Uma teoria do lixo

 

 

Li certa vez engraçada crônica de Luis Fernando Verissimo em que uma mulher e um homem, moradores solitários no mesmo andar de um prédio, encontram-se pela primeira vez no momento de jogar o lixo fora. E à medida que vão conversando, descobrem que já se conheciam bastante, pois ambos, anteriormente, viviam analisando o lixo um do outro.

 

Lixo, diz o cronista, é coletivo, domínio público, mas no lixo permanecem, como restos significativos, sinais de nossa vida particular: um telegrama amassado (más notícias, ou boas), pontas de cigarro (nervosismo), lenços de papel (tristeza... ou resfriado), poemas rasgados (frustração, perfeccionismo...), cascas de camarão (habilidade culinária)... Bem interpretados, esses restos configuram o nosso estado de alma, nossos problemas, nossas esperanças.

 

Uma teoria do lixo ajuda-nos a olhar com curiosidade e até com solene admiração o refugo, o entulho, os resíduos, os cacos, os farrapos, tudo aquilo que sobrou, sujou, quebrou, morreu. Mas no lixo ganha nova consistência. O contexto do lixo. O lixo exalando sopro de vida.

 

No lixo estão os nossos detritos, resultado de atritos, experiências. Estão as nossas fantasias superadas (talvez...), os nossos melhores momentos no teatro do mundo, o descartável que já foi tão importante, embalagens que trouxeram sonhos, sabores saboreados, texturas testadas, aromas transformados em cheiro de lixo.

 

Diga-me de que é feito seu lixo e lhe direi quem você é. Ou quem você não quer mais ser. Partes importantes de sua alma você transformou em lixo. Você classificou como odioso lixo coisas que um dia você chamou de luxo.

 

Leia o lixo próprio e alheio. Jornais de ontem que nem foram devidamente folheados, caixas de eletrodomésticos, comida desprezada, ex-coisas, ex-idéias, ex-projetos, até mesmo livros você verá no lixo. Algumas pessoas gostariam de transformar outras pessoas em lixo eterno. Do lixo, estranhos olhos nos olham. O lixo não quer morrer. Pede clemência. Pede ajuda. Pede uma nova chance.

 

Não grite “abaixo o lixo”. O lixo esconde tesouros, arte, histórias. Certa vez encontrei no lixo um crucifixo, o Cristo querendo ressuscitar. No lixo do escritor encontrei sufixos e prefixos abandonados. Trouxe-os para a minha casa e os acomodei nos meus textos.

 

Por vezes ouço alguém dizer... “hoje estou um lixo”. O lixo emocional acumulado dentro de nós. O lixo inconsciente que depositaram em nós. O lixo que nós mesmos escondemos debaixo do tapete da nossa consciência.

 

 

 

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.

Web Site: http://www.perisse.com.br

 

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