A crise do Irã próxima do desfecho

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O problema suscitado pelo programa nuclear iraniano voltou a se agravar. A resolução do Corpo de Governadores do AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) exigindo que o Irã interrompesse o enriquecimento de urânio e a construção da usina de Quds jogou lenha na fogueira.

 

E, no entanto, depois da reunião de Genebra, entre o grupo dos 6 (membros do Conselho de Segurança da ONU + Alemanha) e a delegação iraniana tudo parecia se encaminhar para uma solução. As partes concordaram que o Irã enviaria 75% do seu estoque de urânio com baixo enriquecimento (de 3%) à Rússia e à França, que o devolveriam, enriquecido a 19,75%, para uso em medicina nuclear. Com isso, haveria certeza de que o governo de Teerã não estaria enriquecendo urânio com fins militares.

 

Mas esta proposta foi combatida dentro do Irã, não só pelos setores de linha dura, mas também pela oposição reformista, incluindo o ex-candidato presidencial Moussavi e seu principal líder, o ex-presidente Katami.

 

Todos desconfiavam da França, temiam que seu governo ficasse com o urânio iraniano, mas não cumprisse sua parte de entregar, em retorno, o correspondente enriquecido a 19,75%.

 

De fato, Sarkozy vem sendo um dos mais duros inimigos do Irã. É dele aquela frase pretensamente profética: "Ou a bomba iraniana ou o bombardeio". Foi também o presidente francês quem propôs que, caso a ONU não aprovasse novas sanções contra o Irã, a Europa deveria adotá-las por conta própria.

 

Problemas históricos também alimentavam as desconfianças de Teerã. No regime do Xá, o Irã e a França fundaram uma empresa, comprometendo-se o governo de Paris a implantar 5 reatores nucleares de 1.000 MW, com urânio enriquecido, e ajudar na implementação de um centro de pesquisa nuclear no Irã. Em 1977, o governo iraniano pagou 1,18 bilhão de dólares por 10% da produção de urânio enriquecido dessa companhia.

 

Mas, em 1979, o Xá foi destronado pela revolução islâmica e os franceses recusaram-se tanto a enviar o urânio devido ao Irã, quanto a devolver a importância paga por ele.

 

Diante desses precedentes, o governo do Irã exigiu 100% de garantias, propondo que a troca do seu urânio de baixo enriquecimento pelo equivalente em urânio com enriquecimento de 19,75% fosse feita simultaneamente. Em território iraniano ou de algum país confiável, como, por exemplo, a Turquia.

 

A resposta dos EUA e dos europeus foi negativa. Alegaram que o Irã queria ganhar tempo. O motivo da alteração no acordo por eles proposto não teria sentido. A má vontade é clara na postura do Grupo dos 6.

 

De fato, dá para entender por que os iranianos temiam pelo destino de 75% de todo o seu estoque de urânio.

 

O que não se entende é os EUA e países aliados concluírem que o programa nuclear iraniano teria objetivos militares, baseados em informações tão pouco convincentes que eles sequer as revelam.

 

Até agora, as fontes oficiais não têm encontrado evidências nesse sentido. Não só os inspetores do AIEA, mas também seu presidente em fim de mandato, El Baradei, e o novo presidente, Yukyia Amano, afirmam a inexistência de indícios de que o programa nuclear iraniano esteja voltado para a produção de artefatos bélicos. O mesmo sustentou, em fins de 2008, o próprio serviço secreto americano.

 

O fato do enriquecimento de urânio servir tanto para propósitos pacíficos quanto militares não é prova de que, através dele, o Irã pretenda produzir bombas. Então por que proibir que o Irã processe o enriquecimento?

 

A alegação de que com isso o país estaria desobedecendo ao Tratado de Não Proliferação de Bombas Nucleares é falsa porque no seu texto não há nada a esse respeito.

 

É verdade que o Irã deveria informar a construção de Quds até antes de ser iniciada e não dois anos depois, como foi feito.

 

Mas, explica o governo de Teerã, Quds é uma pequena usina planejada para que o enriquecimento de urânio, feito na grande usina de Natanz, não fosse interrompido em caso de bombardeio, coisa que Bush e Israel repetidas vezes vinham ameaçando fazer. Pelo mesmo motivo, Quds precisaria permanecer secreta. Com a diminuição das ameaças dos EUA e Israel depois do fim do governo Bush, o Irã comunicou sua existência à AIEA, bem antes de a usina tornar-se operacional.

 

O motivo do exagerado rigor dos EUA e seus aliados no trato com o Irã seria a necessidade de evitar a proliferação das armas nucleares pelo Oriente Médio.

 

Mas essa alegação é hipócrita, pois a postura deles é diferente com relação a outros países. Que são, talvez por coincidência, amigos da Casa Branca.

 

Os americanos transferiram sua tecnologia nuclear à Arábia Saudita, Qatar, Bahrein e Índia; nada fizeram para impedir que o Paquistão produzisse um arsenal nuclear e até apoiaram Israel no desenvolvimento de uma poderosa indústria de armas nucleares.

 

Reagindo à resolução da AIEA, o Irã informou que irá construir mais 10 grandes usinas nucleares. Embora considerando essa decisão um blefe, dadas as enormes dificuldades para levá-la a cabo, os EUA a qualificaram como um desafio, mais uma prova das más intenções iranianas. Já a França, através do seu ministro de relações exteriores, Bernard Kouchner, chamou-a de "infantil".

 

De qualquer maneira, o Grupo dos 6, fortalecido com a condenação das ações do Irã pela AIEA, com o voto da Rússia e a abstenção do Brasil, deverá propor junto ao Conselho de Segurança novas e mais pesadas sanções contra o Irã.

 

Fala-se em proibir os países da ONU de venderem ou transportarem produtos derivados de petróleo para os iranianos. Ora, embora sendo um dos maiores produtores mundiais de petróleo, o país precisa importar 40% dos derivados de que necessita. Bloquear sua importação simplesmente paralisaria o Irã, com conseqüências imprevisíveis.

 

Mesmo que apresentada ao Conselho de Segurança, sua aprovação não é certa. A China, que se manifestou recentemente de modo contrário, provavelmente irá usar seu direito de veto.

 

Nesse caso, o que acontecerá? A diplomacia voltará a entrar em cena? Os EUA e aliados apelarão para a OTAN, passando por cima da ONU? Israel receberá sinal verde para bombardear? As perspectivas não são boas.

 

Obama poderá, unilateralmente, penalizar as empresas americanas ou estrangeiras que comercializarem derivados de petróleo com o Irã. Isso representaria quase um bloqueio total, que criaria problemas de dimensões gigantescas.

 

O Irã não assistirá à destruição de sua economia de braços cruzados.

 

Luiz Eça, Marilena Eça, Guga Dorea, Marietta Sampaio, José Juliano Carvalho, Andrea Paes Alberico, são membros do Grupo de São Paulo, um grupo de pessoas que se revezam na redação e revisão coletiva dos artigos de análise de Contexto Internacional do Boletim Rede, editado pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, de Petrópolis, RJ.

 

Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

Artigo publicado na edição de dezembro de 2009 do Boletim Rede.

 

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