Estados Unidos: o primeiro ano de Obama

 

Ao completar o primeiro ano de mandato, as comparações entre a gestão de Barack Obama e a de seus predecessores, especialmente os vinculados ao Partido Democrata, são inevitáveis.

 

Ainda que pouco mais de doze meses de desempenho sejam escassos para avaliar uma administração, eles fornecem, no entanto, indicativos suficientes para identificar-se o norte adotado por um presidente.

 

No presente caso, verifica-se que a decepção ainda não superou totalmente a esperança, voltada, na mensagem democrata, para uma larga mudança, ou, ao menos, a tentativa de efetivá-la de maneira inexorável – excetuem-se, sem sombra de dúvida, os esforços direcionados para a aprovação de uma reforma na área de saúde, tema em que se debruça o seu partido de modo baldado desde Jimmy Carter.

 

Se positiva a opinião, cotejam-no com Franklin Roosevelt, em termos de reestruturação social em tempos de crise, ou com John Kennedy, em dinamismo e jovialidade; se negativa, com Lyndon Johnson, em termos de condução inepta de uma confrontação, ou com Jimmy Carter, em uma administração interna incapaz.

 

Na política externa, embora a apresentação se mostre distinta da do seu simplório predecessor, a execução não se alterou. Houve contatos iniciais com Irã, China, Rússia e Israel com o objetivo de distensionar determinadas questões, porém não se conseguiu a obtenção, até o momento, de um encaminhamento satisfatório para todos os envolvidos.

 

Ao eleitor americano, a sua primeira preocupação refere-se à política econômica, tendo em vista a preservação de seu emprego que traz consigo, em muitos casos, benefícios indiretos, como plano de saúde ou fundo de aposentadoria privado, por exemplo.

 

Ao chegar à Casa Branca, duas responsabilidades de porte assomaram no horizonte democrata: a econômica, em razão da falência de uma boa parte do segmento imobiliário e financeiro no final do mandato de Bush, e a externa, em vista das duas campanhas na região médio-oriental e cercanias.

 

Na primeira, ao longo do processo eleitoral, Obama manifestou a sua discordância no tocante ao teor da lei Gramm-Leach-Bliley, de novembro de 1999, que havia permitido desregulamentar o setor financeiro, ao revogar parcialmente uma legislação decorrente do primeiro mandato do presidente Franklin Roosevelt.

 

Naquele tempo, a contenção da cupidez do setor financeiro e o estímulo a obras de infra-estrutura proporcionariam aos democratas a vitória na eleição parlamentar de 1934.

 

Nos anos 30, o objetivo da Lei Glass-Steagall havia sido o de reduzir a especulação financeira, uma das responsáveis pela derrocada econômica de 1929. A partir de 1980, quando da ascensão neoconservadora nos Estados Unidos - sacramentada na eleição presidencial do final daquele mesmo ano -, o seu conteúdo foi sendo progressivamente desarticulado.

 

Quase duas décadas depois, as fusões de porte entre grupos de investimentos e de bancos foram novamente facultadas, o que propiciou a moldura para a crise de 2008, amenizada graças à boa disposição da Casa Branca em arcar com parte considerável do prejuízo – mais de 500 bilhões de dólares –, a fim de restringir os efeitos adversos.

 

Curiosamente, ambas as alterações ocorreram durante presidências democratas, na parte final de suas gestões.

 

No momento de uma derrocada financeira de porte, como a de 2008, os grãos sacerdotes neoliberais normalmente interrompem a idolatria de seu bezerro de ouro - o mercado – e direcionam, de maneira momentânea, porém fervorosa, as suas preces e, por conseguinte, a sua esperança ao Estado.

 

De forma quase miraculosa, este os atende, sendo-lhes o seu guardião protetor, a despeito do menosprezo sacerdotal a ele empenhado na maior parte do tempo.

 

Ao assumir o posto presidencial, Obama alterou à primeira vista o seu posicionamento de questionamento, ao convidar para integrar a área econômica antigos colaboradores de Clinton que, na época, haviam sido favoráveis à Lei Gramm. Entre eles, destaque-se Lawrence Summers, titular da Fazenda entre 1999 e 2001.

 

Na segunda, durante a campanha, Obama demonstrou a sua insatisfação relativamente não só às duas guerras, disseminada ao correr do processo eleitoral, mas ao tratamento jurídico dispensado aos prisioneiros, excluídos de modo arbitrário das convenções de Genebra por uma interpretação capciosa da área jurídica governamental.

 

A elucidação heterodoxa do status dos cativos afegãos e mais tarde iraquianos possibilitou às forças armadas a aplicação cotidiana de técnicas de interrogatório outrora consideradas abusivas, como afogamentos ou privação de sono, por exemplo.

 

Transcorrido 1\4 de sua administração, não há mudança de curso na política externa. Diante do presente quadro, a oposição republicana aproveita a inação administrativa em vários segmentos e acusa o governo de tibieza ante os grandes problemas.

 

Evoca como contraposição à inatividade democrata o dinamismo da gestão Reagan, a qual em seu primeiro semestre conjugou ações em que se reduziram os gastos sociais e ampliaram-se os militares, não obstante desfrutar de maioria – estreita – no Senado apenas.

 

Deste modo, a importância do primeiro ano de mandato de um administrador presidencial decorre da convergência política maior entre o eleito e o eleitor no tocante à materialização das expectativas compartilhadas entre si durante a campanha eleitoral.

 

Logo depois, o cotidiano de um homem de Estado à frente do poder consome-lhe desproporcionalmente a energia, mesmo a criativa, em vista da amplitude de tarefas a que deve se dedicar, ainda que boa parte delas de características comezinhas, como, por exemplo, cerimônias protocolares.

 

À medida que o tempo se esvai, há no dirigente uma transição na sua vontade política que se desloca da determinação original de governar diferentemente para a acomodação, isto é, de manter-se na mesma rota administrativa, a despeito de ela não ser a mais adequada para a maior parte da população.

 

É em tal processo que a oposição demonstra a sua capacidade de revigorar-se, ao espezinhar a quietação administrativa da situação. Nesse sentido, os republicanos tentam apresentar à população um quadro de incompetência dos democratas; na eleição legislativa do presente ano, poder-se-á constatar em que medida a população enxergará de maneira positiva a imagem contornada pela oposição.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

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