O ódio de classes como mística

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O ódio de classes como mística de luta sempre foi inaceitável para os cristãos. Recordo-me dessa questão posta por Frei Betto a Fidel Castro em seu livro "Fidel e a Religião". Não me recordo exatamente as observações de Fidel, apenas que não punha esse princípio como um dogma marxista.

 

Mas eu não falo do ódio das classes subalternas. Aliás, por mais sórdido que seja, sempre me recordo de Millôr Fernandes, quando ironizando a organização dos pobres: dizia em outras palavras que eles "nutrem um profunda admiração por seus patrões". Vi ao longo desses anos que os subalternos brasileiros – salvo os movimentos organizados - são levados mais por esse sentimento do que pelo ódio aos dominantes. Nunca me esqueço uma vez, no porto de Remanso, São Francisco, um visitante querendo uns peixes que eu pescara, que afirmava de modo contínuo: "sou motorista da família Ermírio de Morais". O ufanismo dele não era por ser motorista, mas por trabalhar na família do empresário.

 

Quero falar do ódio de classes que esses dias está sendo destilado por setores da mídia contra os pobres organizados – esse é o problema -, da revelação pública do sentimento de Boris Casoy contra os garis, de parlamentares como Caiado e Kátia Abreu, de fazendeiros que esmagam os Guaranis no Mato Grosso, do chefe do Supremo que devolveu a terra aos fazendeiros quatro dias depois de o presidente da República repassá-las aos Guaranis, assim por diante. Se havia algum pudor em esconder esse preconceito de classe, de etnia, ele não existe mais.

 

Os cristãos se alimentam do amor aos injustiçados, não do ódio aos injustos. Não é a mesma atitude. A indignação faz parte de nossas vidas, não fechamos os olhos para a realidade, não tapamos os ouvidos, não torcemos o nariz, mas não queremos destruir pessoas. Queremos superar injustiças. No jogo bruto da realidade, a distância entre um e outro pode ser a de um fio de cabelo. Por isso, o discernimento deve nos acompanhar sempre.

 

Nesse começo de ano, quando 2010 nos oferece o aperitivo do que será 2100, quando a fúria de Gaia contra os humanos chegará ao limite, além do caos ecológico, no Brasil continuaremos enfrentando o ódio de um punhado de ricos, apoiados por seus intelectuais orgânicos, que insistem em manter um Brasil rompido ao meio pelo ódio e preconceito de classes.

 

Roberto Malvezzi (Gogó), ex-coordenador da CPT, é agente pastoral.

 

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Comentários   

0 #6 João 13-01-2010 19:04
O autor reconhece que as classes dominantes alimentam um ódio de classe para com os trabalhadores, e diz que estes não devem odiar de volta. Lindo! comovente! dar a outra face! o discurso católico ainda é o mesmo de milhares de anos atrás, e o máximo de radicalismo dos cristãos é a caridade. E pensar que a esquerda brasileira está impregnada disso por toda parte. Assim vamos longe!
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0 #5 O PRECONCEITUOSO BORISGilson Raslan - Jaru/RO 09-01-2010 00:05
Não sei o porquê do espanto pela atitude preconceituosa do Boris Casoy, pois todos os jornalistas da grande mídia estão a serviço de seus patrões, que são eminentemente contra pobres, pretos e putas.
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0 #4 O lixo das elitesSergio 08-01-2010 17:53
Depois que o capital perdeu parte de seu poder (o governo do pais) começam a acontecer coisas que antes não aconteciam de jeito nenhum, as elites começam a mostrar sus reais intenções como fez o sr Casóy. Renomado reacionário.
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0 #3 Leni 08-01-2010 08:52
O cantor Wilson Simonal foi jogado ao ostracismo no país, porque foi acusado de ser dedo duro. E Boris Casoy que foi do CCC, é apresentador de telejornal numa ecmissora de TV - concessão publica -, entendo agora os editoriais contra as cotas raciais, onde pregavam que tal política pública incitaria ódio.
Falam do que praticam, do que conhecem, escondem-se de suas próprias histórias, usam máscaras, enganam a população, tentam demonstrar que são o que não são. O que faz esta gente na TV?
O ódio de classes está se intensificando, esta gente não quer um Brasil com justiça social, igualdade, não querem distribuição de renda e igualdade.
Defendem a liberdade mas odeiam a igualdade porque seus privilégios e distinções são a garantia da impunidade e poder.
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0 #2 Garis vão à Justiça contra discriminaçãoRuth Alexandre de Paulo Mantoa 08-01-2010 05:51
O Sindicato dos Trabalhadores de Empresa de Prestação de Serviço de Asseio e Conservação e Limpeza Urbana de São Paulo (Siemaco) e a Federação Nacional dos Trabalhadores em Serviços, Asseio e Conservação Limpeza Urbana, Ambiental e Áreas Verdes (Fenascom) entraram com três ações contra boris casoy, sendo uma delas criminal. A Band é citada em duas delas.

As ações de reparação civil em nome dos dois garis, Francisco Gabriel e José Domingos de Melo foram impetradas contra boris e a Band A outra ação é de indenização por danos morais em favor de toda a categoria. Ainda contra boris uma terceira ação, por crime de preconceito.

Apesar do nojo que sinto cada vez que revejo as imagens, não me causa estranheza o boris casoy, classificar como “merda” o desejo de um feliz ano novo, expressado por coletores de lixo.



Em 1996 durante O Projeto Repórter 2000, curso de complementação universitária da Oboré, eu e os demais participantes ouvimos da boca do boris casoy que um jornalista nascido em família pobre nunca teria o mesmo desempenho de um jornalista nascido em família rica. Argumentei citando casos de colegas, que tinham grande expressão no jornalismo brasileiro, apesar de uma infância pobre, um foi vendedor de sucata, outro boa fria, e boris casoy disse que os citados eram exceções.


Não dá a impressão que a discriminação não se restringe apenas aos garis, mas aos pobres em geral?



O comentário preconceituoso de boris casoy vazou acidentalmente, após o telejornal da Band veicular imagens de simpáticos e honrados trabalhadores da coleta de lixo, desejando felicidades aos telespectadores, no último dia de 2009.



O áudio não tinha sido cortado, casoy fez o seguinte comentário: "Que ''''merda.'''', dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras... Dois lixeiros, o mais baixo da escala de trabalho".



Ao fundo era possível ouvir alguém rindo com as afirmações de boris.



Depois que o comentário se tornou público boris limitou-se a pedir desculpas: “foi um erro...”



O vídeo também mostra um funcionário gritando que alguma coisa deu errado na transmissão. O erro técnico na verdade acertou em cheio o preconceito.
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0 #1 Não entendo o espanto..Marco Mota 07-01-2010 12:32
O lançe foi que pegamos os caras no fraglante falando \"merda\", mas o ódio que o Borys exala pelos poros contra o povo nunca foi segredo pra ninguêm. Quem conhece a história do Borys sabe que ele foi do odioso CCC, assessor de políticos da ditadura e sempre se pronunciou contra todo tipo de organização popular. Ou sertá que tem diferênça entre chamar os garis de \"a mais baixa escala do trabalho\" e chamar camponeses/as de \"crápulas, vândalos e marginas\" como ele sempre se referiu ao MST?
Sinceramente não entendo o espanto.
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