Lula e o Estado Novo de Vargas

 

Não deixa de ser interessante que os críticos do governo Lula enxerguem nele a incorporação das principais forças políticas e econômicas do país, incluindo o agronegócio, o sindicalismo, o monetarismo, o desenvolvimentismo, o capital produtivo e o capital financeiro. O falecido Stanislaw Ponte Preta se deliciaria com esse samba-enredo, cheio de forças ocultas e fantasmas.

 

De imediato, caberia uma pergunta: por que apenas figuras como José Sarney, Jader Barbalho, Romero Jucá e Geddel Oliveira são vistas como a junção de tudo o que se tem de pior na política? Suponhamos que o PT, como desejam alguns petistas desinformados, se aliasse a figuras tucanas como José Serra, Fernando Henrique Cardoso e Tasso Jereissati. Essas figuras representam, por acaso, algo melhor na política brasileira?

 

Se a medida para as alianças for esse algo pior ou algo melhor, será difícil aliar-se à maior parte das figuras políticas presentes no cenário político do país. No entanto, na política real, alianças não são feitas com amigos, mas com inimigos secundários, em torno de objetivos momentaneamente comuns, para isolar e/ou derrotar o inimigo principal.

 

Portanto, se quisermos mudar a lógica de funcionamento da política, de cara precisaremos colocar conteúdo social nos conceitos de figura, partido e Estado, apontando a que classes e interesses realmente serviram ou servem, quais seus objetivos presentes e com que força política realmente contam. É isso que realmente vale na construção da pauta política, qualquer que seja o objetivo de longo prazo.

 

Na falta de parâmetros sociais claros, os críticos divagam sobre alegorias. Para eles, na economia, Lula teria incorporado JK. Na política, teria incorporado Vargas e evocado seu Estado Novo. Da mesma forma que Vargas, Lula estaria trazendo para si tudo o que é vivo na sociedade, e formulando políticas para ela. Através de uma suposta crescente centralização do Estado, ele já teria força e carisma suficientes para absorver as representações corporativas de trabalhadores e empresários, e mediar seus interesses conflitantes.

 

Com isso, os críticos omitem a permanência de problemas estruturais na sociedade brasileira, problemas não resolvidos pelas modernizações conservadoras de Vargas, JK e do regime militar. Esquecem, ou escondem, que tais problemas foram agravados pelas políticas regressivas neoliberais dos governos dos anos 1990. E, ao invés de explicarem as semelhanças da política econômica do governo Lula com as políticas nacional-desenvolvimentistas anteriores justamente em virtude daquela permanência, preferem criar o mito da incorporação fantasmagórica.

 

Isso é ainda mais gritante quando comparam a ação política de Lula com a de Vargas durante o Estado Novo, um Estado ditatorial, tendo por suporte o latifúndio, a burguesia e o aparato militar, todos reacionários de forte viés fascistizante. A conciliação de classes, promovida por Vargas, combinava repressão e coerção policial-militar com concessões apenas econômicas aos trabalhadores urbanos.

 

Em outras palavras, por um lado Vargas possuía hegemonia sobre o latifúndio, a burguesia, parte dos trabalhadores urbanos e sobre o aparato estatal. Por outro lado, exercia uma dominação férrea sobre a sociedade, em especial sobre os trabalhadores urbanos e sobre os agregados dos latifúndios. Estes últimos não tinham acesso a qualquer direito. Combinando hegemonia e dominação, Vargas excluiu de sua cartilha os direitos políticos. A conciliação de classes do seu período foi imposta pelo aparato repressivo e coercitivo do Estado.

 

Desse modo, é preciso muita magia para evocar o Estado Novo dos anos 1930 e 1940 e fazer com que Lula incorpore o Vargas desse período. Lula não possui hegemonia sobre a burguesia nem sobre o agronegócio, que substituiu o latifúndio de velho tipo. Muito menos tem hegemonia sobre o aparato do Estado que, embora continue sendo o Estado patrimonial construído pelas classes dominantes, se vê constrangido a conviver com um sistema político liberal.

 

Nessas condições, Lula aumentou sua influência sobre os trabalhadores urbanos e rurais e sobre setores da pequena-burguesia, mas ainda é cedo para dizer que essa influência tenha se transformado em hegemonia. Apesar dos esforços persistentes da grande imprensa e de parte da intelectualidade para demonstrar que o PT e Lula querem liquidar com os direitos políticos, dominação não faz parte da cartilha política nem da prática de ambos, ao contrário de Vargas.

 

O Brasil jamais atravessou um período político democrático tão amplo e profundo, mesmo num contexto de forte disputa contra os setores políticos neoliberais das classes dominantes. A participação democrática tem sido ampliada, através da negativa de criminalizar os movimentos sociais e pelo estímulo à realização de conferências setoriais, em âmbito local, regional e nacional. O que tem isso de similar ao Estado Novo varguista? Nada.

 

Então, quando os críticos evocam o Estado Novo, e comparam Lula a Vargas daquele período, para concluir que ele se tornou o conciliador de classes, o que pretendem é associá-lo à burguesia e às tendências autoritárias desta. Em outras palavras, fingem atacar Lula pela esquerda, de modo a justificar sua adesão à direita demotucana.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

{moscomment}

Comentários   

0 #7 Victor Neves 12-08-2010 10:43
Caro Wladimir, quem tem comparado o governo Lula ao de Vargas tem sido o próprio Emir Sader, que certamente não pode ser reputado como oposição nem ao governo, nem ao PT.

Leia, dele, 'Brasil, de Getúlio a Lula', no livro 'Brasil, entre o passado e o futuro', recém-lançado, e a comparação está lá - e é uma comparação elogiando as semelhanças!

Abraço,

Victor.
Citar
0 #6 João Pedro 05-03-2010 14:22
O título atribuido ao meu comentário (5. Escrito por João Pedro em 04-03-2010 16:20 ) não é de minha autoria.

Se for necessário então é: "Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay"
Citar
0 #5 João Pedro 04-03-2010 14:20
Eu não tenho a menor dúvida que estamos trilhando um caminho que nos leva para o estado unitário.
Caminho aberto e mantido há mais de uma década.
Dois exemplos: a exagerada concentração da renda nacional nas mãos da União e a dívida dos Estados e Municípios com a União, lastreada em contratos desequilibrados, abusivos, draconianos e leoninos.
A União, por vias transversas, burla o dispositivo constitucional que estabelece que não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir a forma federativa de Estado.
Sem a menor dúvida, este caminho leva para a reinstalação do estado unitário que é o principal gerador de regimes totalitários, espetáculo onde se apresentam poucos atores e muitos, muitíssimos, espectadores.
O Brasil já trilhou este caminho quando foram abolidos os partidos políticos bem como, em nome das rivalidades regionais, os hinos, os escudos e as bandeiras dos Estados Federados.
A opção política pelo enfraquecimento da Federação Brasileira decorrente da atual concentração de poder na União é uma realidade insofismável e perigosa.
Citar
0 #4 Não dá p/ comparar, Lula traiu sua classcicero 04-03-2010 13:43
O Pomar, além dos erros nas caracterizações sobre o governo Lula, tentando justificar suas alianças com os velhos oligarcas (direita)da política, ainda escolhe uma comparação masi fácil para ele criticar: a comaparação do governo Lula com o Vargas do Estado Novo. Ora, nesse sem dúvida o viés militar e represivo de Vargas e notório, mas por exemplo, por que não comparou com o segundo governo Vargas, aquele período mais populista, que tinha apoio direto espontâneo e não forçado dos counistas, das suas burocracias sindicais, e conduzia sua política a favor da união do capital internacional e nacionais, com estas mesmas oligarquias e latifundiários, hoje agronegócio, que estão com Lula.
É bem mais parecido o gov. Lula com o segundo gov. Vargas, muito mais que com o primeiro (estadonovista), e essa simples evidência o Pomar também desviou, os motivos sabemos, faz o papel de critica interna para mostrar que o PT ainda é de esquerda e democrático (sic e sic).
Nem fala que o bolsa família custa nem 5% do que se paga de juros para os bancos! Bem menos que os R$ 30 Bilhões para comprar os aviões de Sarkozy. etc etc
Citar
0 #3 Inacreditável!!!!Alexandre Alves 04-03-2010 12:52
Como é possível ouvir tantos absurdos teóricos e elucubrações de alguém que se supõe intelectual. Em primeiro lugar todo o artigo parte do pressuposto de que se não fosse aliado do PMDB Lula seria aliado do PSDB. Por fim conclui que quem faz a crítica do governo pela esquerda adere ao PSDB, muito pior das acusações de Wladimir é fazer uma critica a esquerda para disfarçar sua adesão a um governo social-liberal com a participação de tudo que há de pior na política brasileira, o PMDB e setores do PSDB como Meireles que o nobre intelectual esquece de lembrar.
Citar
0 #2 LULA é um NEGOCIADOREDILSON LIMA 04-03-2010 12:41
È verdade q comparar Lula com Vargas, é comparar o computador com a maquina de escrever !!!! porisso esse artigo superou os limites da análise,,, porém,o governo Lula fez muitas coisas parecidas com Vargas no que tange ao Social, preservando certas diferenças, mas existe sim um certo assistencialismo, mas indo mais a fundo foi o que o LULA pôde fazer pois a comunidade política continua ainda presa a mesquinhez, ao conservadorismo e até mesmo ao entreguismo,,, é ainda muito forte essas ações no contexto brasileiro, infelizmente. Por exemplo, porque LULA não regulamentou a \"participação dos lucros\" das empresas pelos empregados ??? porque não pôde nem pode, a reação viria virulenta !!!! então LULA prefere criar e aumentar a bolsa familia para que esse dinheiro movimente a economia !!!!!É UM VIÉS !!!... É UMA NEGOCIAÇÃO SILENCIOSA MAS É !!!! E a reforma das leis agrárias, cadê ???? se bulir perde-se a governabilidade, e aí ??? Eu entendo que o Lula é um negociador e inteligente,,,,, se não pode de uma forma vai de outra !!!! mas ele é um socialista com certeza eis a grande diferença para Vargas,,, só q em uma sociedade altamente mercenária,individualista,capi talista, conservadôra como a nossa é impossivel implantar projetos socializantes através do congresso, e de outra forma se tentar A BARCA VIRA.....
Citar
0 #1 Em briga de jacu, nhambu não entraRaymundo Araujo Filho 04-03-2010 06:17
Vou me abster de comentar esta discussão entre Lullo petistas, que Wladimir Pomar faz neste seu novo artigo.

Apenas lembro ao nobre articulista que há um outro setor, além dos grupos políticos oligárquicos que, infelizmente nem ele e enem os Lullo Petistas que ele critica, sequer mencionam, ao menos como sujeito da Política, senão comomeros destinatários e alvos-objetos das polpitcas desenvolvidas (ao menos como desculpa, isso serve). Este setor chama-se POVO, muto maior e mais aguerido que os próceres da velha oligarquia e da nova oligarquia que o PT, sem dúvida está se constituindo hoje.

Outrossim, os dados que são divulgados,por quem sofre os efeitos da borduna (e não por quem bate, ou é governo) atestam que a matança no campo e a criminalização dos Movimentos Sociais, infelizmente, continam em voga, aqui no Brasil.
Citar

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados