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Haiti: Comunicado das organizações populares Imprimir E-mail
Escrito por Movimentos sociais haitianos   
Segunda, 01 de Fevereiro de 2010
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"Honra e respeito à população de Porto Príncipe! Foi a extraordinária solidariedade manifestada pela população da região metropolitana que durante os três primeiros dias depois do terremoto respondeu com a auto-organização, construindo 450 campos de refugiados, que contribuiu para salvar milhares de pessoas, graças ao fato de partilharem de forma comunitária todos os recursos disponíveis (alimentos, água, roupas)".

 

O relato é do comunicado redigido por uma série de organizações populares do Haiti acerca da catástrofe que atingiu o país. As organizações declaram também sua "indignação frente à utilização da crise haitiana para justificar uma nova invasão norte-americana de 20 mil marines (...) não aceitamos que o nosso país seja transformado em uma base militar", afirmam elas.

 

Eis o comunicado em sua íntegra.

 

A todos os nossos aliados: 

 

No dia 12 de janeiro de 2010, um terremoto de enorme violência atingiu nosso país com conseqüências dramáticas para as populações de vários municípios dos Departamentos do Oeste, do Sudeste e do conjunto do país. Este terremoto de magnitude 7,3 na escala Richter e as perdas irreparáveis que provocou enlutaram nosso país, deixando dores insuportáveis. Este drama que nos afeta hoje é sem dúvida alguma um dos mais graves de nossa história e causa de um traumatismo profundo que marcará o século XXI haitiano.

 

Os balanços parciais até aqui tentam medianamente expressar uma realidade espantosa e indizível: o horror que vivemos juntos durante estes 35 segundos intermináveis que em 12 de janeiro deixou um pesado tributo de dores e de lágrimas. Mais de 150 mil mortos, 500 mil feridos, mais de um milhão sem teto, dezenas de milhares de amputados, mais de 300 mil pessoas refugiadas, mais de três milhões de seres devastados que, em um minuto, viram se transformar para sempre suas vidas, suas famílias e suas sociedades. Uma sociedade inteira traumatizada que vive no medo permanente de um possível novo terremoto.

 

Todas as nossas organizações foram profundamente sacudidas por este acontecimento. Perdemos familiares, companheiros de trabalho, crianças, jovens, profissionais cheios de promessas, de sonhos e de capacidades; edifícios, equipes, ferramentas de trabalho e uma documentação imensa baseada em mais de 30 anos de experiências coletivas com as organizações e as comunidades de base. As perdas são imensas e irreparáveis.

 

É indispensável, apesar da dor que todos e todas sentimos, refletir sobre o que acaba de acontecer e tirar dessa experiência trágica as lições e as orientações que nos permitam continuar com o nosso incansável trabalho de construção de outro país, capaz de vencer o ciclo de desgraça e dependência e de se colocar à altura dos sonhos de emancipação universal de seus fundadores e de todo o povo haitiano.

 

O tamanho do desastre está vinculado, sem dúvida alguma, à natureza do Estado em nosso país, uma herança histórica colonial e neocolonial, e a implementação das políticas neoliberais ao longo das últimas três décadas. A hipercentralização ao redor da ‘República de Porto Príncipe’ definida pela ocupação norte-americana de 1915 é sem dúvida um dos fatores determinantes. Em particular, a liberalização completa do mercado dos bens imobiliários abriu um espaço de especulação desenfreada aos aproveitadores de todo tipo.

 

Comove-nos profundamente a extraordinária solidariedade manifestada pela população da região metropolitana que durante os três primeiros dias depois do terremoto respondeu com a auto-organização, construindo 450 campos de refugiados que contribuíram para salvar milhares de pessoas, graças ao fato de que partilharam de forma comunitária todos os recursos disponíveis (alimentos, água, roupas). Honra e respeito à população de Porto Príncipe! Estes mecanismos espontâneos de solidariedade devem desempenhar um papel essencial no processo de reconstrução e de reconceituação do espaço nacional.

 

Enviamos esta carta a nossos colaboradores das diversas redes nacionais e internacionais, das quais fazemos parte, com o objetivo de informar sobre os passos que temos dado e sobre nossos objetivos a curto, médio e longo prazo.

 

Faz mais de uma semana que nosso grupo de organizações e de plataformas se reúne com freqüência, com o objetivo de fazer frente a esta nova situação, definindo novas estratégias e implementando novas maneiras de trabalhar. Assim, nós, os responsáveis das organizações e plataformas que assinamos esta carta, depois de vários encontros para analisar a nova situação e definir estratégias comuns, adotamos uma posição baseada nos seguintes eixos:

 

- Contribuir para preservar os principais êxitos dos movimentos sociais e populares haitianos ameaçados pela nova situação;

 

- Contribuir na resposta às necessidades urgentes da população organizando centros de serviços comunitários capazes de responder de forma adequada às seguintes necessidades: alimentação, atenção à saúde primária, assistência médica e psicológica em resposta aos traumas sofridos no momento do terremoto;

 

- Aproveitar o fato de que os grandes meios de comunicação olham nosso país para difundir uma imagem diferente da projetada pela forças imperialistas;

 

- Implementar novas formas de atuar que permitam superar a atomização e a dispersão que constituem uma das principais debilidades de nossas organizações. Este processo de aproximação deve se constituir com a estruturação de um espaço comum que possa acolher provisoriamente nossas seis equipes que continuam trabalhando de modo autônomo, uma vez que implementaram mecanismos permanentes de intercâmbios e de trabalhos mutualizados. Estaremos atentos em fazer prevalecer um enfoque coletivo na busca de respostas comuns a nossos problemas na construção de uma alternativa democrática popular, efetiva e viável.

 

Quanto à situação de urgência, estamos instalando centros de serviços. Um de nossos centros já implementado e em operação acolhe 300 pessoas que recebem comida duas vezes ao dia e estão protegidas sob tendas.

 

O centro oferece também consultas médicas e acompanhamento psicológico. Estes serviços são também proporcionados às pessoas que moram nos campos de refugiados na região. No centro da avenida Popupelard funciona graças ao apoio de profissionais haitianos (médicos, enfermeiros, psicólogos, trabalhadores sociais) apoiados por médicos alemães a organização de socorro Cabo Anamur. Tratamos de instalar centros similares em outros bairros da região metropolitana duramente afetada pelo terremoto,  nos quais não existe nenhuma oferta de serviços dessa natureza. Instalaremos quatro outros centros nos bairros de Carrefour, Martissant, Fontamara e Gressier. Contamos com a solidariedade de todos os nossos colaboradores para assegurarmos um funcionamento eficiente.

 

Ao mesmo tempo, nossas duas plataformas e quatro organizações instalaram um ponto focal de encontros e de coordenação no local de FIDES-Haïti. Estamos dispostos a acolher nesses espaços novas plataformas e organizações do movimento democrático popular.

 

Comprometemo-nos em mobilizar os diferentes componentes desse movimento para ampliar os esforços de socorro aos sobreviventes e, de outro lado, formular um plano comum para a reabilitação de nossas instituições e organizações. Apresentaremos esse plano e os projetos concretos que o acompanham brevemente.

 

A ajuda urgente da qual participamos é alternativa e temos a intenção de desenvolver um trabalho de denúncia das práticas tradicionais em matéria de intervenções humanitárias, as quais não respeitam a dignidade das vítimas e se inscrevem no marco de um processo de fortalecimento de nossa dependência. Lutamos por uma ajuda humanitária adaptada e respeitosa com a nossa cultura e nosso entorno, que não destrua as construções de economia solidária elaboradas há várias décadas pelas organizações de base com as quais trabalhamos.

 

Para terminar, queremos saudar a extraordinária generosidade da opinião pública mundial manifestada pelo drama que vivemos. Somos gratos e acreditamos que é o momento de construir um novo olhar sobre o nosso país, que permita construir uma solidariedade autêntica livre dos reflexos paternalistas de piedade e inferiorizarão.

 

Deveríamos trabalhar para manter esta vigorosa solidariedade para além da excitação midiática. A resposta à crise demonstra que em certas situações os povos do mundo são capazes de ir para além das leituras superficiais e estereotipadas de corte sensacionalista.

 

A ajuda humanitária massiva é hoje indispensável dada a amplitude da catástrofe, mas deve ser estruturante, articulando-se com uma visão diferente do processo de reconstrução. Deve romper com os paradigmas que dominam os circuitos tradicionais da ajuda internacional. Desejaríamos ver nascer brigadas internacionalistas de solidariedade que trabalhariam junto com as nossas organizações na luta pela realização de uma reforma agrária e de uma reforma territorial urbana integrada à luta contra o analfabetismo e para o repovoamento florestal, na edificação de novos sistemas educativos e de saúde universais, descentralizados e modernos.

 

Devemos também proclamar nossa cólera e nossa indignação frente à utilização da crise haitiana para justificar uma nova invasão de 20 mil marines norte-americanos. Denunciamos o que pode converter-se em uma nova ocupação militar, a terceira de nossa história por tropas norte-americanas. Inscreve-se obviamente na estratégia de remilitarização do Caribe no marco da resposta do imperialismo à rebelião crescente dos povos do continente frente à mundialização neoliberal.

 

Inscreve-se também em uma estratégia de guerra preventiva frente a uma insurreição eventual e social que viria de um povo esmagado pela miséria e que se encontra em uma situação de desespero. Denunciamos o modelo aplicado pelo governo norte-americano e a resposta militar frente a uma trágica crise humanitária.

 

Ao se apoderar do aeroporto Toussaint Louverture e de outras infra-estruturas estratégicas do país, privaram o povo haitiano de uma parte das contribuições que vinham do CARICOM, da Venezuela e de alguns países europeus. Denunciamos o método aplicado e não aceitamos que o nosso país seja transformado em uma base militar.

 

Nós, dirigentes das organizações e das plataformas iniciadoras dessa gestão, escrevemos-lhes hoje para transmitir nossa primeira análise da situação. Estamos convencidos de que vocês – como já têm demonstrado – continuarão acompanhando nosso trabalho e nossa luta no marco da construção de uma alternativa nacional, que será fonte do renascimento de nosso país, golpeado por uma catástrofe horrível e que lutará para sair do ciclo da dependência.

 

Porto Príncipe, 27 de janeiro de 2010.

 

Pelo Comitê de coordenação:

 

Sony Estéus - Diretor SAKS

Camille Chalmers - Diretor PAPDA   
Marie  Carmelle Fils-Aimé – Officier de Programme  ICKL   

Pelas organizações e plataformas que participam dessa iniciativa:    

Marc Arthur Fils-Aimé, Institut Culturel Karl Léveque (ICKL)

Maxime J. Rony, Programme alternatif de Justice (PAJ)

Sony Estéus, Sosyete Animasyon ak Kominikasyon Sosyal (SAKS)

Chenet Jean Baptiste, Institut de Technologie et d’animation (ITECA)

Antonal Mortimé

 

Plataforma de Organizações Haitianas de Direitos Humanos (POHDH) que agrupa: Justice et Paix (JILAP), Centre de recherches Sociales et de Formation pour le Développement (CRESFED), Groupe Assistance Juridique (GAJ), Institut Culturel Karl Léveque (ICKL), Programme pour une Alternative de Justice (PAJ), Sant Karl Lévèque (SKL), Réseau National de Défense des Droits Humains (RNDDH), Conférence haïtienne des Religieux (CORAL-CHR)

 

Camille Chalmers, Plataforma haitiana de Advocacia por Desenvolvimento Alternativo (PAPDA) que agrupa : Institut de Technologie et d’animation (ITECA), Solidarite Fanm Ayisyèn (SOFA), Centre de Recherches Actions pour le Développement (CRAD), Mouvaman Inite Ti Peyizan Latibonit (MITPA), Institut Culturel Karl Léveque (ICKL), Association Nationale des Agroprofessionnels Haïtiens (ANDAH).

 

A tradução é do Cepat, de Curitiba, Paraná.

 

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