Uso e abuso dos professores

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Li na Folha de S. Paulo, no dia 23 de janeiro de 2010, matéria assim intitulada: "SP admite ter de usar professor reprovado".

 

O verbo "usar" entra pelos olhos, assalta as mentes, espanca o coração, cai torto no estômago e nos faz mal.

 

O verbo "usar", bem conhecemos. Eu, você, todos nós usamos o verbo "usar". Usamos e abusamos. Faço uso desse verbo porque muitas coisas eu aprendi a usar.

 

Uso roupa, uso computador, uso escada para subir, uso papel para escrever, uso dinheiro para comprar, uso carro para me transportar, uso de tudo que é lícito para viver humanamente.

 

Usar não é errado quando uso e manipulo o que é usável e manipulável: objetos a meu dispor, simples ou complexos, caros ou baratos, de qualidade ou vagabundos.

 

Mas usar pessoas, isso não; isso é demais da conta. Usar pessoas, jamais! Usar alguém para escalar. Usar alguém para ganhar. Usar alguém para gozar. Usar alguém para vencer. Usar alguém é coisa que ninguém deveria fazer. Usar alguém não é do bem. Usar alguém faz mal, e faz mal aos dois: a quem é usado, e também àquele que usa!

 

Dirão, talvez, que entendi mal. Que o título da matéria não tem maldade. Que "usar" é assim mesmo, usamos sem pensar. Que temos aí um modo de escrever inofensivo. Que estou exagerando a força da palavra. Que estou usando mal a minha capacidade de ler o jornal. Que estou vendo coisas.

 

Contudo, lá está, a matéria diz: os professores reprovados serão usados. Usados, concluo, porque foram reprovados. E foram reprovados porque sempre foram usados. Porque têm sido objeto de uso e abuso.

 

O professor fez a prova e foi reprovado. O que será que essa prova provará? Será essa prova eliminatória ou "humilhatória"? O governo de São Paulo garante que o professor, mesmo reprovado, será usado. E ele, o professor, que já se habituou a ser usado faz tanto tempo, voltará a ser temporário. Por quanto tempo?

 

Usado e mal pago, de manhã, à tarde e à noite, o professor se sente manipulado como uma coisa. Sem aplauso, excluso, mero parafuso, o professor aceita ser usado.

 

E aqueles que, useiros e vezeiros em usar os professores, humilham o docente, provam, na verdade, que não sabem servir a sociedade. E se não vivem para servir, para que servem?

 

Gabriel Perissé é Doutor em Educação pela USP e escritor.

Website: http://www.perisse.com.br/

 

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Comentários   

0 #4 EducadoresFátima Saboya 16-02-2010 21:01
Enquanto somos distraídos para o uso do verbo usar esquecemos o principal da matéria: professores que já deram mostra de que não têm condições de ministrar aulas continuarão na mesma função. É essa a educação que os cidadãos merecem?
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0 #3 EDINALVA MEDEIROS 05-02-2010 12:57
Concordo plenamente com Gabriel Perissé. Enquanto a sociedade estiver achando normal usar professores, assistentes sociais e tantos outros profissionais mal remunerados e discriminados em nosso país, não conseguiremos ser classificados cmo cidadãos autênticos.
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0 #2 ERNANADES BOLSANELLO 03-02-2010 20:31
Caro Gabriel Perissé

O professor aprovado deve sentir-se honrado quando é usado para exercer sua função.
No caso de ser reprovado, é bem diferente,O normal seria não ser usado e sentir-se humilhado por falta de habilidade para exercer sua profissão.
Acredito sim, que o caro amigo Perissé tenha entendido mal o verbo usar e, faço votos que ele como brilhante professor, jamais deixe de seu usado para glória de seus alunos.
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0 #1 EducadoresElisângela 31-01-2010 15:12
Como professora, apesar de concordar com tudo isso, não me sinto vítima do processo, pois mesmo nos apropriando do conhecimento nos encontramos em situação semelhante a de todas as outas categorias de tabalhadores, neste sentido, admiro o MST. Para que nos servem tanto conhecimento?...
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