De qual religião pertence o Estado brasileiro?

 

A história da formação do Brasil, assim como a dos países de colonização espanhola e portuguesa, teve ao longo dos anos imposições culturais que de certa maneira permanecem arraigadas em nosso cotidiano. Essa imposição cultural acontece de várias maneiras, inclusive no âmbito religioso.

 

A maior população católica do mundo, ou seja, a brasileira, não se formou por acaso. Religião "oficial" durante mais de cinco séculos, contribuiu para o processo de colonização do europeu, buscando ser a "única" força religiosa em nome de Deus, não só no Brasil, mas em quase todo o novo mundo.

 

Este processo não ocorreu de forma pacífica, pois ao chegarem encontraram povos indígenas com diversas práticas religiosas, tidas como pagãs pelos conquistadores e, portanto, devendo ser combatidas, num processo de etnocídio em nome da cristianização de milhões de cativos.

 

Isso ocorre de forma semelhante com as religiões de matrizes africanas, perseguidas, criminalizadas e marginalizadas, motivo ainda hoje de muito preconceito.

 

O "confronto"  etnocultural que se deu no Brasil tardiamente garantiu o avanço de nos formalizarmos como nação laica, sem caráter religioso, onde o Estado deve respeito às diversas práticas religiosas que compõem a espiritualidade brasileira – num país que se constituiu como uma verdadeira colcha de retalhos cultural.

 

Mas, somos, na realidade, um país verdadeiramente laico? Não!

 

Apesar da conquista histórica garantida por diversos movimentos sociais, religiosos e etnoculturais na Constituição brasileira de 1988, constituímos um país com grande preconceito religioso, onde as próprias instituições tidas como democráticas possuem práticas anticonstitucionais e desrespeitosas, como ostentação de símbolos religiosos em repartições públicas, prefeituras, câmaras de vereadores, fóruns, entre outras.

 

Além disso, nosso calendário possui grande quantidade de datas católicas como feriados, garantindo um certo discurso de unidade nacional que não existe, negando a diferença cultural formadora desta nação.

 

Até quando seremos capazes de nos intitularmos um país democrático e de liberdade religiosa, se não somos capazes de garantirmos o mínimo de qualquer país laico, o respeito? 

 

Willian Luiz da Conceição é acadêmico do Curso de História e militante do PSOL/SC.

 

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Comentários   

0 #6 Religião e Estado BrasileiroHélio Q. Jost 25-01-2010 09:01
Há evidente confusão na opinião do Sr. Francisco, quando fala do Cristo Redentor e dos nomes das Cidades. Não é disso que se trata. O Cristo e os nomes das cidades já são questões histórico-culturais que gozam, inclusive de proteção constitucional. Isso não está em jogo. O que é objeto de discussão, a meu ver, é que o Estado não pode ter religião e não manter em seus recintos, atos, sessões, ou adotar em qualquer solenidade, símbolos ou preferências religiosas. Poderá, inclusive, se evidenciado INTERESSE PÚBLICO, subvencionar festas, folclores, eventos culturais de fundo religioso.
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0 #5 ParabénsWlater Mendes Monteiro 24-01-2010 09:24
A nossa colização foi feita com a cruz e espada.
O seu artigo é excelente.
Fico chocado, quando ainda em pleno século XXI, usa fazer orações em escolas públicas.
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0 #4 Caro Francisco!Willian Luiz da conceição 21-01-2010 18:54
Não diminuo nenhuma das pautas que expos, inclusive milito na defesa do transporte coletivo, da reforma ágraria e na de moradia popular, atuamos numa ocupação chamada de Juquiá na zona sul de Joinville/Sc, link de Ocupação do Juquiá - uma história de luta - Parte I: http://www.youtube.com/watch?v=iOr7G_7wX7E.

Mas o que acho de verdade é que está pauta deve também ser debatida como todas as outras, não posso construir uma hierarquia de importancia entre as lutas sociais e populares e desmerece-las. Acho esse debate tem que ser levantado, por que não se contruiu por acaso, é parte de uma mesma estrutura interligada e eu como educador, pesquisador, acadêmico e militânte tenho o dever de me posicionar e tentar descontruir seja esclarecendo o porque temos estados com o nome de Santa Catarina, passando por simbolos em repartições públicas, até mesmo como foi o processo de demonização das religiões afrobrasileiras como o candomblé.

É um pouco isso!
Saudações,

Willian
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0 #3 Não se pode negar a históriaFrancisco 21-01-2010 12:59
Penso que este debate de liberdade religiosa, que concentra-se na discussão da presença ou não dos símbolos religiosos em repartições públicas é superficial, e, às vezes, eleitoreira. Bom para quem não tem bandeiras de real defesa dos direitos humanos ou prefere não afrontar situações de corrupção, por exemplo. Mas, só por um minuto, vamos levar este debate à seu grau mãximo. O que deveríamos fazer com o nome de nossas cidades e estados: São Paulo, Santa Catarina, São Carlos, Aparecida e tantas outras que levam o nome de santos, na maioria deles, católicos? O que fazer com o Cristo Redentor, cobrir com um plástico de cima a baixo? Vamos lá, temos uma história, e não é este ou aquele símbolo colocado em uma parede que há de fazer diferença na maneira de ser de nosso povo. Tá na hora de se preocupar mais com o trabalho para o povo, o alimento, a moradia, e dignidade para todos. Prender os corruptos, e estes sim, deveriam deixar de frequentar as repartições públicas e deveriam estar presos. Com certeza há bandeiras mais dignas e mais urgentes para a militância política.
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0 #2 IGUAL AO HAITILUIZ CARMO 21-01-2010 03:27
Vocês viram o que disse o Consul do HAiti no Brasil: que o Haiti é um páis cheio de negros macumbeiros.Que isso atrai a desgraça e que o terremoto vai contribuir para a melhora do país.
Deve ser porque matou milhares de negros.
Será que as associações de defesa dos negros no Brasil processou esse senhor por racismo e discriminação?
Esse é um belo exemplo da elite branca,européia, católica e colonialista que domina a América Latina até hoje. Seu artigo, William, foi muito feliz e o considero bastante esclarecedor.
Parabéns!
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0 #1 PNDH-3Gustavo Crivellari 20-01-2010 21:06
O recente Plano Nacional de Direitos Humanos faz avanços nessa questão.

Setores retrógrados da sociedade mostram a cara ao se opor inclusive a esse aspecto do plano.
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