Brasil e Estados Unidos: a visita de Hillary Clinton

 

O relacionamento entre Brasil e Estados Unidos mantém-se regular nos últimos anos, sem nenhuma altercação de monta. A razão básica para a cordialidade tem sido a entusiasmada manutenção das diretrizes econômicas, estruturadas ainda durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso.

 

Do ponto de vista comercial, houve a correta tentativa de diversificação dos parceiros comerciais no início da gestão Lula, porém limitada, em decorrência da especialização crescente do Brasil no agronegócio, a fim de cativar o mercado de certos países, em detrimento do seu setor manufaturado, cujo campo de atuação poderia estender-se mais à América do Sul e África.

 

No tocante aos Estados Unidos, a relação é estreita, próxima da com a China, apesar de um ou outro arrufo – cite-se a recente vitória do Brasil na Organização Mundial do Comércio, em vista da concessão indevida de auxílio do governo norte-americano ao setor algodoeiro.

 

Há poucos dias, a titular do Departamento de Estado, Hillary Clinton, esteve durante dois dias no Brasil, um dos cinco países visitados em sua excursão na América Latina – ao assumir um cargo no Executivo, faz-se oportuno consignar que o parlamentar estadunidense não pode meramente licenciar-se. A renúncia é obrigatória, o que auxilia a preservar o equilíbrio entre os três poderes.

 

Oficialmente, a pauta de Clinton no Brasil era ampla, mas, na prática, centrou-se no Irã, país com o qual Washington relaciona-se problematicamente desde 1979, quando houve a substituição da corrompida monarquia secular por uma teocracia islâmica, do ramo xiita. Em sua análise, o país caminha para tornar-se uma ditadura militar, por causa do crescente papel na política da Guarda Revolucionária Islâmica.

 

Constata-se de modo geral a ausência de divergências significativas bilateralmente, mas, no multilateral, há sim, em face da aspiração brasileira de assentar-se de maneira definitiva no Conselho de Segurança das Nações Unidas, local em que está mais uma vez temporariamente.

 

Os Estados Unidos desejam que o Conselho de Segurança estabeleça mais sanções ao Irã por causa do caráter aparentemente militar de sua política nuclear. De acordo com a Casa Branca, Teerã busca enriquecer o urânio acima do uso civil, em torno de 20%. Em tal posicionamento, acompanham-nos Grã-Bretanha, França e Rússia.

 

Por outro lado, a China, para a qual o Irã é o terceiro fornecedor de petróleo, recomenda um esforço maior nas negociações, antes de um enrijecimento nas Nações Unidas, posição compartilhada pelo Brasil.

 

De todo modo, o prazo para a definição de uma postura final de Brasília é a viagem de Lula em maio ao Irã. No entanto, não está cristalina a justificativa da posição brasileira concernente a isso – seria credenciar-se para mediar conflitos na região médio-oriental, com o fito de demonstrar a capacidade de atuação do país?

 

A dificuldade de Washington em granjear apoio político junto à América Latina em questões como a iraniana deriva da conservação das linhas gerais da política externa do governo Bush. Na campanha, os democratas haviam reconhecido o distanciamento norte-americano da região, ainda que temporariamente justificado em função da intensificação de esforços no combate ao terror.

 

Assim, ofertou-se a possibilidade de renovar o diálogo. Contudo, a postura da Casa Branca relativamente ao golpe de Estado em Honduras melindrou muitos países latino-americanos, diante da aceitação tácita de Washington, mesmo ad hoc, de uma ruptura institucional como o encaminhamento para a solução de conflitos políticos.

 

Desta maneira, a política externa estadunidense caminha para a ‘normalidade’ na região, termo caro aos conservadores para expressar acomodação de governos nos quais se manifestava a possibilidade de mudança quando da campanha eleitoral. Assim, mantém-se a mesma desconfiança dos anos anteriores por parte dos sul-americanos.

 

Um dos meios utilizados pelos republicanos para a quietação é dificultar a nomeação dos indicados às embaixadas e secretarias, ao adiar a sua sabatina. Em alguns casos, o Executivo recua e aponta nomes mais moderados, com o objetivo de conseguir a aprovação.

 

Às vezes, o atraso é meramente disposto como uma mensuração de poder entre os dois partidos, ao não direcionar-se diretamente ao nome apresentado. É o caso dos comissionamentos no Brasil, aprovado o nome de Thomas Shannon em dezembro último, e na Secretaria de Assuntos Hemisféricos (voltada para as Américas), autorizado o de Arturo Valenzuela em novembro do ano passado.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

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