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O “Processo Imbecilizador” da educação em SP (4) Imprimir E-mail
Escrito por Wellington Fontes Menezes   
Qui, 18 de Fevereiro de 2010
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4. A emancipação humana contra a barbárie

 

"A liberdade não é mais que a afirmação de si mesmo".
(George W. Friedrich Hegel)

 

A lógica do capital é a sistemática usurpação da condição humana. No amálgama do capitalismo, a vida nada mais é do que um usufruto da exploração do trabalho alheio por parte das imperativas forças de produção. A educação pública inserida na lógica do mercado condiciona no aparelhamento da escola o patético papel de campos de concentração educacional, onde professores e demais funcionários desenvolvem papéis de feitores desta engrenagem de moer indivíduos.

 

A premissa é simples: rico paga, pobre pasta. Traduzindo a sintética sordidez capitalista à brasileira no âmbito educacional: quem tem melhor recurso econômico paga escola privada para seus filhos (fixado no inconsciente social onde as "privadas" gozam de melhor qualidade – e necessariamente não se trata de um fato realístico); quem não tem recurso aventura seu filho na escola pública!

 

A lógica liberal trata a educação pública como um entulho social perdulário, servindo apenas para adestrar alguns trabalhadores "mais capacitados" e descartando o refugo humano desnecessário para as esteiras de produção. Todavia, nenhuma sociedade que aufere para si o rótulo de "humanidade" deve aprisionar seus filhos em cubículos de concreto e espaços estéreis de desenvolvimento numa inútil jornada de tempo. Nesta orquestração do "processo imbecilizador" resta pateticamente aos professores a tarefa de manterem minimamente a ordem e servirem como sentinelas para guardar a inspeção do "período escolar".

 

É possível fazer uma pertinente analogia. A diferença entre professores da escola pública e agentes carcerários do sistema penal é que os primeiros ainda procuram se sustentar na ilusão da "quintessência docente" e, como um messias pedagógico, alheio à devastação à sua volta, buscará salvar algumas almas mediante seu toque de Midas. Já quanto aos segundos, suas supostas ilusões cessariam desde os primeiros momentos em que adentram as agruras do recinto do sistema penitenciário.

 

Sendo repetitivo ao ponto de não temer cansar o leitor: a educação pública e de qualidade não é e nunca foi uma prioridade de governo no Brasil. O resultado são anos de inchaço, ineficiência, sucateamento e condições precárias nas escolas públicas. Simplesmente, grande parte das escolas sobrevive do ponto de vista de sua logística pela mendicância de alguns gestores e professores mais apaixonados pelo seu ofício; ou simplesmente a unidade escolar é abandonada à sua própria sorte (e geralmente adotada pelos traficantes de droga locais). O caso do estado de São Paulo é exemplar, uma vez que se trata do principal pólo econômico do Brasil e América Latina.

 

Apenas com o intuito de exemplificar a assimetria de recursos e prioridade governamentais, há algumas semanas atrás, através do BNDES, foi liberado um aporte de recursos de R$ 1,2 bilhão para investimento apenas para uma única empresa transnacional de capital majoritariamente alemão, a Mercedes-Benz, a ser aplicado na fábrica situada na cidade paulista de São Bernardo. Claro, sempre o mote "politicamente correto" é a geração de empregos. Então vamos lá: no caso específico dos recursos para a Mercedes-Benz, a projeção será de gerar menos de dois mil empregos diretos (numericamente, um pouco mais de indivíduos que uma única unidade escolar)!

 

Mais uma vez, a Educação não é uma prioridade de investimento e tampouco de governo. Exceto por algumas linhas de crédito para encher bolso de empresários, cujo mote é a rapinagem imediatista do campo do Ensino Superior, não há uma única linha de crédito para a promoção da Educação Básica. O "S" do BNDES é "social" apenas na retórica da cabeça de seus gestores. A lição das "vozes racionalistas" do mercado que ecoam no governo é simples: para a economia, tudo é investimento (com o capitalismo calcado no erário da nação, claro!); para o social, o mero pragmatismo. Resultado: o desenvolvimento disforme, concentrador de renda e fôlego curto - exceto para os que acreditam que viver a labutar crédito em financeiras se endividando rigidamente é renda do trabalhador.

 

O burocrata que passa a trabalhar dentro da administração pública é geralmente formado em faculdades moldadas com currículos mimetizados em universidades estadunidenses, arrotam "business to business" e não entendem o desenvolvimento econômico como um processo intrinsecamente social. Já a classe política é um emaranhado de interesses e tentáculos corporativistas cuja ação se baseia na letargia administrativa, na lascívia sedutora da corrupção e nas tentações para as mazelas contra o patrimônio público, que são quase uma prioridade. Infelizmente, grande parte do que restou da chamada "esquerda" também sofre de uma amnésia sistêmica no que tange as propostas para Educação.

 

Em geral, em muitos discursos de uma esquerda "rósea" não é possível ver alguma luz no túnel de suas propostas ou programas para o campo da Educação, além de algumas triviais e inócuas retóricas ou irônicas ações mimetizadas de programas neoliberais (exemplo disto são os sete anos da gestão petista no Ministério da Educação, cujos avanços foram exaustivamente muito tímidos)!

 

Diante do deserto fratricida e sem vigor ao combate da sanha assassina dos programas neoliberais, a Educação Básica vem sendo paulatinamente corroída por políticas neoliberais cujo objetivo é o lixo do processo social, formando gerações de seres humanos desvalidos, desesperançados e fadados a se aprisionar no acúmulo de fardo humano, entre guetos, favelas e palafitas.

 

Refletindo e fazendo uma leitura livre do filósofo alemão Jürgens Habermas, até mesmo dentro de uma democracia estabilizada são necessários fortes debates e até uso da força para garantir direitos básicos aos cidadãos a fim de continuar pulsando o ideal de cidadania dentro do modelo capitalista (ou seja, uma "caricatura de cidadania"). No caso da semi-democracia brasileira, a situação é de extrema preocupação. Nesta esteira, é fundamental a ruptura com o processo de endogeneização da benevolência messiânica da tarefa docente para reconstruir um caminho de restauração da dignidade da profissão.

 

Culpar as mazelas do Poder Público é uma tarefa razoavelmente fácil, porém, sob o ponto de vista da ética, não é possível servir como instrumento do processo de articulação da barbárie por parte de irresponsáveis políticas neoliberais.

 

O que dignifica o ser humano não é o acúmulo narcíseo de bens materiais, mas a capacidade de suplantar obstáculos e melhorar a sua condição de mundo. Como assinala István Mézáros (2005): "[...] é necessário romper com a lógica do capital se quisermos contemplar a criação de uma alternativa educacional significativamente diferente". Uma escola que não tem como proposta edificante a emancipação humana estará inevitavelmente a ser apenas mais um esboço de um tétrico campo de concentração.

 

Neste ínterim, o resgate da profissão docente vai muito além da mera luta por miúdos centavos no holerite. O processo de construção do sujeito histórico está na raiz da intervenção que o homem faz dentro de sua arquitetura de mundo. Aproxima-se o dia em que o acúmulo de derrotas cria estafa e somente uma vitória valorosa poderá saciar a vontade de continuar vivo dentro do processo. O chamado para a batalha é o clamor para a própria sobrevivência.

 

Referências bibliográficas (reunião das quatro partes):

 

BOTTON, Allain de. Desejo de status. São Paulo: Rocco, 2005.

 

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Textos sobre educação e ensino. São Paulo: Centauro, 2004.

 

MÉSZAROS, István. A educação para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2005.

 

PLEKHANOV, Giorgui V. O papel do indivíduo na história. São Paulo: Expressão Popular, 2006.

Mais:

 

Clique aqui para ler a primeira parte

 

Clique aqui para ler a segunda parte

 

Clique aqui para ler a terceira parte

 

Wellington Fontes Menezes é professor da rede pública.

 

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