Hegemonia, poder e alianças

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Os críticos do governo Lula consideram que as classes dominantes aceitaram ceder o discurso político aos dominados, desde que os fundamentos da dominação não fossem questionados. Neste sentido, segundo eles, Lula no poder estaria praticando uma hegemonia às avessas.

 

Esse tipo de interpretação do governo Lula contém duas assertivas explícitas (o PT teria conquistado a hegemonia na sociedade e teria assumido o Estado ou o poder) e uma implícita (Lula teria costurado um acordo com as classes dominantes para desconstruir a hegemonia petista, praticar o discurso político e não questionar os fundamentos da dominação).

 

Isto explicaria, ainda segundo os críticos, porque o governo Lula conseguiu alterar a rota do modelo econômico, mas não a lógica de funcionamento da política, deixando com que a concepção de Estado patrimonialista continuasse se sobrepondo à concepção de Estado republicano. Sua base política de sustentação teria trazido à tona as velhas práticas de autoritarismo, assistencialismo, clientelismo e corrupção, para atingir objetivos privados, tão comuns a figuras como José Sarney, Jader Barbalho, Romero Jucá, Geddel Oliveira e outros que, na história política brasileira, são vistos como a junção de tudo o que se tem de pior na política.

 

Nessas condições, a promessa de ruptura com as Repúblicas Velha e Nova, propiciada pelo surgimento do PT e de Lula na política nacional, não teria se efetivado. A ampla coalizão do governo, o pragmatismo e a incorporação ao governo das principais forças políticas e econômicas do país, incluindo agronegócio, sindicalismo, monetarismo, desenvolvimentismo, capital produtivo e capital financeiro, seriam a demonstração cabal da falta de cumprimento daquela promessa.

 

O problema principal dessa análise política do governo Lula consiste em que ela parte de premissas falsas. Primeiro, supõe que o PT teria conquistado a hegemonia na sociedade. Isto não corresponde à realidade de 2002, quando Lula chegou ao governo, nem agora, que Lula tem mais de 80% de aprovação nas pesquisas de opinião pública.

 

A hegemonia não pode ser confundida com uma preferência eleitoral momentânea, nem com a aprovação de ações governamentais e políticas. Hegemonia é um conceito que inclui um conjunto de valores ideológicos e políticos que criaram raízes na sociedade, e que podem perdurar mesmo após mudanças sociais de profundidade. Superioridade dos brancos sobre os negros e direito de ócio aos ricos eram valores hegemônicos na sociedade escravista que ainda continuaram presentes na sociedade capitalista atual. Esta, por outro lado, é marcada pela hegemonia de valores como propriedade privada, lucro, gorjeta, compra da força de trabalho, competição etc. etc.

 

Ou os críticos não sabem o que é hegemonia, ou criaram uma hegemonia petista artificial, para poder valorizar seus argumentos. O mesmo pode ser dito quanto à suposição de que o PT chegou ao Estado ou ao poder. O PT chegou apenas ao governo, uma parte ínfima do Estado. O aparato do Estado que pertence ao governo, como forças armadas, relações exteriores e segurança pública, é o mesmo das Repúblicas Velha e Nova. Não foi destruído, nem reformado.

 

O PT não tem maioria no Legislativo e, quanto ao Judiciário, não há o que dizer. A legislação brasileira, com todos os proclamados avanços da Constituição de 1988, continua um emaranhado de leis, decretos e portarias, montado para servir aos grandes e ricos, não aos pequenos e pobres. Um Tribunal de Contas acha-se no direito legal de paralisar obras estratégicas por suspeitas de corrupção ou fraudes. Qualquer funcionário de quarto ou quinto escalão pode barrar o andamento de processos importantes com base num item de uma lei ou portaria de governos anteriores.

 

Num contexto como esse, somente o delírio crítico poderia gerar idéias tão contraditórias quanto à promessa de ruptura e um acordo de Lula com as classes dominantes. A primeira para, através de um processo eleitoral, liquidar com o Estado patrimonialista e construir o Estado Republicano. A segunda para, através de mágica, desconstruir uma hegemonia inexistente, praticar um discurso político que não lhe pertence e não questionar os fundamentos da dominação da burguesia.

 

Os críticos confundem alianças táticas com capitulação de princípios. As classes dominantes brasileiras estavam divididas, como continuam ainda hoje, diante dos estragos do neoliberalismo. Tal divisão permitiu um acordo do PT com setores dissidentes daquelas classes, tendo como objeto a retomada do crescimento econômico. E foi esse acordo que permitiu as vitórias de Lula em 2002 e 2006. Acordos desse tipo são delitos na política de esquerda?

 

Por que constituiria uma desconstrução da hegemonia uma aliança para a conquista eleitoral de um governo central? Os críticos deveriam lembrar-se de que todas as vitórias dos de baixo, em todos os tempos, incluindo as revoluções socialistas e nacionais, como a revolução russa, de 1917, e a revolução cubana, de 1959, aproveitaram-se das divisões dos de cima e incluíram alianças com seus setores dissidentes. Até na Balaiada e na Cabanagem é possível constatar a participação de setores latifundiários dissidentes. Por que agora seria diferente?

 

Foi esse acordo, ou essa aliança, com alas dissidentes das classes dominantes, em relação aos efeitos da política neoliberal, que permitiu ao governo Lula alterar mais rapidamente a rota do modelo econômico, apesar das resistências ainda enquistadas no governo. No entanto, o acordo não incluía mudar a lógica de funcionamento da política. Embora esta seja uma questão a ser enfrentada, é ilusão supor que basta vontade política para colocá-la na pauta nacional.

 

Não é de hoje que, no Brasil, a concepção de Estado patrimonialista se sobrepôs à concepção de Estado republicano, mesmo republicano democrático-burguês. Para superar as práticas de autoritarismo, assistencialismo, clientelismo e corrupção, que marcam a história política brasileira, será necessário elaborar uma estratégia consistente de reforma do Estado, no sentido democrático popular. E para colocá-la em prática será preciso ter uma força social e política muito mais ampla do que a existente no momento.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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Comentários   

0 #5 Realidade x Desejos do quaseLuiz Motta 08-04-2010 23:42
Belíssima análise do artigo- Eu prefiro obter menos que desejaria agora e continuar criando as condições para ir obtendo cada vez mais e com Dilma em 2010 mais ainda do que ficar como a Esquerda Revolucionária querendo o impossível dentro da nossa realidade e daqui a cem anos ainda estará querendo o sonho inatingível sem ter dado um passo sequer e as pessoas continuariam na miséria , ou seja , falta pragmatismo aos lunáticos de nobres ideais

Semelhança - O serrágio ou a Dilma assim como Lula irão enfrentar um Brasil real com poderosas forças realmente dominando os poderes no País (Mídia PIG e o capital nacional+internacional representado democraticamente pelos partidos conservadores DEM/ARENA-PSDB-PTB-PP-PR-nanic os-boa parte do PMDB) sendo que serrágio nada na mesma direção destas forças e a tendência seria fortalecê-las ainda mais enquanto que a Dilma terá (para não ser afundada na 1a hora) que compor com parte destas forças para conseguir
aos poucos ir fortalecendo o Estado e em paralelo ir reduzindo as desigualdades sociais (esta velocidade poderia ser maior se não fosse a enorme resistência do PIG).

A mídia PIG é tão forte que consegue fazer a "Esquerda revolucionária" acreditar que ele (PIG) é contra o serrágio e a Marina e a favor da Dilma ... ou o PIG é competente demais ou o homem está totalmente cego e não quer ver a verdade de jeito nenhum ..

Diferença a favor do governo Lula e Dilma :
Classe média cresceu nos últimos 5 anos
Publicado em 07-Abr-2010
Mais um estudo atesta a vitória do governo Lula em sua política pela melhoria dos salários, da renda e diminuição das desigualdades em nosso país. Levantamento da financeira francesa Cetelem, do grupo BNP Paribas, indica que cerca de 30 milhões de brasileiros migraram da classe D para a C nos últimos cinco anos. Sim, a chamada classe média cresceu.

E mais: a migração se deu principalmente em 2009, ano da crise financeira internacional o que revela o quão acertadas foram as medidas anticíclicas adotadas pelo governo Lula. Apenas no ano passado, a classe média ampliou-se com a migração de 8 milhões de brasileiros das demais classes para ela. Assim, a classe média brasileira totaliza hoje 92,8 milhões de pessoas.

Como isso foi possível? Com o aumento concreto da renda média dos nossos trabalhadores. Em 2009, ela atingiu o recorde de R$ 1.285,00, impulsionada principalmente pelo crescimento dos ganhos das classes C e D/E. Somam-se a esse fator, as políticas de crédito do governo federal que levaram a um maior consumo no país.

Vejam vocês que as medidas anticíclicas adotadas pelo governo não apenas criaram 1 milhão de novos empregos em 2009, mas distribuíram renda, além de evitar a recessão e o desemprego, preservando a retomada do crescimento esse ano.

Outra boa notícia é que os brasileiros estão poupando mais depois da crise e a tendência é que isso permaneça - 76% dos entrevistados disseram que pretendem aumentar suas economias poupando. Segundo o diretor geral da Cetelem no Brasil, Marcos Etchegoyen "a crise teve um efeito educativo e o brasileiro voltou a poupar, tanto pelo aumento da renda quanto como uma forma de se precaver para uma eventual necessidade".
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0 #4 Pesadelo RecorrenteRaymundo Araujo Filho 25-02-2010 16:25
Acho que a maioria das pessoas já tiveram pesadelos recorrentes. Um muito comum, acho que principalmente em crianças e jovens (comigo foi assim)é aquele em que corremos, corremos...e não saímos do lugar, como se estivéssemos pregados ao chão.

Este artigo do Wladimir Pomar parece-me um destes pesadelos. E como todos sabem, pesadelos são ilusões. Só que muitas vezes, quando não assim identificados, passam a ser uma construção real em nosso dia a dia.

Em artigo anterior, WP nos menciona como "defensores de uma sociedade agrária". Freud já nos ensinou que o repúdio a certas teses e figuras, muitas vezs é apenas uma reação, identificando no OUTRO-OBJETO (Lacan), aquilo que já foi um "self", hoje repudiado pelo EU-SUJEITO. Não é de estranhar que pessoas que apoiaram o Agrarismo Albanês de Hevem Hoxa, hoje repudiem estas teses, a identificando erroneamente em seus opositores. Taí o Aldo Rebelo (PC do B) que não me deixa mentir...

Largando a psicanálise e quetais (tem gente que detesta cultura), Vamos ao Telão:

1) Lulla assumiu o Governo, não com o PT ganhando o Poder no país, mas sim com a Sociedade (muito maior do que o PT) ciente e embalada em um discurso francamente de Reformas Profundas na Economia e na Política. Até a Reforma Agrária estava consensuada, e o MST gozava de forte aceitação, após período de construção na Oposição a FHC. A Carta aos Brasileiros (na verdade aos estrangeiros) foi uma capitulação anunciada para o público interno (elites internacionais), pois a massa não foi informada sobre o que ela significava.

2) Lulla não mudou o rumo da economia, coisíssima nenhuma. TODOS os dados do SIAF e IBGE, além da análise do dinheiro emprestado pelo BNDES, além dos projetos de Privatização dos Gaseodutos, Petróleo (o presidente da AEPT - segundo ele mesmo - acaba de "descobrir" que os contratos do Petróleo deixam 50% nas mãos de quem se associou ao governo, entrando só com dinheiro), Estradas, Atendimenrto a Saúde e Seguridade Social, Hidrelétricas, Mineração, Segurança (até as Universidades Federais no Rio têm segurança tercirizada, de empresa de conhecido Senador), os subsídios e favorecimento ao Setor Financeiro e Industrial Oligopolizado, não me mostram isso. E nem o fato o atual montante da Dívida Externa (aquela que foi "paga") já estar em R$230 Bi, e a interna triplicada (rolada na ciranda financeira) em R$2Tri (= 70% do PIB).

O régio pagamento de R$200 Bi anuais de juros da dívida (7 vezes mais do que o orçamento da Saúde, 13 a mais da Educação e MIL vezes, repito MIL vezes o da Reforma Agrária)é outro dado que depõe contra esta fantasia do WPomar.

3) O Estado Forte e Lulla-Dilma-PT-PMDB nada mais é do um arranjo em "joint ventures" com corporações privadas para a sangria de nossas riquezas, exploração da mão de obra, e superfaturamento nas obras públicas, com empresários contratados.

4) Querer acabar com mecanismos de controle aos "excessos" do Executivo não é só anti republicano, como criminoso, ao meu ver. E, são funcionários do baixo escalão também, em contrapartida, que liberam obras como Belo Monte, pois ocupam cargos políticos e servem aos seus chefes, e não interesses públicos.

5)As Revoluções se fizeram "aproveitando as dissidências as classesa dominantes", é certo. Mas não se ALIANDO a elas, absorvendo o rebotalho dos defensores de uma sociedade injusta, além de muitos criminosos comuns, contaminando e redirecionando para acordos palacianos, as energias do que seria um bom governo.

6) Contra ser minoria congressual, dizem que um bom remédio é a politização do Povo e o estímulo para que se manifestem massivamente, e logrem conquistar um espaço legítimo, algo como transformar as Vozes da Rua, em Poder das Ruas. Mas, a Anestesia Social aplicada foi muito bem executada.

Por enquanto é isso.
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0 #3 Danilo de Santana Bezerra 24-02-2010 16:11
Nossa, quanto malabarismo! Dizer que Lula se aliou a setores dissidentes da classe dominante é risível. Ele se aliou, e atende, aos setores que se configuram como pilares da sociedad capitalista dependente. Atende como nunca os setores rentistas, aos especuladiores financeiros, e implementa uma política clara de apoio ao grande capital privado cada vez mais internacionalizado. O PAC nada mais nada menos é que isso, uma política de impulsinar o setor produtivo, sob a tutela de um setor cada vez mais internacionalizado da economia e completamente contaminado pela lógica finaceira de valorização. Lula vem transformando o Brasil numa plataforma de valorização financeira internacional, dando continuidade ao projeto iniciado de fato por FHC. Ou seja, ele não só não se alia a setores dissidentes, quando na verdade ele governa para os interesses hegemônicos do capital internacional, os interesses do capital financeiro.
Por não romper com esse padrão de submissão a dependência, manter intacto todos os aspectos essenciais da agenda do capital financeiro para o nosso país, é que Lula não tem condições de produzir uma mudança significativa no padrão de luta política no Brasil. O Brasil nunca permitiu que a classe trabalhadora entrasse em cena de forma autonoma na luta política, e no governo Lula se dá o mesmo. As concessões são todas tuteladas, de cima para baixo, e o que se pretende manter autônomo é criminalizado.

Fiqei estupefato com esse artigo, muita forçação de barra. Por essas e por outras que é necessário apresentar uma alternativa real de esquerda. Não vamos fazer coro com o projeto dos dominantes, nem enganar o povo com falsas ilusões. Frente de esquerda em 2010!
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0 #2 Boa análise de conjuntura políticaalvaro 24-02-2010 08:13
São boas análises como essa que têm permitido à classe trabalhadora avançar nas suas conquistas e tirar da miséria milhões de brasileiros e brasileiras.
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0 #1 Sonhar com os pés na terraAntônio Augusto 24-02-2010 06:10
Bom texto do Wladimir Pomar.

É natural que haja divergências em relação à totalidade do seu conteúdo.

Mas cumpre o papel meritório de retirar certas discussões do delírio e pô-las sobre a terra.
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