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Reacomodação no Mapa Mundi: as rachaduras no bloco ocidental Imprimir E-mail
Escrito por Raul Zibech   
Quarta, 31 de Março de 2010
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As ondas concêntricas formadas pela crise de epicentro nos EUA vão alcançando, com diferentes intensidades, cada região. Em alguns casos se trata apenas de marolas – como se gabara um ano atrás o presidente do Brasil – mas em outros essas ondas têm a potência de fortes maremotos, capazes de destruir velhas alianças e abrir o jogo a novos atores. A década que recém começa promete grandes mudanças, algumas das quais já se vislumbram.

 

O caso mais notório, no que todos os observadores concordam, é a vigorosa ascensão da China à única potência capaz de suplantar os EUA. Ao mesmo tempo, se sucedem outras mudanças menos visíveis, não tão contundentes, mas que representam ‘cargas de profundidade’ ao sistema de alianças no qual se assentou a hegemonia ocidental do último meio século, ou seja, desde que em 1945 terminou a segunda guerra mundial.

 

A Alemanha aprofunda seu distanciamento de Washington e se aproxima da Rússia; a Turquia faz o mesmo, e também se distancia de Israel e se aproxima da Síria e do Irã; o Japão entra em colisão com a política militar do Pentágono e estira a mão a China. Mais ainda: setores da União Européia pedem a entrada da Rússia na OTAN e o Brasil já tem um verdadeiro conflito com a Casa Branca. De acordo com todas as informações, é apenas o começo de um profundo rearranjo que não deixará nada em seu lugar. Um exemplo: o recente ataque especulativo dos hedge funds ao euro provocou uma crescente desconfiança dos europeus com Wall Street, a ponto de Alemanha e França cogitarem criar o Fundo Monetário Europeu.

 

A Turquia acorda *

 

Durante a guerra fria, a Turquia foi a principal aliada do ocidente no Oriente Médio (junto de Israel), cuja missão delegada e acatada consistia em conter a União Soviética. A presença militar estadunidense na Turquia sempre foi um elemento considerado estratégico pelo Pentágono. Esse papel deu início a um lento degelo desde que em 1989 se derrubou a União Soviética e desapareceram as ameaças provenientes do leste que mantiveram o país amarrado a Washington. Nos últimos meses, tal processo se acelerou a ponto de constituir "a mais profunda revisão efetuada por Ankara desde sua entrada na OTAN em 1952".

 

O ataque israelense à Faixa de Gaza em dezembro de 2008 foi, segundo o GEAB, o acontecimento que acelerou a mudança de orientação turca. Depois, veio a decisão de revogar a autorização à aviação israelense para realizar treinamentos no espaço aéreo turco. Em outubro de 2009, Ankara rechaçou a participação de Israel em manobras da OTAN e anunciou a realização de manobras conjuntas com a Síria.

 

Se o anterior significa uma mudança na contramão do que os EUA esperam de um aliado, as coisas foram mais longe ainda quando o primeiro ministro turco, Recep Erdogan, se definiu publicamente como amigo do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, selando a negativa em acompanhar as sanções ao Irã por conta de seu programa nuclear. As crescentes dificuldades para a entrada da Turquia na UE são outro ponto de fricção com os países ocidentais. As condições da UE para aceitar a adesão foram mal recebidas no país, tanto pelo governo como por uma opinião pública sensível a qualquer intromissão forasteira, já que vai se abrindo espaço para a percepção de que são rejeitados pelos europeus.

 

O último conflito se desatou no começo de março, quando a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes aprovou uma declaração que qualifica de "genocídio" os massacres de armênios durante o Império Otomano. A resolução irritou o governo turco porque, em sua opinião, demonstra que o governo estadunidense "não insistiu suficientemente" em seus esforços para impedir tal distinção. O ministro das Relações Exteriores turco, Ahmet Davutoglu, agregou que seu governo estava "extremamente afetado" (AFP, 5/3). Os armênios pressionam nos EUA para que sejam reconhecidos como "genocídio" os massacres e deportações nos quais mais de 1,5 milhão de armênios que perderam a vida entre 1915 e 1917. Por sua vez, a Turquia reconhece a morte de 300 000 a 500 000 pessoas, mas alega que não foram vítimas de uma campanha de extermínio, mas do caos dos últimos anos do Império Otomano. A polêmica está à mesa e a Casa Branca não poderá conformar ambos os lados, entretanto, Hillary Clinton assegurou que "trabalharemos muito duro" para evitar que o projeto chegue ao plenário da Câmara dos Representantes.

 

Essa virada da Turquia para fora do campo ocidental acontece enquanto governa um partido religioso, o AKP, e se debilita o poder dos militares, que sempre foram o setor mais pró-ocidental do país. Em fevereiro, foram detidos 67 militares do alto escalão, dos quais 31 foram enviados à prisão provisória, acusados de terem tramado um golpe de Estado em 2003, um ano depois de eleito o atual governo turco.

 

Alemanha e Japão

 

Em fins de fevereiro, o ministro alemão de relações exteriores, Guido Westervwelle, pediu aos EUA que retirem as armas nucleares que mantém neste país (Der Spiegel, 25/02). O ministro alemão seguiu os passos de Noruega, Bélgica, Holanda e Luxemburgo, que enviaram uma carta ao secretario geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, para que a próxima conferência do organismo discuta a desnuclearização da Europa.

 

A Alemanha abriga 20 dos 200 mísseis nucleares que o Pentágono possui estacionados na Europa. Ainda que Westerwelle venha solicitando há alguns meses uma medida de tal tipo, alguns analistas estimam que ele trata de utilizar o tema para sintonizar-se com uma opinião pública que há anos rejeita as armas nucleares e exige veementemente sua retirada. Seja como for, há dois fatos incontrastáveis: a Alemanha consolida sua autonomia dos EUA, algo que vem acontecendo desde que o chanceler Willy Brandt lançou no início da década de 70 a Ostpolitk para afirmar relações pacíficas com a União Soviética. Tal autonomia foi mais visível quando Alemanha, França e Rússia se negaram a acompanhar, no Conselho de Segurança da ONU, os EUA em sua escalada para invadir o Iraque em 2003. O segundo é a dura reação de Washington. Mais uma vez correspondeu à senhora Clinton chamar as coisas pelo nome: "Este mundo perigoso ainda precisa de dissuasão", disse, e pediu que "não haja nenhuma medida precipitada que a enterre".

 

Um passo mais estão dando Alemanha e França (ambos com governos conservadores) ao propor à Comissão Européia a criação do Fundo Monetário Europeu, como reação ao feroz ataque especulativo de Wall Street sobre a Grécia e a Espanha (Le Monde, 8/3). Foi o ministro da Fazenda alemão, Wolfgang Schäuble que vinculou o tema à estabilidade do euro, esclarecendo de modo muito significativo que "a zona do euro é capaz de solucionar seus problemas por conta própria", rechaçando a intervenção do FMI.

 

O contencioso entre EUA e Japão é mais recente, mas pode afetar toda a arquitetura da superpotência no Pacífico. Em 31 de agosto passado, o Partido Democrata bateu o Partido Liberal pela primeira vez em 55 anos. Washington perdeu um aliado, algo que foi visível quando o novo primeiro ministro, Yukio Hatoyama, encarou de forma diferente o velho litígio sobre as bases estadunidenses em Okinawa.

 

Até esse momento, vinha se negociando um acordo pelo qual se pudessem transferir parte das tropas da Ilha de Okinawa a Guam, e realocar a base em outra região da mesma ilha. Mesmo assim, o governo de Hatoyama pede, sem rodeios, que todas as tropas se retirem. A disputa foi esquentando quando vieram à luz, nesta última semana, informações que revelam que o Partido Liberal e os EUA tinham pactos secretos que violavam leis japonesas e enganaram a opinião pública.

 

Com efeito, a Constituição nipônica estabelece – como conseqüência das tragédias de Hiroshima e Nagasaki – os princípios de não possuir, não produzir e não permitir armas nucleares. Uma comissão especial do Ministério das Relações Exteriores acaba de difundir que houve acordos para que, por exemplo, os barcos estadunidenses com armamento nuclear pudessem entrar nos portos japoneses, já que nos anos 60 e 70 o governo manteve um programa nuclear secreto com os EUA, que permitia a estes transportar armamento atômico pelo território nacional sem necessidade de consulta prévia.

 

Brasil aumenta a crise

 

A profundidade da crise em curso debilita o papel dos EUA no mundo, a tal ponto que toda a rede de alianças tecida desde 1945 está fazendo barulho. Os ruídos se escutam nos rincões mais inesperados do planeta, e ainda que não tenham a envergadura dos três casos detalhados acima, merecem um acompanhamento para confirmar o crescimento da tensão nas relações internacionais. Quatro fatos recentes confirmam que vivemos em um mundo mais instável.

 

A recente visita do vice-presidente Joe Biden a Israel mostra um distanciamento sem precedentes entre ambos aliados. Biden viajou para conversar com Benjamin Netanyahu e convencê-lo a instalar uma mesa de negociações com os palestinos, já que Barack Obama considera a resolução do conflito no Oriente Médio a peça chave de seu objetivo de melhorar as relações com o mundo árabe. Mas Biden foi recebido com a notícia da construção de 1600 novas casas em Jerusalém leste. Em contrapartida, Lula conseguiu impactar em sua recente visita a Israel, quando não apenas se manteve firme em sua condenação a qualquer ataque ao Irã como se mostrou possível "ponte" no conflito, como assinala Pepe Escobar (Asia Times, 18/03).

 

Em que pese Biden e Netanyahu serem amigos há duas décadas, a Casa Branca considerou a notícia uma ofensa, a ponto de Obama tomá-la como insulto pessoal. A pequena vingança de Biden foi chegar uma hora e meia atrasado ao jantar com o primeiro ministro israelense. É improvável que as coisas vão mais longe, em vista da potência do lobby judeu nos EUA, mas no Congresso não são poucos os que acreditam que chegou a hora de reiniciar um "processo de punição" contra Israel (El País, 12/03).  

 

Em 8 de março quatro importantes personalidades alemãs publicaram uma carta aberta em vários veículos exigindo a entrada da Rússia na OTAN. Trata-se de Rühe Volker, ministro da Defesa de 1992 a 1998, o general aposentado Klaus Naumann, ex-presidente do Comitê Militar da OTAN, o embaixador Frank Elbe, diretor de Planejamento na chancelaria, e o vice-almirante e ex-diretor de Planejamento da Defesa, Ulrich Weisser. Estimam que a OTAN precisa da Rússia para resolver os problemas no Afeganistão e no Oriente Médio e também para garantir segurança energética (Der Spiegel, 8/3). Este posicionamento coletivo reforça a percepção da direção que estão tomando os interesses alemães e, por tabela, franceses.

 

Já as relações entre a China e os EUA não deixam de se deteriorar, por motivos militares, econômicos e políticos. Depois do questionado encontro entre Obama e o Dalai Lama, Washington anunciou a venda de um pacote de armas a Taiwan, avaliado em 6,4 bilhões de dólares, enquanto Pequim anunciava represálias às empresas envolvidas. Em todo caso, o mais significativo é uma reviravolta na política chinesa de compra de títulos do Tesouro estadunidense, que se traduz na venda de 45 bilhões de dólares de tais títulos nos últimos cinco meses.

 

O Diário do Povo, órgão do Partido Comunista, foi muito claro em sua edição de 24 de fevereiro. "A vultosa dívida e o déficit orçamentário do governo estadunidense só podem ser controlados com a emissão de dólares, o que levaria a desvalorização dos ativos denominados nessa moeda". Até fins de 2009, a China era o maior do dono de títulos norte-americanos, lugar agora ocupado pelo Japão. O periódico estima que com uma dívida de 90% do PIB e um déficit fiscal próximo dos 11% do PIB, os investidores estão "seqüestrados" pelo dólar. Para romper essa situação, "a China deve acelerar o caminho rumo à internacionalização da moeda chinesa, reduzir sua demanda de dólares e o coeficiente de dólares em seus superávits de pagamentos, para aliviar assim a crescente pressão econômica derivada da influência que exerce o desequilíbrio externo do país".

 

Por último, as relações entre a Casa Branca e o Brasil vêm se deteriorando mês a mês, como atesta a recente visita da senhora Clinton ao presidente Lula. Os pontos em disputa são muito variados e alguns estiveram em cartaz nos últimos meses: as sanções ao Irã, a reconstrução do Haiti, a democracia em Honduras, as bases na Colômbia e a disputa comercial. Lula foi muito claro e disse que impor sanções ao Irã pode ser prejudicial ao diálogo com o país e ainda defendeu o direito de qualquer país de enriquecer urânio a 20% como autoriza o Tratado de Não-Proliferação Nuclear.

 

Em todo caso, foi um dos assuntos mais espinhosos na agenda. O outro é a decisão do Brasil de aplicar sanções comerciais aos EUA em 560 milhões de dólares, por subsídios a seus produtores de algodão. O chanceler Celso Amorim disse que o Brasil prefere não entrar na via do contencioso legal, mas o país "não vai se curvar" ante nações mais fortes. A mensagem, no entanto, vai muito mais além: os EUA não estão em condições de impor sua vontade na região, que alguma vez foi seu quintal.

 

* "El despertar de Turquía: la progresiva salida del campo occidental", GEAB No. 39, del Laboratorio europeo de Anticipación Política, 17 de noviembre d 2009.

 

Raúl Zibechi, jornalista uruguaio, é professor e pesquisador da Multiversidad Franciscana de América Latina, e assessor de vários movimentos sociais. 

 

Traduzido por Gabriel Brito, jornalista, Correio da Cidadania.

 

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Última atualização em Qui, 01 de Abril de 2010
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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