Guia politicamente raso da história do Brasil

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Já faz mais de um mês que chegou às livrarias de todo o país o Guia politicamente incorreto da história do Brasil. Antes disso, no entanto, eu já havia tido acesso a seu conteúdo e propósitos. E por que escrevo sobre ele somente agora? Por ter terminado de ler? É claro que não, não foram todos os capítulos que li até o fim, e por falta de tempo ou de estômago nunca consegui avançar mais de três ou quatro páginas numa tacada só.

 

Mas asseguro que li mais do que o suficiente para escrever algumas linhas a respeito. E o faço só agora porque foi agora que o livro chegou às listas de mais vendidos dos grandes jornais e revistas brasileiros, o que de certo modo me preocupa. A despeito da riqueza da forma, o conteúdo é bastante problemático. Vejamos por quê.

 

"Uma pequena coletânea de pesquisas históricas sérias [...] escolhidas com o objetivo de enfurecer um bom número de cidadãos" é o que promete o autor, Leandro Narloch, ex-repórter da revista Veja – e não poderia mesmo ter saído de outro lugar. Ele se autoproclama membro do que considera a "nova historiografia que ganha força no Brasil", que vai contra o "politicamente correto". Traduzo: trata-se de uma movimentação revisionista que busca dar respaldo a uma visão elitista de mundo e que engloba do caçador de livros didáticos "hereges" Ali Kamel ao pessoal que considera branda a ditadura que neste país prendeu, torturou e matou.

 

A provocação do autor até funciona, quem na vida aprendeu alguma coisa sobre história não tem mesmo como não ficar furioso. O que enfurece de verdade, no entanto, não são as posições em si, frágeis, mas o modo como são apresentadas. Não vou me estender muito, deixaria isso a cargo de historiadores ou jornalistas de verdade, caso eles levassem a sério tamanha petulância. Não vão, eu sei, então faço aqui as vezes de ao menos registrar o repúdio. E o faço como estudante militante de esquerda, deixo claro, porque não pretendo me esconder atrás de falsa imparcialidade. E me defendo de antemão: apesar de comunista, não como, nunca comi e nem pretendo comer criancinhas. Nem torturar pessoas inocentes ou fazer uma revolução que institua pela força um governo tirânico no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo.

 

A minha discordância com relação à obra eu tentarei apresentar brevemente, em linhas gerais, sem chavões ou pretensão de certezas. Narloch é do tipo que acredita em verdades absolutas. Para ele, existem os fatos históricos e as distorções. Os fatos, é claro, são aqueles que ele metafisicamente reconhece como tais. E as distorções seriam obras de comunistas sedentos de poder ou de esquerdistas de qualquer espécie. O que há entre nós é uma concepção diferente da história. Expliquemos.

 

Nós, seres humanos, vivenciamos os fatos e, a partir dos nossos sentidos (excetuando-se o sexto deles), captamos a realidade que concretamente a eles se apresenta. Quando colhemos sensações e passamos a interpretá-las, utilizamos os instrumentos de que dispomos, nossos valores, experiências etc. Eles funcionam como filtros, que invariavelmente fazem com que ao fim tenhamos uma versão dos fatos. Não somos "puros" e esse processo de aquisição de conhecimento não poderia resultar em nada além do que mera interpretação, que pode estar mais próxima do real de acordo com a maior abundância de instrumentos que o indivíduo tenha à sua disposição, bem como a vontade de empregá-los.

 

Narloch, em sua cruzada contra o que chama de "historiografia militante", se esquece de que somos todos portadores de uma ideologia, sistema de idéias que serve como bússola para que o indivíduo encontre seu espaço na sociedade. Os "apolíticos" e "apartidários", conscientemente ou não, agem de forma igualmente ideológica quando atacam os adeptos declarados de um projeto político. E o autor, ainda que não seja necessariamente fascista, é um jornalista de direita, mesmo que não admita. Talvez ele diga que essa divisão não mais existe, como faz a típica nova direita brasileira, pois sabe como soa mal defender bandeiras tão retrógradas em tempos em que a humanidade dispõe de tantos recursos para viver em plenitude, harmonia e igualdade. livro_guia_pol_hist_brasi_g.jpg

 

É verdade que, com a queda do muro de Berlim e a conseqüente dissolução da União Soviética, o senso comum da década de 1990 foi tomado pela idéia neoliberal absurda de fim da história e das ideologias, com vitória final e irreversível do capitalismo, que seria a ordem natural das coisas, contra o comunismo que atentaria contra a natureza do homem. Era a crença equivocada de que o ser humano havia deixado de ser humano. Mas, mesmo assim, a tentativa dos poderosos de contar a versão deles da história nunca vingou efetivamente no país, pois sempre contamos com a resistência de intelectuais comprometidos com uma visão que contemplasse a voz daqueles a quem é negado o direito de expressão, ainda que tivessem por isso de enfrentar os privilegiados e muitas vezes abrir mão de seus interesses individuais. Não são infalíveis, é claro, mas uma interpretação equivocada não é necessariamente fruto de má-fé. Estamos falando de humanos, e não de vilões.

 

Quem mandava no Brasil durante o período ditatorial ainda manda hoje, embora tenha mudado o arranjo. O regime representativo da democracia formal atualmente em vigor abre possibilidades de transformação, como a chegada de um ex-operário ao poder, mas foi o medo dos donos do poder econômico de perderem efetivamente o político que permitiu tais concessões, mas as exigiu também do lado petista. É sabido que tanto ricos como pobres, embora preservem certa margem de liberdade em suas ações, estão presos a uma estrutura social herdada de muitos anos e de muitos homens, não se trata de mocinhos ou bandidos, mas de indivíduos desempenhando determinado papel social numa sociedade desequilibrada, que condiciona o sucesso de uns à necessária desventura de outros. É o sistema capitalista competitivo que alguns consideram o melhor que o ser humano pode conceber. Sinceramente, tenho a ligeira impressão de que somos um pouco menos medíocres do que isso.

 

A estratégia do Narloch é bastante simples: narrar os fatos como se fossem óbvios e tratar os oponentes como se a estupidez deles fosse igualmente evidente, mesmo que para isso tenha sido obrigado a preencher lacunas com a imaginação para tornar o texto fluido e atraente. Ele abusa no uso de adjetivos, chegando ao descalabro de atribuir toda a guerra do Paraguai ao "vaidoso, cruel e louco" presidente Solano Lopez, ainda que para tanto tenha precisado desprezar todo o estudo das relações internacionais, que consideram essa forma de análise (primeiro imagem, segundo o teórico estadunidense Kenneth Waltz) insuficiente. É tão ridículo quanto atribuir a Hitler toda a culpa pelo nazismo, mas Narloch não hesitou em escrever com coragem tamanha besteira. Talvez pelo fato de a folha de papel em branco que esteve postada à sua frente, coitada, não ser dotada da capacidade de replicar.

 

Max Gimenes é estudante de Ciências Sociais.

 

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Comentários   

0 #17 Gabriel 30-12-2010 21:38
Adorei a necessidade de atacar a tentativa de objetividade do Narloch: os "filtros" e "versões" revelam um belo kantiano. Mesmo sem saber que o é (ou talvez sabendo).
Então marxismo não deve ser ciência. Afinal, não passa de um mero "ponto de vista"...
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0 #16 professor de historia (aposentado)William J. Ray 23-08-2010 16:45
Max, I enjoyed your comments very much. (Excuse me for writing in English, but I make too many errors in Portuguese. Use Google tradutor para traduzir mais ou menos ou que estou escrevendo se não lea em inglês. I just finished reading the Guia Politicamente Incorreto...and enjoyed parts of it very much, but it is certainly not serious history and very superficially documented. And that is an understatement! What disturbed me was the posture he takes of being so very correct in his views and everyone to the contrary is a boob. I especially disliked the way he simply dismisses the disappearance of native Brazilians and claims that it is really more their own fault than that of the Portuguese, his views on slavery are absurd (so what if Africans too practiced slavery?. That does not change the facts of the fundamental barbarity and inhumanity of the institution as practiced in the Americas. And his veiws on the mild military dictatorship that Brazil suffered through in the 1960s,70s, and 80s is simply offensive. I do not understand why there is such wide acclaim of this book and virtually no comment to the contray. The last sentence says it all--\"Viva o Brasil capitalista\". Give me a break Is this guy serious? Again, thanks for your insightful review. I was beginning to dispair that I was the only one who has read the book with serious reservations about its underlying point of view. (And I am not even that left. I consider myself to be a social democrat.)
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0 #15 historiadores e jornalistasJosé Alexandre 18-03-2010 21:28
Bem recentemente cheguei folhear o livro em questão, mas não o quis comprar. Não tenho nada contra jornalistas escreveram livros cuja matéria prima tem por base textos do passado. Acredito que nao sejam livros de história, neste caso parece que o autor pegou uma carona na onda dos almanaques. Alguns de seus colegas nesta última década também tem frequentado a seara da história com boas e médias reportagens, mas escrever que se trata de pésquisa histórica ja é forçação de barra. A fronteira que separa um livro de história e uma reportagem, ou seja lá o que for, com base no material histórico está propriamente na metodologia. ja expus minha opinião sobre isso em:http://www.medioparaiba.com .br/revista/noticia.php?l=5b0e bf19ea20fb7ba7e2dca5c3d5fe11
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0 #14 felipe kezen vieira 14-03-2010 15:29
Sempre digo que apenas dois caminhos nos levam à verdade absoluta: a ignorância ou a ideologia.
O autor do livro conseguiu a proeza de trilhar os dois caminhos para chegar à "sua" verdade absoluta.
Abraço.
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0 #13 Não li e não gostei também!Raphael 08-03-2010 19:41
Esse livro é apenas um conjunto de visões simplistas e afirmações baseadas em nada.

Quem quiser algo divertido compra um livro de piada,garanto que vão gostar.
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0 #12 Um resenha pontualDouglas Duarte 25-02-2010 07:48
Caros,

A quem interessar, publicamos uma resenha contestando factualmente diversas afirmações de Narloch. Quem quiser ler, encontra-se em http://olivreiro.com.br/blog/2010-02-23-guia-politicamente-incorreto-da-historia-do-brasil
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0 #11 Breves comentáriosMax Gimenes 18-02-2010 16:57
Em primeiro lugar, "só sei que nada sei". Quem tem a pretensão de ser o conhecedor da verdade absoluta da História é o Leandro Narloch. Eu apenas busco explicações e, nesta busca, concordo com uns, discordo de outros, a partir de parâmetros racionais e objetivos.
Três respostas:
Caro Igor, tudo neste mundo pode ser ou não bobagem, dependendo de quem tira a conclusão. Sugiro que leia "O homem, o Estado e a guerra", leitura obrigatória de qualquer curso de RI. A primeira imagem (e não "primeiro imagem", como aparece equivocadamente grafada a expressão na resenha)é insuficiente para explicar litígios internacionais. Você pode não concordar, ok, mas talvez "bobagem" não seja a palavra adequada.
Caro Cesar, a minha crítica não é pessoal ao autor (que aliás conheço pessolmente), mas à sua opção de abordagem. Não sou historiador, como o Narloch também não é, mas aceitaria pesquisar cada ponto abordado no "Guia" a partir de outro paradigma, desde que pudesse me dar ao luxo de fazer isso, ganhando para tal um adiantamento de uma grande editora. Talvez não seja a hora.
Caro Carlos, se o autor de um livro didático não for marxista, ele será, digamos, outra "coisa". Vamos ter de colocar um selinho em todas as obras? Acho que a honestidade intelectual de não distorcer os fatos nem de tratá-los como se fossem assim e ponto final seja suficiente (embora meio fora de moda, principalmente entre os jornalistas da "Veja").
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0 #10 Guia politicamente incorretoRoberto T. Neder 18-02-2010 12:35
"Não li e não gostei", como disse um escritor modernista brasileiro.Mas contrariando Oswald, lerei. O tal livro seria um guia ou serviria de desvio para um jovem estudante secundarista? Como "livro superdivertido" talvez servisse para quem possa lê-lo criticamente. Talvez seja até um livro "supertriste."
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0 #9 guia politicamente incorreto - narlochMark 17-02-2010 21:26
Ideologia por ideologia, eu prefiro ficar ao lado da q defende o homem e não o capital,é óbvio q vindo de qem veio, esse livro pretende ser uma reação aos livros mais críticos inspirados na visão consciente e desalienada da história, q eles naum gostam, tacham de distorções marxistas
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0 #8 Guia politicamente incorreto - NarlochVictor Lima 17-02-2010 09:51
Concordo Carlos!
O livro é ótimo, muito bem escrito. É ótimo que alguém tenha coragem de colocar as claras histórias que foram mistificadas tanto pelos pseudos-intelectuais de esquerda e direita!
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