
Há cerca de ano, ano e meio, resolvi comentar cada artigo de WP, com dados, argumentos e posicionamentos políticos claros e transparentes, embasados em dados oficiais, infelizemnte lido por muito poucos.

De um tempo em diante, e comentei isso aqui, WP escrevia artigos, de certa forma, dando sequência como resposta a alguns comentários críticos, e não só os meus.

Mas, também escrevi sobre isso, é fato que nunca se referia aos dados e índices que fornecemos para embasar nossas contestações a estas bobajadas de "fortalecimento do Estado" - ele está mais do que sequestrado pelo Capital, agora em "joint ventures", entre outras baboseiras de propaganda eleitoral.

Mas, sinceramente, pessoa séria que sou, acho que WP agora exagera na forma cabotina de se recusar a, ao menos, contestar os extensos dados que fornecemos ao articulista, que me parece tão ignorante do que se passa no governo e suas contas, quanto qualquer pessoa sem acesso a estas informações.

Mesmo sem querer o privilégio de pautar o WP, creio que beira o escárnio o continuar do debate, sem claras respostas aos comentários críticos, sem aventurar-se a contestá-los com dados e fatos, tornando o debate um verdadeira Babel entre pessoass que lêem, ouvem e analisam, com um cego e surdo, sem na verdade o sê-lo.Sugiro portanto ao WP uma nova forma de interlocução com os leitores, nesse espaço democrático que é o Correio da Cidadania.

Este artigo de WP é, a meu ver, quase uma propaganda política , sem dados que a sustentem, como que a repetir 'mentiras' inistentemente, até que elas pareçam verdades...

De minha parte, terás um cri cri contumaz a estas suas artimanhas.
Citar
0 #2 politicabraz menezes 07-04-2010 05:18
parabens pela materia, esta turma que voce destacou que seculos não quiseram dar um pouco de chão e nem um pouco de dignidade para milhões, que o governo do PT começou a dar,
porque fazem politico da maxima de exploração possível, tentam desqualificar porque sabem, pt com Dilma, vai ampliar em muito o chão de dignidade para as maiorias, o que eles não querm de jeito nenhum
braz
Citar
0 #1 Redistribuição \"in left\"Ricardo 06-04-2010 09:17
Na retórica dos modernos \"in left\", soam bonito aos ouvidos dos seguidores da IURL- Igreja Universal do Reino de Lulla - o primeiro e o segundo parágrafos, mormente no período \"em especial porque tal programa é acompanhado por uma política constante de redistribuição de renda\". Corretíssimo, mas somente com um acréscimo: redistribuição (sempre ela)do Banco Central para o sistema financeiro e, por tabela, para os grandes investidores do nosso quintal e agora do vasto bom \"pasto\" mundial, aliás, como nunca na história deste país. Eleições vêm aí e nada como a variedade de estimulantes para a próxima brincadeira de apertar teclinhas.
Citar

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados