Benefícios da sociedade industrial

 

A construção de uma sociedade industrial, como se viu, não diz respeito apenas ao capital. Ela diz respeito também ao pólo oposto, aos trabalhadores assalariados que movimentam os meios de produção, assim como aos demais segmentos sociais do país. E diz respeito ainda à correlação política real de forças.

 

Sob o prisma do desenvolvimento das forças produtivas, isto é, dos meios de produção e da força de trabalho, a industrialização, e os investimentos nas grandes obras de infra-estrutura, indispensáveis àquele desenvolvimento, são ou não necessários para o desenvolvimento social e nacional?

 

Somente os adeptos do agrarismo e da sociedade utópica pós-industrial podem afirmar que elas são desnecessárias e que apenas beneficiam ao capital. Mesmo nos governos nacional-desenvolvimentistas de Vargas, JK e do regime militar, nos quais o desenvolvimento social foi relegado, na melhor das hipóteses, a um tópico indesejado da agenda política, o desenvolvimento econômico trouxe consigo o crescimento da classe de trabalhadores assalariados industriais, comerciais e rurais.

 

Dessa forma, o crescimento da sociedade industrial colocou em cena um ator econômico, social e político de primeira ordem. Um ator que se libertava do latifúndio dispersivo para subordinar-se à disciplina fabril do capital, mas de forma concentrada. Isso tudo sob uma relação de trabalho que lhe arrancava o véu do paternalismo, que até então o mantinha sob a suposição de trabalhar pela boa vontade do senhor de terras. O desenvolvimento industrial serviu para clarificar a situação de classe de grandes contingentes da população brasileira.

 

O salário mensal e outros "benefícios", conquistados por sucessivas gerações de assalariados, apresentavam-se como um progresso em relação à vida anterior de camponês agregado. Apesar disso, as ondas de migrantes rurais tornados trabalhadores industriais, tanto nos anos 1930 e 1940, quanto nos anos 1960 e 1970, se transformaram em ondas de combatentes trabalhistas. As primeiras, nas grandes greves operárias dos anos 1950 e início dos anos 1960. As segundas, nas greves e movimentos políticos dos anos 1970 e 1980.

 

Em outras palavras, na pior das hipóteses, o desenvolvimento industrial fornece o ator principal que pode modificá-la no futuro, à medida que o capitalismo demonstrar que esgotou seu papel histórico e deve ser substituído por uma nova formação econômica e social. O problema, como a experiência tem demonstrado em muitas partes do mundo e no Brasil, é que a história adora pregar peças nas utopias.

 

Revoluções anticapitalistas foram vitoriosas apenas em países em que o capitalismo era pouco desenvolvido. Essas revoluções construíram um novo Estado e fortes instrumentos de interferência na economia, como as empresas estatais. Porém, mesmo assim, alguns dos países que sobraram da segunda onda revolucionária do século 20 estão sendo obrigados a praticar economias socialistas de mercado.

 

A experiência demonstrou que a tese de Marx, sobre o surgimento e esgotamento histórico dos modos de produção, era uma lei natural a ser observada. Não é possível abolir as formas capitalistas de produção antes que elas esgotem seu papel histórico. Nessas condições, para desenvolver as forças produtivas, aqueles países socialistas estão se desenvolvendo com a participação de capitais estatais e privados, tanto nacionais quanto estrangeiros, num complexo processo de cooperação e conflito, em que o Estado tem papel orientador e disciplinador.

 

No Brasil, os anticapitalistas não acharam condições para revolucionar a sociedade, mas sim para galgar uma parte do Estado. Foram eleitos para a presidência da República, assim como para governos estaduais e municipais, numa situação política de divisão no seio da burguesia, em virtude da política neoliberal haver feito regredir o parque industrial e tecnológico do país e quebrado o papel do Estado como indutor econômico.

 

Para complicar, grande parte das empresas estatais havia sido privatizada, sob o argumento de que empresas estatais seriam ineficientes, idéia que se tornou senso comum em amplos setores da população. E o neoliberalismo também havia estendido a pobreza e a miséria a níveis desconhecidos dos períodos anteriores.

 

Num quadro como esse, supor que um governo, mesmo de viés revolucionário, possa romper com o sistema econômico e social vigente, ou mesmo redirecionar os investimentos apenas para programas sociais, não passa de um sonho. O que ele pode fazer, diferentemente dos governos tipicamente burgueses, consiste em ampliar a participação popular nos benefícios dos investimentos e desenvolver programas sociais que cresçam à medida que o desenvolvimento das forças produtivas ocorra.

Em outras palavras, ao invés de esperar o bolo crescer para depois dividir, velha promessa da burguesia, um governo popular ou socialista pode ir aumentando a participação popular no bolo à medida que ele cresça. Mas, uma das condições necessárias é que o bolo cresça e gere riqueza.

 

Se olharmos o que o governo Lula vem fazendo, apesar da composição pouco homogênea de seu governo, é justamente isso. No entanto, seus críticos consideram que, além de não significar qualquer ruptura com o status quo anterior, a chegada do PT ao Estado teria significado a desconstrução da hegemonia que havia conquistado na sociedade. O que nos remete da sociedade industrial para a sociedade política.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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Comentários   

0 #5 Vendo na prática o artigoLuiz Motta 15-04-2010 23:55
Excelente o artigo como todos os demais do Sr. Wladimir Pomar ... Para alguns que não querem enxergar ou entender o que didaticamente está colocado no artigo , segue abaixo dados recentes da nossa sociedade gerido pelo Governo Lula-Dilma-Coligação

Brasileiros comemoram recorde de geração de empregos- Principal causa parceria público-privada do Governo Lula-Dilma

Brasileiros comemoram nesta quinta-feira (15) o resultado do Cadastro Geral de Emprego e Desemprego (Caged) que mostra uma nova geração recorde de vagas formais no país em março e no primeiro trimestre. Segundo o Ministério do Trabalho, em março foram gerados mais de 266 mil empregos com carteira assinada, um recorde para o mês. Nos três primeiros meses do ano, o resultado também é o maior para toda a série histórica e houve a criação de 657,2 mil novos empregos com carteira assinada.

O Ministro Carlos Lupi prevê que vai passar dos 2 milhões em 2010.

Uma das causas é devido ao novo ciclo de crescimento criado no governo Lula-Dilma, pois o país passou a crescer e distribuir renda.

Acabou o que se ouvia a décadas “Estagnação e desigualdade"

Este crescimento da economia e do emprego só foi possível porque o governo federal soube fazer uma parceria com o setor privado.


Foi recuperado várias coisas, a capacidade do Estado em investir em infraestrutura, de buscar capacitação e sobretudo, transformar o Estado em parceiro do setor privado.
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0 #4 Não precisa explicar. Eu só queria entJoão Carlos Bezerra de Melo 03-03-2010 22:08
Dizia um antigo líder popular falecido em anos recentes que quando se precisa tecer considerações teóricas muito complexas sobre determinadas posições políticas alguma coisa está errada. Ou as posições políticas que se tenta justificar ou o discurso de quem as defende.
No caso específico do WP, ouso modestamente opinar que ambos, tese e argumento, estão rotundamente equivocados.
Evidentemente, neste espaço não vou e nem posso me aprofundar muito, na dimensão que o tema exige. Assim, vou me ater a dois pontos.
Em primeiro lugar, o ilustre articulista ladeou, ao que me parece, o efeito desmobilizador das massas e das suas instâncias de representação, que se verifica quando estruturas que se deveriam constituir em vanguarda das lutas populares pela mudança do modo de produção capitalista optam por táticas de recuo ou de conformação à hegemonia das forças políticas que representam o grande capital. Evidentemente, aqueles que ingressam na economia formal por meio da renda percebida dos programas assistencias compensatórios não podem compensar essa perda, pelo fato mesmo de que não estão aptos a assumir a liderança da luta dos rabalhadores. Precisarão de tempo para agingir esse estágio.

Em segundo lugar, o alvo estratégico que justificaria o caminho defendido por WP, qual seja o desenvolvimento do capitalismo industrial, deve ter, necessariamente, como pressuposto, a adoção de uma política macroeconômica que com ele seja compatível. Se passarmos a rebater a análise teórica sobre o plano real da economia brasileira, fácil é constar-se, por exemplo, que a política de câmbio sobrevalorizado seguida pelo Governo Lula e a fidelidade canina com que se cumpriu os postulados do Consenso de Washington, com relação à absoluta liberdade dos fluxos financeios têm aprofundado o processo de reprimarização da economia, já agora permitindo vislumbrar o risco de perigosa vulnerabilidade das contas externas do País, principalmente em um cenário em que não prevaleça liquidez internacional abundante e aquecimento dos preços das commodities. Em uma palavra, por esse caminho estaremos condenados ao retorno aos padrões de uma economia agrário-exportadora, vinculada a oligopólios financeiros nacionais e alienígenas.
João Carlos Bezerra de Melo
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0 #3 Sei não...Vitor 24-02-2010 16:07
Se são as necessidades que nos movem, certo será satisfazê-las. Portanto, temos que produzir para consumirmos. Nisto implica toda a problemática ambiental (seus limites e potencialidades).

O que eu não vejo como saída para os nossos impasses é uma espera do grito de liberdade dos trabalhadores, o momento em que eles estarão querendo mais. Não vejo saída é na espera. Eles já gritam. Não é preciso desenvolver mais necessidade para romper com esta organização social.

Condições sociais para a mudança é igual finanças de noivos... antes de casar nunca fecha. O alemão disse que as ações revolucionárias podem parecer economicamente insuficientes, mas se superam a si próprias no desenrolar do movimento. Eles gritam e temos condições.

Falta alguém legitimar. Falta condução. E o Lula não está fazendo isso.
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0 #2 aclaraçãopep valenzuela 19-02-2010 14:02
Gostei do artigo e concordo em grande medida. Só não consegui entender a conclusão. Gostaria se o Wladimir pudesse esclarecer o que significa concretamente a sentência com que conclui: "O que nos remete da sociedade industrial para a sociedade política". Obrigado.
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0 #1 Rasgando a FantasiaRaymundo Araujo Filho 19-02-2010 12:47
Há pouco mais de uma ano, venho comentando os artigos de Wladimir Pomar, aqui no Correio da Cidadania, e sendo gentilmente publicado pelos editores.

Com o tempo, embora ciente de minha desimportância política, vim notando que os artigos subsequentes de WP mantinham uma linha com os comentários sobre o anterior, sem grande denotação sobre isso, mas real, a meu ver.

Ano passado escrevi dois comentarios (talvez até para outros artigos) de nome "Sobre o que estamos falando" e "Qual é o Plano", onde eu tentava colocar os pingos nos iiis e, sem adjetivações, que os defensores da Plataforma da Composição de Classes, declarassem formalmente qual o Projeto que operavam ou apoiavam. Confesso que em alguns comentários meus recentes, quase, eu mesmo, descortinei o que já tinha certeza do que era este Plano. Mas preferi aguardar, para ler dos prórios este Rasgar das Fantasias Carnavalescas.

Hoje, finalmente, fomos brindados por Wladimir Pomar com esta perspectiva, a qual expõe muito bem e claramente Quel é o Plano, mas com o qual não posso concordar, e sinto-me obrigado a contestar publicamente.

Quer dizer, então, que o Plano é mesmo inserir o Brasil no mundo Capitalista (que erradamente, e em clara Confusão Programada, WP chama de Sociedade Industrial), para depois o Povo fazer a sua opção?

Quer dizer que o peixe que nos vende WP é exatamente igual ao que propunha o ocumento de Março de 58, onde o PCB abandobna formalmente a via revolucionária e se adequa ao projeto do Capitalismo Internacional?

A outra opção, seria querer impor ao Brasil a versão Tupiniquim do Pacto de Moncloa, tão elogiado pelo líder da "esquerda" petista Tarso Genro (o mesmo que operou a derrocada da esquerda conservadora, mas esquerda) do PT gaúcho, surrando Olívio Dutra?

No primeiro caso, sabemos o que se sucedeu. O PCB quase acabou (nas palavras de seu próprio atual sec. geral Ivan Pinheiro), além de ter instituído o que se conheceu como Luas Pretas, que assessoravam de Sarney presidente à Moreira Franco (governador do RJ). Assim, aliaram-se às perspectivas do Capital Internacional no Brasil, que lograram em derrotar vilmente as Forças Populares anos depois, instituindo a ditadura militar.

E no segundo caso, o do Pacto de Moncloa na Espanha, lembro de conversa que tive com meu amigo Waldemar Rossi, quando me descreveu seu diálogo com companheiros sindicalistas na Espanha, exatamente no ano do Pacto, onde, ao ser informado dos objetivos de aderirem ao Pacto Capitalista, visavam inserção da sociedade espanhola no "mundo moderno" (outra nomenclatura errada), para depois o Povo avançar para o Socialismo, pois estaria apropriado de cidadania e recursos para tal. O que Waldemar Rossi contestou, de forma radical dizendo "quer dizer que vocês dirão ao Povo para se inserir no capitalismo para DEPOIS dizer que o bom é o Socialismo? Não vai dar certo...

Waldemar também me conta que, um ano após, esteve novamente com os mesmos companheiros lá na Espanha e, em um honesto "mea culpa" eles disseram ao WRossi "Você tinha a razão. Só no primeiro ano, as Centrais Sindicais perderam 500 mil filiados". Daí para o que a Espanha é hoje, com seus 20% de desempregados, um grande abismo entre pobres e ricos e um dos maiores prostíbulos turísticos da Europa, não foi outra coisa do que o resultado do Pacto de Moncloa.

Se é isso que Wladimir Pomar pretende para o Brasil, respondo "Não, muito obrigado!", e ainda pergunto: Como é que as gerações futuras vão propor o Socialismo ou o Anti Capitalismo, se as gerações de agora se isentam de falar sobre isso? Não acredito em Geração Espontânea nem na Biologia e nem na Política.

Sobre Wladimir Pomar nos chamar de partidários do Agrarismo, escreverei artigo que esperando mais um pouco da generosidade dos editores do Correio em publicá-lo, ou postá-lo como comentário em outra oportunidade. O título será "Uma Outra Sociedade Industrial é Possível!".
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