Em busca de reconhecimento e identidade: A greve na Educação Pública no estado de São Paulo

 

Para que a mobilização atinja o êxito necessário, é fundamental a adesão massiva dos professores nesse processo. Naturalmente, ampliando o número de participantes que engrossa a fileira da paralisação, o governador José Serra e seu fiel amigo e secretário da Educação, Paulo Renato, não terão como continuar a saraivada de deboches irresponsáveis contra a categoria docente. Serra vem praticando o jogo do "faz-de-conta que não existe" com a greve dos professores do estado de São Paulo e se recusa peremptoriamente a negociar. Um cínico teste de resistência que o governo aplica para medir a capacidade de mobilização dos professores.

 

A grande participação dos professores na assembléia do dia 12 de março mostrou a face da indignação da categoria. É pertinente ressaltar que somente a mobilização dos professores e o esclarecimento da população sobre a pauta de reivindicação da categoria poderão garantir fôlego para continuar a manutenção da greve e sua crescente ampliação. Sublinha-se ainda que, muito além de uma óbvia reivindicação salarial, a luta urgente e inadiável deverá ser por um novo modelo de Educação Básica.

 

A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (SEE-SP), assim como o próprio governador Serra, zombam dos professores dizendo que a greve é "política" e realizada por um punhado de descontentes. Como se não fosse "político" o descaso irresponsável dos tucanos com a Educação. E como não ser "político" o ato natural de gritar pela sobrevivência? Como não é de causar estranheza o falso modelo de democratização da informação aonde toda a grande mídia vem apoiando as nefastas políticas neoliberais, estampando passivamente em seus jornais e noticiários televisivos a versão governamental sem os mínimos critérios que mereceria qualquer denominação vulgar de "jornalismo democrático". A deturpação esboçada em perdulárias campanhas publicitárias do governo falseia a realidade e logra a boa-fé e desinformação de números expressivos da população.

 

Obviamente, toda greve é profundamente política. Assim como todas as decisões dos atores sociais possuem raízes essencialmente políticas. Portanto, todo movimento político não é passível de terceirização ou de se tornar espectador das decisões na cômoda arquibancada. Cada professor é um militante nesta batalha pela dignidade profissional e auto-estima de sua própria condição humana.

 

Toda alienação permite a virulenta eclosão de espasmos ininterruptos de opressão, despotismo e barbárie. É muito fácil fingir a aneurisma profissional, incutir um olhar rasteiro para os lados ou recitar os velhos chavões da passividade irresponsável do inútil reacionarismo. A alienação engrossa a fileira da miséria humana. Enquanto muitos professores, de forma ingênua ou resignada, acreditam que seja "normal" trabalhar em condições subumanas, de violência cotidiana e precariedade alarmante com uma remuneração cada vez mais irrisória e defasada, o sistema educacional sistematicamente gangrena e apodrece. Para o professor que se julga "profissional", cabe participar do cenário de decisões sobre duas distintas saídas: submeter-se à ordem da calamidade educacional patrocinada há anos por sucessivas gestões acéfalas do PSDB ou lutar por reconhecimento de sua própria identidade e sua condição de existência.

 

Um movimento grevista não é o fim, mas tão somente um meio de lutar pela construção de um espaço reivindicatório de sobrevivência diante da arbitrariedade. Infelizmente, diante do impasse promovido pelos governos do PSDB e a notória falta de compromisso histórico com a Educação pública no estado de São Paulo, não há outro meio de pressão democrático, digno e persuasivo a não ser a continuidade da greve. Uma greve cujo objetivo é a sobrevida da categoria docente em prol de um novo modelo educacional. Sem direito a recuos ou desistências, a ordem é a ampliação do poder transformador que somente a mobilização popular pode construir no interior de qualquer sociedade.

 

Wellington Fontes Menezes é professor da rede pública.

 

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Comentários   

0 #4 os invisiveisizaias 28-03-2010 19:01
Vamos Continuar Como Invisíveis Para o Governo do Estado de São Paulo

Caro colegas!
Temos que cobrar do sindicato dos professores, da APEOSP, outra postura, não podemos ficar comparando o passado de 20 anos para cá, hoje é outra realidade, o sindicato esta caminhando contra-mão da categoria.
Será que não deu para perceber que a sociedade de hoje é imediatista e predatória (luta pela sobrevivência).
Não esta vendo que caímos no casuísmo, na descrença tanto perante a categoria quando alunos e pais, quere que cumprisse a penosa greve. Como ouvi de um colega vocês são pelegos e covardes vocês estão contente com a política da educação do governo Serra. Porque este colega não perguntou como esta a sua situação?
Numa democracia quem é o governo é o povo.
Primeiro temos que junto a APEOESP, a Categoria, outras entidades, alunos, pais, comunidades e outros até mesmos religiosos, pudéssemos cobrar dos nossos parlamentares, que faça a lei, faça o executivo cumpri-la.
O não cumprimento que causa uma infração diante do descaso com professores, alunos e pais e entidades, pela não cumprimento do direito para com o cidadão.
Vamos começar a construir, cobrar se já tem a lei, fazer valer!
Se o governo é o povo! Cadê nosso poder! Será que não somos capazes de fazer por onde reverter essa situação!
Sou a favor do ATO DE PROTESTO, não a penosa greve que se torna duradoura e cai no descrédito! Muitos para o oba! E outros para os sacrifícios.
Precisamos urgente rever! Pois, lidamos com vidas
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0 #3 pois éFilipe 26-03-2010 07:21
então, seguinte estamos tentando desgastar a imagem do serra, talvez essa seja o objetivo maior do sindicato, o que esta em segundo plano talvez seja nossa categoria

portanto o fato maior de assegurar nossos direitos é mantendo nossa postura grevista e rebelde
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0 #2 Faltou algoEzio Rocha 22-03-2010 09:42
O Nobre professor Wellington deveria, em seu excelente comentário crítico, salientar que se agreve fosse em outras épocas distantes de pleitos eleitorais, como já ouve e foi contestada, poderia receber um tratamento igual com adjetivos diferentes vindo deste governo PSDB (Maquiavélico) que imagina voltar ao poder e acabar de vez com o resto das estruturas sociais que ainda exitem e outras que estão surgindo de poucos tempos pra cá.
Nós, eleitores, de outros cantos deste imenso país acreditamos na força desses trabalhores paulistas ligados à educação, saúde e segurança pública. Do lado de cá, torcemos pela vitória de todos vocês para que o reflexo brilhe no restante do país, já que aí é o maior colégio eleitoral do Brasil.
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0 #1 Alessandro Santana 22-03-2010 08:54
Muito bom seu artigo, um oásis em meio a essa mídia podre, mentirosa e manipuladora que temos no Brasl. Estou envergonhado e enojado com nossa imprensa.
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