O chavismo em seu curto-circuito

0
0
0
s2sdefault

 

Em Porto Alegre, no mesmo palco onde participou há pouco do seminário que avalia os dez primeiros anos do Fórum Social Mundial, o sociólogo venezuelano Edgardo Lander concede agora uma entrevista sobre a crise em seu país. Ao ouvir a pergunta, o corpo que sustenta seu rosto tenso, de testa larga e pelos grisalhos, inquieta-se. Lander se remexe na poltrona para ficar ereto; emite um suspiro e começa a descrever, com detalhes e nuances, o que quase nunca aparece na mídia. Nem a oficial, que vê em Chávez um demônio a ser exorcizado, nem a de certa esquerda, que quase sempre trata o presidente como anjo redentor.

 

"O processo político venezuelano continua marcado por uma profunda esquizofrenia", pensa este professor da Universidade Central da Venezuela e membro do Conselho Latinoamericano de Ciências Sociais (Clacso). "A mobilização social desencadeada desde a posse de Chávez despertou da apatia as maiorias. Elas sentem-se donas do país. Milhões de pessoas, antes submissas, querem opinar. E o fazem, nos Conselhos Comunais, Comitês de Água, ou espaços abertos para debater as políticas de saúde e educação.

 

"No entanto, a mobilização foi desencadeada pelo Estado e dele depende fortemente", continua Lander, que também é um dos articuladores assíduos e inspirados dos Fóruns Sociais das Américas. Ele dá exemplos: "Os Conselhos Comunais, pedra de toque do novo processo político, costumavam encarar a sério todas as propostas de debate lançadas pelo presidente. Mas que fazer se, em meio a uma polêmica intensa, os integrantes de um Conselho ligam a tevê e vêem o presidente anunciar, garboso, que ya decidió a questão em que estavam mergulhados? Não é natural que se enxerguem como meros figurantes?", pergunta o sociólogo.

 

Segundo Lander, as várias crises que se entrecruzam na Venezuela de hoje estão relacionadas, para bem e para mal, com o caráter particular do chavismo. Ele apela à iniciativa dos de baixo para se contrapor ao conservadorismo das elites. Mas não quis ou não foi capaz, ao menos por enquanto, de libertar as maiorias também de seu grande líder… Por isso, produz ineficiência, acomodação e personalismo.

 

A crise energética, explica Lander, é um dos sintomas. Ela está se tornando a cada dia mais severa, não tem solução a curto prazo e provocará um apagão que poderá desorganizar a economia. As decisões serão tomadas em breve. Fala-se em cortes de energia que durarão quatro horas por dia, cinco vezes por semana – atingindo tanto as residências quanto todo o setor produtivo.

 

Há uma causa natural: uma seca prolongada, devastadora num país em que 70% da energia vêm de matriz hidrelétrica. A barragem da usina de Gúri, situada no rio Caroní (no sudesde do país), e responsável por mais da metade da eletricidade gerada, está perdendo 11 centímetros por dia. No início da semana, Chávez lançou um apelo de emergência a Lula, pedindo-lhe que especialistas brasileiros de alto nível sejam enviados à Venezuela para tentar encontrar saídas.

 

Mas num país com fontes hídricas abundantes, não se pode culpar apenas o clima. Assim como no Brasil da virada do século, as raízes do apagão estão também em ineficiência, incapacidade de planejamento, indigência administrativa. "Um dos desdobramentos da cultura personalista é julgar que, para dirigir bem uma empresa ou um setor da economia, basta compromisso político", diz Lander.

 

No terreno econômico, o segundo problema crucial da Venezuela é o risco de inflação e desabastecimento, provocados por uma alta até agora incontida do dólar. Em 8 de janeiro, a chamada "segunda-feira negra", o governo foi obrigado a abandonar uma política de câmbio fixo que mantinha, desde 2003, o dólar cotado a 2,15 bolívares – a moeda local.

 

A taxa era surreal. No mercado negro, o dinheiro norte-americano valia o dobro, e um volume cada vez maior de transações se fazia fora dos canais legais. A desvalorização foi de 100%: dólar a 4,30 bolívares. Abriu-se exceção para uma pequena cesta de produtos de primeira necessidade (como medicamentos) e compras governamentais, que se beneficiarão de um dólar a 2,60 bolívares. Numa economia que importa quase tudo, a tendência é inflação em disparada. A classe média foi às compras, provocando desabastecimento.

 

Para Lander, o chavismo repetiu os governos anteriores ao não enfrentar a enorme dependência do país em relação ao petróleo. Durante os anos em que o combustível disparou no mercado mundial, entraram tantos dólares que a Venezuela deu-se ao luxo de trazer tudo de fora. Mas como enfrentar, agora, um cenário em que se combinam racionamento de energia, desorganização econômica e inflação acelerada?

 

Lander vê o fulcro da crise venezuelana deslocado para as eleições parlamentares, que ocorrerão em setembro. A oposição, diz ele, já não comete os erros infantis em que incorria no passado, quando chegou a abandonar um pleito e ficar fora do Parlamento.

 

Agora, pensa a médio e longo prazo. Não tentará transformar os protestos das últimas semanas numa tentativa de golpe, como em 2002. Estará unida e articulada nos próximos meses. A depender da desorganização econômica, não se exclui a possibilidade de que seja maioria no Congresso. Nesse caso, o presidente estaria privado do controle quase monopólico do poder de Estado, no momento essencial para seu projeto político.

 

Como o chavismo reagirá, se esta possibilidade se concretizar? Para Lander, aqui estão a incógnita e, num certo sentido, a esperança. De um lado, imagina ele, haverá setores dispostos a desconhecer o resultado das urnas e a dizer que o "processo revolucionário" precisa avançar, a qualquer custo. De outro, e desde agora, há o caminho de uma retificação. Não significaria abrir mão de todos os avanços alcançados. Implicaria, porém, um poder menos personalista, mais aberto às divergências, à necessidade de alianças sociais e políticas. Na melhor hipótese, o chavismo reconheceria que, para continuar apoiando-se nas maiorias, precisa reconhecer que devem ser de fato autônomas.

 

O chamado "processo bolivariano" será capaz deste enorme passo adiante? Para Lander, desta grande questão, ainda em aberto, depende o futuro imediato da Venezuela.

 

Antonio Martins, Brunna Rosa e Rita Casaro.

 

{moscomment}

Comentários   

0 #1 Processos não linearesRaymundo Araujo Filho 05-02-2010 14:33
Existem várias maneiras de se abordar os processos de transformação de uma sociedade. Uma delas é a apartir de modelos teóricos, tentarmos engatar uma marcha linear e semnpre a frente dos fatos.

A outra é firmarmos pontos estratégicos a serrem enfrentados, no caso de Chávez a política Anti Imperialisrta e o fustigamento do Capitalismo como sistema são centrais

O ideal, se vivêssemos em um Mundfo de alice, seria coadunar as duas abordagens, gerando uma terceira, perfeitamente equalizada.

Todos abemos, inclusive o Chávez, dos problemas estruturais da Venezuela, tão bem apontadas pelo rof. Land.

Mas, creio que muitos percaços se antepõem a perfeita "solucionática" da equação venezuelana. Esta interposição nada mais é do que a luta política que pore lá se trava, ppois ao contrário do Brasil, e com todos os defeitos, incompreensões e insuficiências do Chávez, a sua diretriz é diametralmente oposta a de Lulla, por exemplo., que se contenta em vender o Brasil e suas riquezas em troca de políticas pseudo sociais, tortalmente adaptadas às necessidades evolucionistas do Capital (vide comentário ao artigo do Wladimir pomar, mais acima).

A Veneziuela que Chávez herdou tem 80% de sua população dispostas em poucas cidades do litoral, uma estrutura fundiária imperial, além de 50% deles de menores de 18 anos.

Chávez, além de impor o debate ideológico, em 10 anos de governo logrou reabilitar a auto estima venezuelana (antes um clone de Miami), reduziu considerralvemnte doenças epid~emicas, por exemplo a Tuberculose), aumentou o IDH de forma estupenda, mantém o salário mínimo com o maior poder de compra da AL (apesar da inflação), tirou o Petróleo das mãos das corporações, a ponto da Petrobrás ter abandonado a parceria na Bacia de Carabobo, em uma atitude puramente "técnica" (e não política, como a compra dos aviões franceses.

Na descentralização da dependência do Petróleo para a sua ecomnomia, creio que é demais exigir de um país com um processo como este em andamento, que queira se resolver isso, assim em uma década. É uma questão estrrutural secular.

É verdade que, a meu ver (a partir da jornada que por lá fiz, visitando a realidade da agricultura e pecuária de lá, por um mês), creio que ainda há incompreensões e insuficiências.

Uma delas é a dicotomia entre a opção entre a formatação de grandes projetos centralizados X disseminação de pequenas redes de produção, como grande atrativo para a interiorização de oportunidades de ocupação e renda. Creio que os aportes que Chávez recebe da EMBRAPA não o levam para este caminho descentralizado, além que ainda é preciso acumular força para o enfrentamento real das desigualdades e propriedade de terra na Venezuela.

Mas, em que se pese muitas outras questões que tenho, que Chávez cumnpre um papel importante na geopolítica atual, tendo sido ele com a sua coragem e ousadia, aqueçle que impediu que, nos últimos 10 anos, os EUA tomasse a região, formando um anel em torno da América do Sul,Central e Caribe.

Para começar acho que já está de bom tamanho.

Rsta saber se irá avançar mais modernamente na capilarização da transferência dos meios de produção para os trabalhadores. Mas isso é assunto que os venezuelanos decidirão, e sofrerão, eles mesmos as consequências.

Portanto, não me passa pela cabeça, nem de longe, não emprestar meu humilde apoio ao rocesso político que lá se desenrola, com os enfrentamentos necessários, em que se pese algumas visões minhas nem sempre totalmente concordantes com o varejo da política de lá.

O período Chávez, deixará marcas indeléveis e positivas ao povo venezuelano. E sem doar, ao contrário, resguardando as riquezas do país.

Bem ao contrário de Lulla.
Citar

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados