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CPI do Santander precisa focar roubo de aposentadorias e super-exploração Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito, da Redação   
Terça, 16 de Março de 2010
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Nos últimos dias, algumas pessoas se surpreenderam com a possibilidade de instauração de uma CPI da compra do Banespa pelo Banco Santander, a partir de requerimento já entregue pelo deputado federal pelo PTB Nelson Marquezelli. A CPI tem foco também voltado à criminosa sonegação de aposentadorias do banco privatizado em 2000. E se o sistema bancário goza de impunidade plena no país, é somente pela obstinada luta desses ex-trabalhadores que há alguma possibilidade de esclarecimentos acerca de algumas práticas da instituição em questão.

 

Por conta do contexto e levando em conta a recente aquisição do Banco Real pelo mesmo Santander, acentuando a concentração do setor, o Correio da Cidadania conversou com Vera Marchioni. Funcionária do Santander e integrante do Sindicato dos Bancários, ela nos conta que práticas nefastas do banco infernizam cada vez mais seus funcionários, acuados com uma rotina massacrante de trabalho e assédio moral para todos os gostos.

 

De acordo com Vera, a CPI é mais que oportuna, pois além de poder reparar o que o próprio Estado sabe que o banco deve aos trabalhadores, poderia jogar luz sobre a crescente exploração aos bancários trazida no bojo das fusões e aquisições recentes. Na entrevista que se segue, o leitor poderá conferir a extensa lista de práticas desumanas do Santander, o campeoníssimo quando se trata de trabalhadores adoecidos na Previdência Social e também de ações trabalhistas na justiça. Ao contrário do que diz em suas propagandas, muito longe de apresentar ‘soluções para você’.

 

Correio da Cidadania: Como viu a possibilidade de abertura de CPI da compra do Banespa pelo Santander em 2000? Que caminho espera ver as investigações tomarem?

 

Vera Marchioni: Primeiramente, há muito tempo os trabalhadores aposentados vêm buscando uma reparação ao que foi feito com eles, já que, para privatizar o Banespa, o governo disponibilizou 4 bilhões de reais em títulos públicos ‘carimbados’, ou seja, para pagar as aposentadorias dos admitidos no banco até abril de 1975. Até essa época, os trabalhadores tinham uma complementação, que ficava a cargo do Banespa ou da Secretaria da Fazenda do estado. Era uma obrigação do Estado pagá-las. Quando o banco foi privatizado, o governo federal repassou a obrigação ao comprador, o Santander.

 

O problema é que, em 2001, o Santander conseguiu desbloquear a quantia através de uma ação em Brasília, isto é, liberou para venda os 4 bilhões em títulos, o que o banco fez de fato. Ou seja, embolsou os 4 bilhões e começou a especular com esse dinheiro no mercado financeiro.

 

Paralelamente a isso, o banco, em sua política com os trabalhadores da ativa, fez um acordo de congelamento de salários. Conseqüentemente, acabou congelando também o provento dos aposentados. Estes tinham a receber o mesmo índice de correção que a categoria bancária tivesse. Como nós (Sindicato dos Bancários) fizemos um acordo separado com os trabalhadores do Santander, o banco entendeu que se aplicava também aos aposentados, o que lhes acarretou um prejuízo muito grande, resultando no congelamento.

 

Por outro lado, o Santander embolsou alguns bilhões. Foi uma economia enorme, pois eram 14 mil aposentados e os salários foram reduzidos em cerca de 50%. Ao longo da vida dessas pessoas, o lucro auferido pelo banco foi muito grande. A partir daí, começou uma luta enorme para forçar o governo a discutir como o banco poderia ter vendido aqueles títulos carimbados.

 

Os trabalhadores tinham direito e o governo federal repassou a verba para este fim. Posteriormente, o governo liberou os títulos, o Santander fez o congelamento e embolsou o dinheiro dos trabalhadores. É uma luta muito grande que fazemos, com idas e vindas no Senado, pois foi uma autorização de Brasília que liberou o desbloqueio dos títulos.

 

Agora, há essa briga toda por uma CPI, pois o Santander deve ser responsabilizado. O Santander deve esse dinheiro aos trabalhadores.

 

CC: Acha que os parlamentares levarão a proposta de CPI adiante e o Estado poderá enfim proporcionar a reparação do que o banco lhes tomou? É realmente palpável essa perspectiva?

 

VM: É um ano eleitoral, importante, e os trabalhadores vão continuar apostando na luta e na pressão para esclarecer todo o caso e obter a reparação; para fazer o Santander ser responsabilizado pela diferença dessas aposentadorias negadas aos 14 mil trabalhadores do Banespa, totalmente prejudicados pela posição que o banco tomou na utilização dos títulos.

 

CC: E o sindicato tem trabalhado em conjunto com a associação dos aposentados para lutar por tais reparações?

 

VM: Sim, o sindicato e a Associação dos Funcionários (hoje do Santander, mas originalmente do Banespa) têm lá dentro um grupo de aposentados que acompanha só essa questão em Brasília, como agora, formulando denúncias e buscando caminhos para que se alcance e instaure essa CPI.

 

CC: O banco continua demitindo?

 

VM: O Santander continua demitindo sim. No Banespa, na época da privatização, tínhamos cerca de 22 mil funcionários. Passados praticamente 10 anos, temos 3 mil. Uma parte se aposentou, mas a grande maioria foi demitida. E agora, na fusão com o Real, mais uma, as demissões continuam. É um banco que demite muito e usa muita rotatividade de mão-de-obra. É um banco em que temos muita dificuldade, muitas reclamações e que agora, para a infelicidade de seus funcionários, comprou o Real.

 

CC: Os funcionários têm queixas a respeito das condições de trabalho nos últimos tempos?

 

VM: Muitas queixas. Na verdade, como se viu na compra do Banespa e do Unibanco, acaba acontecendo muita demissão. O volume de trabalho se mantém, pois o banco absorve novas contas correntes, que é o que interessa a eles, soma clientes, mas a quantidade de trabalhadores fica muito menor para atender a toda essa clientela.

 

Perdemos cerca de 10 mil trabalhadores depois da compra do Banespa, temos também um enxugamento enorme no Real, que já faz a unificação de plataformas, de agências...

 

O banco nega, diz que fará contratações e aumentará o número de agências, mas sabemos que veremos mesmo é mais demissões. Ou seja, aumenta o número de clientes, diminui o de funcionários e as condições de trabalho se precarizam.

 

Depois, um monte de gente adoece, como podemos ver no Santander. É o banco que tem o maior número de trabalhadores afastados na Previdência Social, sendo grande parte por depressão, decorrente da pressão no local do trabalho.

 

Há uma demanda enorme dos clientes, metas a atingir, uma jornada que vai além do estabelecido, gerando todo esse adoecimento, além da tensão natural de assaltos a tais instituições.

 

CC: Em matéria do ano passado neste Correio, Edson Carneiro, também do Sindicato dos Bancários, nos disse que a situação dos funcionários atuais do Santander é realmente caso de saúde pública, tamanho o índice de adoecimentos. Quer dizer que depois da fusão com o Real o quadro só vem piorando?

 

VM: Só vem piorando. Por conta das condições de trabalho. Quando há fusão o que acontece é que se reduz o número de trabalhadores, aumenta a pressão de resultados, o acúmulo de serviços etc.

 

O Real tinha cerca de 30 mil trabalhadores; o Santander 22 mil, sendo bancos mais ou menos de mesmo porte, com o Santander um pouco abaixo. É uma instituição muito agressiva nessa área, que trabalha com um número bem reduzido de funcionários nas agências e departamentos, ficando difícil de comparar com outros bancos. Sendo dois bancos de mesmo porte, o Real tinha quase 10 mil funcionários a mais, o que mostra como o Santander trabalha no limite.

 

CC: É a super-exploração como estratégia deliberada, já que, num raciocínio lógico, a fusão com outro banco deveria estimular uma quantidade maior de funcionários para dar conta da demanda de serviços que aumenta.

 

VM: É. No sentido da pressão por produção no local de trabalho. Dissemos por aí no sistema financeiro que aquele que consegue trabalhar no Santander consegue dar conta do trabalho em qualquer outro banco. Porque as condições de trabalho são tão ruins e a pressão tão grande, que em qualquer outro lugar ele se sai bem.

 

Já o contrário, não se aplica. Vários funcionários convidados a trabalhar no Santander vindos de outros bancos chegam ao sindicato e dizem que, se soubessem como as coisas funcionavam, nunca teriam saído do emprego anterior.

 

Como os trabalhadores falam, a forma de trabalho do Santander é desumana.

 

CC: Qual é a jornada média dos funcionários?

 

VM: A maioria trabalha uma jornada de 8 horas. No Santander a reclamação é que, mesmo com ponto eletrônico e tudo mais, os funcionários são obrigados a permanecer no local de trabalho, passar o cartão e retornar às reuniões; de manhã, entrar primeiro na reunião e depois passar o cartão... São práticas comuns.

 

E o banco faz pressão, de mão de dupla, obrigando a trabalhar mais e ameaçando quem passar o cartão de ponto fora do horário com demissão por justa causa. Ou seja, ao mesmo tempo em que o funcionário é proibido de legalizar sua hora extra e trabalhar mais, é ameaçado de demissão.

 

CC: Assédio moral descarado.

 

VM: Ficamos entre a cruz e a espada, é uma pressão violenta. Se não fico para completar um serviço e não participo da reunião, sou cobrada. Se fico até mais tarde, passo o cartão no horário correspondente e alguém descobre, sou demitida.

 

Há uma ação no Ministério do Trabalho querendo regulamentar o ponto eletrônico, pois na verdade ele é burlado e vira pressão contra o próprio trabalhador.

 

É humanamente impossível cumprir as tarefas na jornada de trabalho oficial, mas também é proibido fazer hora extra.

 

É complicado. Os relatos de vários trabalhadores são muito tristes.

 

CC: Os funcionários têm se organizado para lutar na justiça ou realizar greves nos próximos tempos?

 

VM: O Santander é o campeão de ações na justiça do trabalho. É um número enorme de ações e, até por conta dessa questão dos aposentados e suas várias ações na justiça, o banco já provisionou mais de 1 bilhão de reais no balanço para pagamento de ações trabalhistas.

 

Dessa forma, como muitas vezes os trabalhadores não podem reclamar do assédio moral, da jornada, das condições de trabalho, acabam entrando com numerosas ações.

 

Há muita desigualdade salarial também, com gente sendo contratada para as mesmas funções, mas ganhando diferente; às vezes em cargos de nomes diferentes, mas para fazer a mesma coisa. Não existe política clara de RH, de ascensão, não há plano de carreira. E isso faz os trabalhadores buscarem muita reparação também. Por todo o conjunto, o Santander tem muitas e muitas ações na justiça.

 

Quanto aos trabalhadores, os do Santander são dos mais mobilizados, temos feito muita pressão em cima do banco. Desde a privatização, mantemos um complemento que tínhamos após assinar um acordo; com o Santander conseguimos manter alguns acordos em separado, que trazem alguns direitos a mais...

 

Temos feito bastante pressão, mas, no que se refere às condições de trabalho e outras questões correlatas, temos avançado muito pouco.

 

Não é fácil mobilizar os trabalhadores, pois há o medo de perder o emprego e não temos garantia de emprego no Brasil, dificultando a ação de qualquer sindicato. Mas creio que temos feito bastante mobilização, sendo possível chegar a alguma resposta. No entanto, não temos conseguido impedir o grande número de demissões que vêm ocorrendo.

 

Essas fusões, e a do Itaú com o Unibanco é a mesma coisa, como disse, significam mais demissões. O único caso que não seguiu o mesmo caminho foi na absorção da Nossa Caixa pelo Banco do Brasil. Felizmente, o governo federal e o movimento sindical chegaram a um acordo que até agora impediu demissões. Porém, nos outros casos, todas as fusões resultaram em demissões.

 

É difícil combater sozinhos, é preciso uma legislação de proteção ao emprego, contra a demissão imotivada. Os banqueiros não têm nenhum motivo pra demitir dessa forma, já que os clientes permanecem e tudo mais. As fusões poderiam trazer melhora no atendimento, mas só acontece o contrário. Reduzem agências, funcionários e criam mais transtornos a clientes e trabalhadores.

 

CC: Dessa forma, uma CPI só focada nas aposentadorias negadas pelo banco parece muito pouco diante do que poderia ser investigado nas práticas do sistema bancário.

 

VM: Seria muito oportuno, sem dúvida alguma, a CPI avançar pelas questões de condições de trabalho e também em outro ponto do qual pouco se fala nesse país: a remessa de lucros. O Santander comprou o Banespa e o Brasil passou a responder por mais de 20% do lucro mundial do banco. Ou seja, é o Brasil mandando dinheiro pra Espanha.

 

Quando o Santander fez abertura de capital aqui na Bolsa de São Paulo, recolheu 14 bilhões de reais, tendo sido enviados para a Espanha quase 7 bilhões. Não foi uma abertura de capital para ampliar a ação no país, melhorar, abrir mais agências; o objetivo foi apenas enviar dinheiro para Espanha, que está em crise.

 

Essa abertura feita ao mercado financeiro pelo Fernando Henrique foi um grande desastre para o país, em minha opinião. E por causa disso somos uma fábrica de lucros, de juros altíssimos. Essas instituições se financiam aqui com juros e à custa da população, para depois fazerem remessas de lucros ao exterior.

 

CC: Sem muitas contrapartidas...

 

VM: As contrapartidas são nulas. As condições de trabalho dos funcionários brasileiros do Santander são complicadíssimas. Por esse ponto de vista, era bom e importante a CPI trabalhar mesmo.

 

Essas mudanças todas dos últimos anos não trouxeram nenhuma novidade ao nosso sistema financeiro, como aquela conversa de que iríamos nos modernizar, os juros iam cair porque o problema era a falta de concorrência... Não foi nada disso.

 

Abriram o mercado aos bancos estrangeiros para fazerem pior que os bancos nacionais. E dificultar a nossa vida, pois vamos ao RH discutir e falam que o "problema é lá na Espanha", "o orçamento é lá na Espanha...", sempre se desculpando assim.

 

É melhor cobrar do patrão que você conhece. Aqui no Brasil é mais fácil pressionar o Itaú que o Santander.

 

Mesmo assim, temos ido cobrá-los na Espanha também e buscado alguma contrapartida. Não queremos ser trabalhadores de segunda categoria. Se lá eles têm garantia de emprego, também a exigimos aqui. Só que não é fácil.

 

Leia também matéria de 2009 a respeito do roubo das aposentadorias do ex-funcionários do Banespa

 

Gabriel Brito é jornalista.

 

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Última atualização em Sábado, 20 de Março de 2010
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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