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Apontamentos sobre Blade Runner (2) Imprimir E-mail
Escrito por Cassiano Terra Rodrigues   
Sábado, 06 de Março de 2010

 

Na última coluna, os apontamentos sobre Blade Runner levaram a questões sobre a nossa relação com a tecnologia e sua influência sobre nossas vidas e o mundo que estamos construindo. A reflexão sobre o conhecimento técnico sempre fez parte das especulações filosóficas humanas. O tema da utilização do conhecimento científico e tecnológico em particular é parte fundamental do período histórico convencionalmente chamado de modernidade que alguns autores demarcam como tendo início com o Iluminismo no século XVIII e que vem até os dias de hoje (Habermas, por exemplo).

 

Pode-se argumentar que a modernidade começa até antes, no Renascimento, por exemplo, com as idéias de pensadores como Descartes, Francis Bacon e Galileo Galilei. Uma crença constitutiva da modernidade seria a de que a humanidade conseguirá "analisar o mundo, adquirir um conhecimento seguro e utilizá-lo para criar uma sociedade justa", nas palavras de Wayne Morrison (Filosofia do Direito – dos gregos ao pós-modernismo, p. 16). Já a pós-modernidade pode ser definida, grosso modo, como a época da descrença total nesses ideais de bem-estar coletivo e auto-conscientização da humanidade. Blade Runner mostra essa descrença de maneira muito evidente, conforme tentaremos mostrar nos apontamentos a seguir.

 

Tema 3. Pós-Industrialismo e Capitalismo Avançado

 

Blade Runner é um filme saturado de tecnologia. Aparelhos high-tech de toda ordem aparecem quase em todas as cenas: potencializadores de fotografia, video-fones e grandes telões eletrônicos de publicidade (coisas já muito comuns hoje em dia), hovercrafts policiais super-potentes... Mas, ao contrário do que esperava a filosofia moderna, no filme, o avanço da técnica parece não ter nenhum poder libertador ou emancipador; antes, a presença ubíqua da tecnologia sugere sufocamento e dominação – um filme que usa muita tecnologia (não só nos efeitos especiais) para falar mal da tecnologia...

 

Por um lado, a tecnologia em Blade Runner é mais bem entendida relativamente ao que se denomina de "pós-industrialismo"; ela é a mola propulsora da sociedade pós-industrial, organizada segundo uma orientação de tipo informação+serviço. Por outro, porém, não podemos deixar de notar que Frederic Jameson discorda dessa interpretação pós-industrialista da tecnologia. Defendendo uma interpretação marxista mais tradicional, ele entende a tecnologia na pós-modernidade como o resultado do desenvolvimento do capital, que atinge, no capitalismo tardio da pós-modernidade, sua "mais pura forma", expandindo-se tão prodigiosamente a ponto de atingir áreas antes intocadas (Pós-modernismo – a lógica cultural do capitalismo tardio, p. 61). No filme, isso é mais que evidente – o capital "penetra e coloniza" tudo, o inconsciente humano, a natureza, tudo. A tecnologia das máquinas de reprodução (video-fones, telões, dirigíveis de propaganda etc.) tão evidente no filme, portanto, é "hipnótica e fascinante" por nos oferecer "uma forma de representar nosso entendimento de uma rede de poder e de controle que é ainda mais difícil de ser compreendida por nossas mentes e por nossa imaginação, a saber, toda a nova rede global descentrada do terceiro estágio do capital" (idem, p. 64).

 

O filme faz referências claras a importantes mudanças nos modos de produção predominantes e na organização do comércio segundo o sistema que já foi chamado de capitalismo de corporações "avançado" ((Mark Davis, Cidade de Quartzo – Escavando o futuro em Los Angeles). A gigantesca Tyrell Corporation é dominante em Blade Runner, lembrando as análises de David Harvey ("Flexible accumulation through urbanization: reflections on ‘Post-Modernism’ in the American city", em The Urban Experience) sobre o poder avassalador das corporações que, por meio da "acumulação flexível", conseguem determinar os padrões de consumo da sociedade pós-moderna em contraposição à produção de pequena escala, nitidamente presente no filme – onde Deckard vai buscar informações sobre a escama que encontra na banheira? Em outra cena, Zhora diz a Deckard: "Se eu pudesse comprar uma cobra de verdade, acha que ainda estaria aqui?". E no encontro entre Roy e o Dr. Tyrell, este diz àquele: "Você é o filho pródigo", antes de ser morto por ele.

 

Então, estão presentes no filme tanto a idéia de uma tecnologia "pós-industrial", força impulsionadora fundamental da sociedade, poder cego e arbitrário usado para aumentar o controle e a vigilância e que, no fim, volta-se contra seus criadores, como a da revolução tecnológica engendrada pelo estágio mais avançado do capitalismo multinacional pós-moderno – uma tecnologia "da produção e da reprodução do simulacro" (F. Jameson, Pós-modernismo, p. 63).

 

Tema 4. Simulacros

 

Os replicantes não são autômatos ou robôs simplesmente, mas simulacros perfeitos, com existência programada para ser efêmera. Cópias dos seres humanos têm vida curta e programada de no máximo quatro anos – o máximo em termos de consumismo. Paradoxalmente, os replicantes acabam se mostrando "mais humanos do que os humanos" (conforme as palavras do presidente da Tyrell Corporation): dada sua curta vida e sua ânsia de prolongá-la, acabam vivendo mais intensamente do que os próprios humanos, desenvolvem sentimentos, parecem amar mais a vida, dão mais valor à memória e à partilha das emoções.

 

Esse paradoxo nos faz pensar: o que foi feito dos valores humanos? Não nos resta mais nada além de máscaras, cópias e simulacros? Nietzsche dizia que a verdade nada mais é do que uma "moeda gasta", algo que não nos serve mais – será que nos resta ainda menos, meras cópias de moedas falsas? Além disso, os replicantes se tornam símbolos de um embate entre o humano e o não-humano, ou, de modo mais direto, entre o que é real e o que não é real, artificial ou virtual.

 

Mas o que é um simulacro? Essa é uma palavra antiga na história da filosofia. Em latim – simulacrum – foi usada para traduzir os termos platônicos eîdolon e, mais comumente, eîkon, que podem ambos ser traduzidos por "imagem" (ver, por exemplo, o diálogo de Platão chamado Sofista, 234a seq.). Um simulacro é uma imagem, reprodução ou cópia de um objeto qualquer ou idéia. Fredric Jameson define simulacro platonicamente como "cópia idêntica de algo cujo original jamais existiu" (Pós-Modernismo, p. 45).

 

De fato, com os replicantes, Blade Runner evidencia "a operação básica da pós-modernidade: a transformação da realidade em signo. Simulacro = signo" (Jair Ferreira dos Santos, O que é pós-moderno, p. 97). Ao contrário da realidade, o simulacro é maleável e moldável; a alteridade dura e irredutível do real é transformada em aparência estética fascinante, hipnótica e sedutora. A realidade dos simulacros é a hiper-realidade espetacular do mundo das mercadorias, que precisa parecer mais real do que o real, "mais humano do que o humano", para atrair a atenção e o dinheiro dos consumidores.

 

Tema 5. Consumo e pastiche

 

O conceito de "pastiche" é contrastado por Fredric Jameson com o de "paródia", em seu já citado livro Pós-modernismo. A paródia pós-moderna, para Jameson, foi substituída pelo pastiche e se tornou uma "paródia branca" sem qualquer mordacidade política: "O pastiche, assim como a paródia, é o imitar de um estilo único, peculiar ou idiossincrático, é o colocar de uma máscara lingüística, é falar em uma linguagem morta. Mas é uma prática neutralizada de tal imitação, sem nenhum dos motivos inconfessos da paródia, desprovida de riso". Se a paródia da modernidade era imitação satírica de um estilo único e individualizado (quando um escritor imitava outro, por exemplo), o pastiche pós-moderno é uma "estátua sem olhos" que transforma o estilo em código: somos deixados em um "reino de heterogeneidade estilística e discursiva sem norma" (p. 44), no qual tudo equivale a tudo e qualquer coisa pode ser trocada por qualquer outra coisa, assim como as mercadorias.

 

Dessa forma, as produções culturais pós-modernas se reduzem à "canibalização aleatória de todos os estilos do passado, o jogo aleatório de alusões estilísticas e, em geral, ao que Henry Lefebvre chamou de primazia crescente do ‘neo’" (p. 45). Nesse mundo de pastiche, perdemos nossa ligação com a história, que se vê transformada em um catálogo de estilos e gêneros suplantados, ou simulacros: "É de se esperar que a nova lógica espacial do simulacro tenha um efeito significativo sobre o que se costumava chamar de tempo histórico". Nessa situação, "o passado como ‘referente’ é gradualmente colocado entre parênteses e depois desaparece de vez, deixando apenas textos em nossas mãos" (p. 46). Agora, só conseguimos compreender o passado como uma "vasta coleção de imagens, um enorme simulacro fotográfico", "um museu imaginário de uma cultura que agora se tornou global", um repositório de gêneros, estilos e códigos prontos para se tornarem mercadorias.

 

Esse é o resultado do acelerado e intensificado consumo das sociedades pós-industriais, fazendo com que o capital se expanda para áreas antes imunes à lógica da mercadoria. Com essa transformação de tudo em mercadoria, os produtores são impelidos a varrer o passado buscando re-atualizar o que vender – vejam-se as ondas retrôs. Em um mundo em que a inovação estilística não é mais possível, tudo que sobra é imitar estilos mortos, falar por máscaras e com as vozes dos estilos no museu imaginário.

 

Em Blade Runner, esse consumo de pastiche é retratado de maneira mais evidente na mixórdia de designs arquitetônicos e signos da paisagem urbana – o que levou Giuliana Bruno a chamar a Los Angeles do filme de "cidade pastiche" ("Ramble City: postmodernism and Blade Runner"). O mesmo se dá com, por exemplo, a indumentária de Rachael: nitidamente eclética, mescla o estilo da "utilidade" dos anos de 1940 com o da "era espacial" dos anos de 1960; e ainda o bar "retrô" em que Deckard encontra Zhora, com suas luzes características e seu número de strip-tease. No filme, até a memória se torna mercadoria: memórias implantadas em andróides, fotografias fabricadas, tudo é uma questão de comércio, como bem lembra o Dr. Eldon Tyrell (não por acaso, a fotografia analisada por Deckard parece um quadro de Edward Hopper).

 

Nesse mundo de consumo irrefreável e esfacelamento das identidades pessoais, o progresso, no sentido moderno de aperfeiçoamento e melhoramento das coisas em nome do conforto social humano, perde todo sentido. O sonho de uma cidade perfeita – a "Nova Atlântida" de Francis Bacon ou a nossa Brasília – desfaz-se entre torres flamejantes, propaganda ostensiva e uma opressiva nuvem de smog que tapa todo o céu da cidade.

 

Temas para a próxima coluna.

 

Cordiais saudações.

* * *

ARTE, CONSUMO E PASTICHE: podem ser relacionados de várias maneiras, inclusive de maneiras inteligentes. É o que poderá ser visto na exposição de Andy Wahrol, a chegar à Pinacoteca do Estado de São Paulo, em março. Aguardemos.

 

FESTIVAL: do documentário musical - In Edit Brasil. Dias 20 e 21 de março, no Auditório do Ibirapuera, uma programação com 6 deliciosos documentários de temática musical. Trata-se de mostra competitiva, cujo vencedor concorrerá no In Edit.Beefeater de Barcelona, festival desde 2003 dedicado a documentários musicais. Sobre o In Edit-Brasil: http://www.auditorioibirapuera.com.br/detalhe_eventos.aspx?id=481. Sobre In Edit Internacional: http://www.in-edit.beefeater.es/webapp/home

 

Para ler a primeira parte da seqüência de artigos sobre Blade Runner, clique aqui

 

Cassiano Terra Rodrigues é professor de Filosofia na PUC-SP e como bom pós-moderno prefere, sempre que pode, consumir arte – com todo respeito e deferência às outras mercadorias...

 

Última atualização em Terça, 09 de Março de 2010
 
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